A televisão vive de ciclos, alguns especialmente ingratos. Uma série surge cercada de entusiasmo, toma as conversas por algumas semanas e desaparece no cemitério quase infinito dos catálogos, substituída por outra novidade que há de sofrer destino parecido. O streaming multiplicou a oferta a níveis delirantes, mas não necessariamente tornou mais simples encontrar alguma coisa realmente boa. Pelo contrário. Nunca houve tanto para assistir e talvez nunca tenha sido tão fácil perder duas horas escolhendo o que não se quer ver.
As cinco séries desta lista escaparam dessa engrenagem. Não estão aqui apenas porque atraíram público, viraram assunto nas redes ou receberam campanhas milionárias de seus estúdios. São produções adultas no sentido mais amplo da palavra: tratam o espectador como alguém capaz de lidar com contradições, personagens desagradáveis, silêncios, ambiguidades, violência, desejo, poder, culpa e escolhas sem esperar que a narrativa apareça logo depois para explicar o que acabou de acontecer.
Há um hospital em Pittsburgh onde cada minuto parece custar alguma coisa; rebeldes que descobrem que enfrentar um império é menos romântico do que parece; uma família obrigada a olhar para o filho que talvez nunca tenha realmente conhecido; funcionários condenados a duas existências dentro do mesmo corpo; e jovens financistas que venderiam a própria alma, desde que alguém soubesse calcular o retorno.
The Pitt
Hospitais são lugares onde a civilização perde depressa suas delicadezas. Ricos e pobres sangram da mesma maneira, o medo nivela arrogâncias e um sujeito que meia hora antes discutia trivialidades pode descobrir, sob uma luz branca e impiedosa, que sua vida entrou numa contagem regressiva. “The Pitt” entende isso tão bem que praticamente elimina qualquer distância segura entre o espectador e o Centro Médico de Emergência de Pittsburgh, um pronto-socorro superlotado onde médicos, enfermeiros, residentes, estudantes e pacientes parecem disputar o mesmo oxigênio. Noah Wyle é Michael “Robby” Robinavitch, médico veterano para quem salvar gente virou profissão, vício e uma forma bastante imperfeita de continuar inteiro. Criada por R. Scott Gemmill, a série acompanha plantões em tempo quase real e faz do relógio uma ameaça tão importante quanto qualquer diagnóstico. Casos entram e saem enquanto os profissionais tentam esconder exaustão, luto, vaidade e medo sob jalecos já sem nenhuma autoridade simbólica.
Por que assistir
O grande trunfo está em transformar a emergência num organismo vivo, caótico e indiferente às necessidades de quem trabalha ali. Noah Wyle encontra um personagem à altura de sua maturidade, e o formato quase em tempo real dá aos casos médicos uma tensão que raramente depende de truques. É drama hospitalar sem anestesia.
Andor
O Império Galáctico sempre foi muito mais interessante quando deixava de parecer apenas um ajuntamento de vilões vestidos de preto. “Andor” percebe que regimes autoritários não se sustentam somente por soldados, armas e líderes malignos, mas também por funcionários zelosos, burocratas ambiciosos, cidadãos assustados e gente comum convencida de que obedecer é mais confortável que resistir. Tony Gilroy retirou “Star Wars” do parque de diversões por algumas horas e encontrou por baixo das espaçonaves uma história política surpreendentemente adulta. Cassian Andor, vivido por Diego Luna, está longe do rebelde que o público conhece de “Rogue One”. Cínico, desconfiado e muito mais preocupado em sobreviver que em salvar a galáxia, ele entra aos poucos numa engrenagem clandestina cuja existência depende justamente de pessoas que aceitam perder quase tudo sem garantia alguma de vitória. Stellan Skarsgård, Genevieve O’Reilly e Denise Gough ajudam a povoar esse universo de conspiradores, aristocratas, agentes e funcionários que sabem que cada escolha cobra sua fatura.
Por que assistir
Porque é possível ignorar quase todo o universo de “Star Wars” e ainda encontrar aqui um excelente thriller político. Gilroy trata rebelião, espionagem e autoritarismo sem transformar resistência em aventura pueril. Diego Luna e Stellan Skarsgård conduzem uma história em que coragem quase nunca significa vencer; significa apenas aceitar o preço da escolha.
