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Ignácio de Loyola Brandão fez 90 anos.

Quando eu tinha praticamente um terço da idade dele e a petulância característica dos 20 anos, engrossei a plateia de fãs que, boquiabertos, assistiram à sua palestra em um auditório universitário de Bauru. Eu disse petulância porque, não me recordo nem como, fiz chegar a ele um texto de minha lavra, em páginas impressas.

Era uma reportagem pretensamente gonzo feita sem muito talento, mas com talante o bastante, na qual eu contava a história da principal avenida daquela cidade sob a perspectiva da própria. Sim, eu escrevia em primeira pessoa como se fosse a própria avenida que, personificada, contava sua epopeia diuturna sob pneus, sapatos, catarradas e toda a sorte dos mais vis desrespeitos.

Leitor de Loyola Brandão desde a adolescência, admirador de seu estilo elegante e bem-sacado de cronicar, havia pouco descoberto seu disruptivo romance “Zero” — e aquelas páginas nascidas nos anos 1970 ecoavam perigosas e pontiagudas em minha cabeça de jovem estudante de jornalismo.

Alguns dias depois, qual não foi minha surpresa ao abrir a caixa de e-mails e me deparar com um e-mail do próprio escritor, rubricado com um assunto que devia ser mais ou menos como “Sua reportagem” ou “Avenida Nações Unidas, Bauru”? Naquelas priscas eras, havia um intervalo perceptível entre o clique no título da mensagem e a abertura da própria. A ansiedade me consumiu naquela fração de minuto.

Não era um elogio. Era uma crítica.

Pouco importava. O Loyola Brandão havia lido meu texto, e isso já tinha significância. O Loyola Brandão tinha se dado ao trabalho de me escrever um e-mail a respeito do meu texto — para ele, portanto, eu não era um caso perdido.

Formei-me jornalista, mudei-me para São Paulo. Coincidentemente, fui morar no mesmo bairro em que ele, embora, na enormidade paulistana, isto nunca favorecesse que nos cruzássemos por acaso em uma padaria ou em um mercadinho. Tive a oportunidade de conversar com ele algumas poucas vezes, para reportagens pontuais — nunca, infelizmente, sobre ele em si; repórter de Cidades que eu fui, estava sempre interessado era na relação dele com o entorno, entre a Academia Paulista de Letras e a própria metrópole, por exemplo. Em alguns de meus plantões de fim de semana, fui privilegiado com a missão de fazer o fechamento de sua coluna — era mais prazer de ser um leitor de véspera do que trabalho.

Quando publiquei o livro que escrevi a respeito de Santo Antônio de Pádua, fui presenteado com uma crônica do próprio. “Linda história a contada por Edison Veiga, deliciosa de ler, comovente, traz alegria”, escreveu ele. Sim, texto para emoldurar à guisa de prêmio. Loyola Brandão contou que “pequenas coisas da vida cotidiana” lhe foram “reativadas no momento em que” ele leu a biografia que escrevi. Como sói, sua crônica é infinitamente melhor do que meu livro.

Certamente Loyola Brandão não se lembra daquele e-mail que me mandou no início dos anos 2000. Eu nunca me esqueci. Sua crítica não era ao formato da minha reportagem experimental, tampouco à essência da mesma. Era uma crítica que revelava seu espírito sensível e atento, empático. Loyola Brandão comentou que eu não deveria ter usado a expressão “pares de pés” quando, travestido de narrador-avenida, descrevia as agruras de ser desprezado chão. “E os que só têm uma perna? E os que se locomovem em cadeiras de rodas? Estes também não usam essas calçadas?”

O escritor que, em sua infância araraquarense, caminhava uns 3 quilômetros com o irmão Luís para a missa da igreja de Santo Antônio todo 13 de junho, não é alheio às limitações de cada um nas procissões do dia a dia, da lida, dos vaivéns da vida.

A mim, ficou uma lição formadora. Todas as vezes em que estou redigindo uma reportagem, lembro-me do Loyola quando me pergunto se estou me esquecendo de contemplar uma perspectiva importante que não tenha me ocorrido justamente por não ser a minha. Caçar pares de pés que sobram nas minhas matérias tornou-se parte do método de trabalho.

Ignácio de Loyola Brandão fez 90 anos. Ainda não tenho nem metade da vida dele e sigo aprendendo.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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