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Poucos gêneros cinematográficos foram tão mal compreendidos quanto o faroeste. Durante décadas, reduziu-se o western a homens de chapéu, cavalos, revólveres, saloons, mocinhas em perigo e sujeitos muito pouco inclinados a resolver suas divergências mediante uma conversa civilizada. Tudo isso está lá, por evidente, mas constitui apenas a superfície de histórias que ajudaram os Estados Unidos a inventar uma versão de si mesmos — e que cineastas cada vez mais inquietos trataram de desmontar.

O Velho Oeste do cinema nunca existiu exatamente como aparece na tela. Talvez resida aí boa parte de sua força. John Ford transformou a vastidão americana em território mítico; Sergio Leone cobriu esse mito de poeira, suor, ganância e ironia; Sam Peckinpah descobriu homens envelhecidos demais para continuar acreditando nele; Clint Eastwood, depois de ter sido um de seus rostos mais famosos, voltou décadas mais tarde para verificar o que ainda restava de pé.

Escolher apenas cinco filmes de uma história que passa por Ford, Hawks, Mann, Sturges, Leone, Peckinpah, Eastwood e tantos outros beira a temeridade. Ainda assim, alguns títulos estão acima das discussões menores. São obras que não apenas representam o western: modificaram a maneira de filmá-lo. Do Monument Valley às paisagens secas da fronteira mexicana, estes cinco filmes atravessaram o tempo. E continuam armados.

01

Era uma Vez no Oeste

Faroeste Direção de Sergio Leone Netflix

Sergio Leone não tinha pressa alguma. Em “Era uma Vez no Oeste”, o tempo parece esticar-se até quase parar, enquanto moscas zumbem, portas rangem, trens chegam e homens aguardam a morte com uma paciência que o cinema contemporâneo já não sabe reproduzir. Tudo muda quando Jill McBain, interpretada por Claudia Cardinale, chega para encontrar o homem com quem se casara e descobre que sua nova vida começara antes mesmo de ela desembarcar. Henry Fonda encarna Frank, um pistoleiro cuja crueldade contraria tudo quanto Hollywood acostumara-se a extrair do ator, enquanto Charles Bronson surge como Harmonica, uma figura quase sobrenatural que guarda junto à gaita as razões de sua vingança. Jason Robards completa o estranho triângulo masculino à volta de Jill. Leone transforma terras, trilhos e assassinatos numa ópera sobre o fim de um mundo. E Ennio Morricone faz com que até o silêncio pareça música.

Por que assistir

Leone leva o faroeste até uma espécie de perfeição formal em que enquadramento, silêncio, espera e música parecem ter o mesmo peso dos personagens. Claudia Cardinale é o coração de uma história dominada por homens armados, enquanto Henry Fonda subverte a própria imagem. Poucos filmes transformaram tão radicalmente o tempo cinematográfico.

02

Três Homens em Conflito

Faroeste Direção de Sergio Leone Prime Video

O Bom, o Mau e o Feio não são exatamente o que dizem seus apelidos. Essa já seria uma bela razão para que “Três Homens em Conflito” atravessasse seis décadas sem envelhecer, mas Sergio Leone tinha outras cartas na manga. Em plena Guerra Civil Americana, três homens descobrem que duzentos mil dólares em ouro estão enterrados num cemitério e passam a perseguir a fortuna, uns aos outros e, quando necessário, a própria morte. Clint Eastwood é Blondie, o Bom, um pistoleiro tão interessado no dinheiro quanto os outros; Lee Van Cleef faz Angel Eyes, cuja frieza transforma cada aparição numa ameaça; e Eli Wallach é Tuco, o Feio, bandido falastrão, desesperado e extraordinariamente humano, talvez o verdadeiro coração do filme. Leone empurra seus personagens por desertos, cidades destruídas e batalhas que não lhes dizem respeito, diminuindo-os diante do absurdo da guerra. Até chegarem ao cemitério e àquele duelo triangular que já não pertence somente ao western. Pertence à história do cinema.

Por que assistir

É difícil encontrar outro faroeste no qual espetáculo, humor, crueldade e aventura funcionem com tamanha naturalidade. Leone dispõe Eastwood, Van Cleef e sobretudo Eli Wallach num jogo de ganância e sobrevivência que culmina numa das sequências mais copiadas da história. A música de Ennio Morricone faz o restante parecer ainda maior.