Adolescência
Pais conhecem os filhos menos do que imaginam, constatação aterradora que “Adolescência” leva até onde quase ninguém gostaria de ir. Jamie Miller tem treze anos quando policiais invadem a casa de sua família e o prendem sob acusação de ter assassinado uma colega da escola. Não há introdução confortável, preparação ou promessa de que algum mistério elegante irá colocar as coisas em ordem. Em poucos minutos, Eddie Miller olha para o menino algemado e começa a descobrir que talvez exista um estranho usando o rosto de seu filho. Stephen Graham, também cocriador da minissérie com Jack Thorne, interpreta esse pai esmagado por perguntas para as quais nenhuma resposta parece suficiente. Owen Cooper, como Jamie, alterna fragilidade, raiva e algo mais difícil de nomear, especialmente quando o menino passa a ser confrontado com aquilo que pensa sobre mulheres, colegas, rejeição e o próprio lugar no mundo. “Adolescência” começa como investigação criminal e termina entrando num território infinitamente mais incômodo. O crime importa. O que produziu aquele menino importa muito mais.
Por que assistir
Philip Barantini filma cada episódio em plano contínuo, mas a técnica nunca sufoca o drama. Ao contrário, elimina as saídas de emergência do espectador. Stephen Graham e Owen Cooper sustentam confrontos de uma violência quase sempre verbal, enquanto a série desmonta respostas fáceis sobre família, internet, masculinidade e culpa sem transformar nenhuma delas numa explicação definitiva.
Ruptura
Quase todo trabalhador já desejou alguma vez deixar os problemas do emprego na porta do escritório. “Ruptura” parte dessa fantasia inocente e a transforma num dos pesadelos mais elegantes da televisão recente. Na Lumon Industries, determinados funcionários submetem-se voluntariamente a um procedimento que separa suas memórias. Quando entram no trabalho, não sabem nada sobre a vida do lado de fora; ao deixarem o prédio, não guardam lembrança alguma do que fizeram durante o expediente. Mark Scout, vivido por Adam Scott, aceita esse estranho pacto depois de uma perda pessoal e passa a comandar um pequeno grupo preso numa rotina cuja normalidade já seria suficientemente assustadora mesmo sem corredores intermináveis, salas assépticas, tarefas incompreensíveis e chefes com a cordialidade dos carrascos bem-educados. Criada por Dan Erickson e conduzida em boa parte por Ben Stiller, a série explora a experiência de Helly, Irving, Dylan e Mark sem transformar seu mistério num amontoado de truques. Quanto mais a Lumon se explica, mais absurdo parece que alguém aceite trabalhar ali.
Por que assistir
A ficção científica é apenas a porta de entrada para uma reflexão muito mais cruel sobre trabalho, identidade e liberdade. A geometria opressiva da Lumon, o humor quase burocrático e as atuações contidas transformam pequenas tarefas em ameaças. E permanece a pergunta que sustenta tudo: se duas consciências dividem um corpo, qual delas tem direito sobre a vida?
Industry
Dinheiro é uma religião especialmente eficiente porque seus fiéis não precisam acreditar em nada. Basta querer mais. “Industry” acompanha jovens suficientemente inteligentes para entender como funciona essa liturgia e imprudentes o bastante para imaginar que poderão sair dela sem pagar preço algum. Criada por Mickey Down e Konrad Kay, a série começa em torno de recém-formados disputando espaço num banco de investimentos em Londres e, temporada após temporada, aumenta a aposta até que carreira, sexo, amizade, família e dignidade virem ativos negociáveis. Harper Stern, personagem de Myha’la, aprendeu cedo a atacar antes que alguém descubra onde acertá-la. Yasmin Kara-Hanani, vivida por Marisa Abela, move-se em outro universo, protegida pelo dinheiro e ao mesmo tempo deformada por ele. À volta das duas, chefes, colegas, investidores e herdeiros praticam uma modalidade particularmente sofisticada de canibalismo social, sempre vestidos com roupas muito caras. “Industry” já foi comparada a “Succession”, o que hoje parece quase preguiça. Encontrou seu próprio inferno. E nele todo mundo sabe fazer contas.
Por que assistir
Poucas séries contemporâneas transformam ambição em algo tão fisicamente desagradável. “Industry” usa o mercado financeiro como arena, mas seu assunto verdadeiro são pessoas que confundem valor e preço até já não distinguirem um do outro. Myha’la e Marisa Abela crescem junto com personagens que ficam mais fascinantes precisamente à medida que se tornam menos defensáveis.