03

Rastros de Ódio

Faroeste Direção de John Ford HBO Max

Ethan Edwards volta da Guerra Civil carregando uma amargura que ninguém sabe exatamente de onde vem. Pouco depois, o rancho de seu irmão é atacado, parte da família é morta e Debbie, sua sobrinha, levada pelos comanches. Ethan sobe no cavalo e começa uma procura que há de consumir anos de sua vida — e revelar muito mais sobre ele do que sobre aqueles que persegue. John Ford poderia ter feito apenas uma grande aventura de resgate. Preferiu outra coisa. “Rastros de Ódio” transforma a paisagem monumental do Oeste numa extensão da alma de um homem atormentado pelo racismo, pela solidão e por uma obsessão que aos poucos ganha contornos assustadores. John Wayne jamais foi tão complexo. Seu Ethan é heroico e abjeto, afetuoso e brutal, capaz de atravessar o mundo para encontrar a sobrinha sem que se saiba, durante boa parte do filme, o que pretende fazer quando finalmente a encontrar.

Por que assistir

John Ford usa as paisagens monumentais do Oeste para contar uma história muito menos confortável do que parece. A atuação de John Wayne rompe a ideia do caubói moralmente irretocável e deixa em cena um homem tomado por contradições. A célebre imagem da porta não encerra apenas o filme: praticamente define seu protagonista.

04

Meu Ódio Será Sua Herança

Faroeste Direção de Sam Peckinpah Prime Video — aluguel

O Velho Oeste já está morrendo quando Pike Bishop e seus homens percebem que talvez tenham envelhecido junto com ele. “Meu Ódio Será Sua Herança” começa praticamente avisando que não haverá espaço para inocentes. Crianças brincam com a morte, homens disparam contra homens e Sam Peckinpah põe sua câmera no meio da barbárie, sem fazer grande esforço para encontrar heróis onde eles já não existem. William Holden é Pike, chefe de uma quadrilha de veteranos que pretende realizar um último grande golpe antes da aposentadoria. Como costuma acontecer com homens que acreditam ter o destino sob controle, tudo dá errado. O bando segue para o México e envolve-se numa negociação de armas com o general Mapache, entrando de vez num universo onde dinheiro, amizade e lealdade custam sangue. Peckinpah filma a violência sem o verniz romântico dos westerns antigos. Os corpos pesam, os homens envelhecem, os tiros machucam. Talvez esta seja a grande tragédia de Pike e sua turma: não compreenderam que seu tempo acabou.

Por que assistir

Peckinpah ajudou a mudar a representação da violência no cinema e fez isso colocando no centro homens que já pertenciam ao passado. William Holden conduz um grupo de bandidos envelhecidos e exaustos, mas ainda perigosos. A montagem dos confrontos e a melancolia desse Oeste agonizante transformaram o filme numa referência incontornável.

05

Os Imperdoáveis

Faroeste Direção de Clint Eastwood HBO Max

William Munny já matou homens, roubou, bebeu e fez coisas das quais prefere não falar. Agora é viúvo, cria dois filhos e tenta sobreviver como um miserável criador de porcos. A paz pouco gloriosa acaba quando um jovem pistoleiro aparece com a notícia de que prostitutas de Big Whiskey oferecem uma recompensa para quem matar dois homens responsáveis pela mutilação de uma delas. Munny precisa do dinheiro. E essa necessidade basta para que o passado volte. Clint Eastwood dirige e interpreta o antigo assassino num filme que parece prestar contas com todos os pistoleiros que vivera desde os tempos de Sergio Leone. A ele juntam-se Ned Logan, de Morgan Freeman, e o jovem Schofield Kid, enquanto Gene Hackman encarna Little Bill Daggett, xerife que mantém a ordem mediante um curioso entendimento acerca da própria autoridade. “Os Imperdoáveis” destrói a fantasia de que matar seja simples, elegante ou heroico. Aqui, homens tremem, erram tiros, sentem medo e descobrem tarde demais que violência nenhuma desaparece depois do estampido.

Por que assistir

Eastwood retorna ao gênero que construiu sua imagem para retirar dele quase todo o romantismo. William Munny não é um pistoleiro em busca de glória, e Little Bill está longe de ser apenas um vilão. Gene Hackman, Morgan Freeman e Eastwood sustentam um filme em que cada morte deixa consequência — justamente o que tantos westerns anteriores escondiam.

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