A contradição é apenas aparente. Não existe régua capaz de provar que “Anna Kariênina” é melhor do que “Madame Bovary”, muito menos aparelho científico que determine se qualquer um deles deve ficar três posições acima de “Ulysses”. Literatura não é salto em distância, embora críticos, escritores e leitores passem boa parte da vida tentando organizar a bagunça em prateleiras. Ainda bem.
O que uma lista isolada não consegue fazer, porém, muitas listas colocadas umas sobre as outras começam a revelar. Não quem é “o melhor”, pergunta meio infantil, mas quem sobrevive às mudanças de gosto, às escolas críticas, às modas acadêmicas e até às fronteiras nacionais. Em outras palavras: quando pessoas diferentes, em épocas diferentes e por critérios diferentes, resolvem escolher os grandes romances da história, quais livros insistem em reaparecer?
Foi essa a conta que fizemos.
Cruzamos dez grandes seleções internacionais publicadas entre 1991 e 2026. Entraram no levantamento a votação organizada pelos clubes do livro da Noruega e pelo Instituto Nobel Norueguês com cem escritores de 54 países; a sueca Världsbiblioteket; listas do “Guardian”, “Observer”, “Telegraph”, “ABC” e “Die Zeit”; a seleção russa do suplemento “NG-Ex Libris”; e os cânones individuais dos críticos Daniel S. Burt e Ted Gioia. Nenhuma fonte ganhou peso especial. Apareceu, marcou um ponto. Não apareceu, paciência. O “Guardian” de 2026, por exemplo, ouviu 172 escritores, críticos e acadêmicos; a seleção norueguesa não estabeleceu posições, com uma exceção tão eloquente que quase estraga a surpresa do primeiro lugar: “Dom Quixote” recebeu cerca de 50% mais votos que qualquer outro livro.
Naturalmente, as listas carregam vícios. A sueca gosta de suecos, a russa conhece melhor sua vizinhança, os jornais britânicos não demonstram particular inclinação a esquecer a língua inglesa. Talvez seja justamente essa soma de parcialidades que torne o resultado interessante. Não encontramos o impossível romance objetivamente perfeito. Encontramos algo mais modesto e, pensando bem, mais difícil: aquela região do cânone em que opiniões muito diferentes acabam concordando.
Há ausências escandalosas, posições discutíveis e alguns suspeitos de sempre. Como deveria ser.
O Som e a Fúria
Há maneiras mais cordiais de apresentar uma família ao leitor. William Faulkner não estava interessado nelas.
“O Som e a Fúria” abre com Benjy Compson, homem com deficiência intelectual cuja consciência ignora a velha convenção segundo a qual uma história deve começar em algum ponto, seguir em frente e terminar em outro. Presente e passado entram na página segundo associações que ninguém se dispõe a explicar. Depois virão Quentin, Jason e, finalmente, um narrador em terceira pessoa. Cada nova voz esclarece alguma coisa sobre a decadência dos Compson, velha família aristocrática do sul dos Estados Unidos, e aproveita para embaralhar outra.
No centro está Caddy, que Faulkner teve a perversidade técnica de transformar na personagem decisiva do romance sem lhe conceder uma seção própria. Conhecemos aquela mulher pelo amor, pelo desejo, pela fúria e pelo ressentimento dos outros. É uma ausência que ocupa o livro inteiro.
Publicado em 1929, o quarto romance de Faulkner merece a reputação de difícil. Não adianta vender facilidade onde ela não existe. A questão é que sua dificuldade não funciona como medalha modernista pregada na lapela. Uma família em decomposição é narrada por consciências e por uma linguagem que também parecem decompor-se. Forma e desastre doméstico viram a mesma coisa.
Quase um século depois, o velho quebra-cabeça continua sendo montado.
Middlemarch
“Middlemarch” ganhou a grande votação do Guardian de 2026 e ficou apenas em 24º lugar neste cruzamento. Nada há de errado. Ganhar uma eleição e sobreviver a eleições diferentes, como políticos descobrem cedo ou tarde, são habilidades distintas.
George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, acompanha durante alguns anos uma cidade provinciana inglesa e concentra sua atenção principalmente em duas figuras. Dorothea Brooke é jovem, inteligente, idealista e comete o tipo de erro que dispensa vilões: casa-se com um homem inadequado acreditando que a aridez dele seja profundidade intelectual. Tertius Lydgate, médico ambicioso, chega a Middlemarch disposto a modernizar a profissão e também descobre que dinheiro, convenção social, casamento e vaidade formam uma espécie de pântano.
Nada disso parece matéria muito explosiva. E não é. Ninguém precisa esconder cadáver no porão para que George Eliot exponha uma vida arruinada. Uma concessão aqui, uma dívida acolá, um casamento ruim, uma pequena covardia convenientemente racionalizada — pronto.
Publicado inicialmente em partes entre 1871 e 1872, o romance realiza uma das grandes promessas do realismo: demonstrar que a matéria ordinária da vida contém tragédias suficientes para dispensar trovões. Eliot observa tão de perto as pequenas acomodações morais de seus personagens que algumas páginas parecem escritas por alguém provido de um aparelho de raio X para o caráter.
É um monumento construído com gente tentando simplesmente viver.
Mrs Dalloway
Clarissa Dalloway precisa comprar flores para a festa que dará naquela noite. Septimus Warren Smith precisa sobreviver ao que a Primeira Guerra Mundial deixou dentro de sua cabeça.
Em termos de enredo, portanto, não estamos propriamente diante da perseguição aos assassinos de Kennedy. Virginia Woolf faz melhor: comprime o romance em poucas horas de um dia de junho de 1923 e abre dentro delas uma quantidade quase obscena de tempo. Clarissa atravessa Londres, pensa no marido, na juventude, numa antiga paixão, nos convidados, na morte. Septimus, veterano atormentado por vozes e visões, atravessa a mesma cidade carregando o pedaço da guerra que a sociedade inglesa preferia dar por encerrado.
Os dois não precisam se encontrar. Suas consciências fazem o trabalho.
Publicado em 1925, “Mrs Dalloway” continua sendo apresentado como romance experimental, qualificação correta e um pouco insuficiente. Há fluxo de consciência, mudanças de ponto de vista, elasticidade temporal e uma voz que desliza quase sem aviso de uma cabeça para outra. Tudo muito moderno, certamente. Só que essa aparelhagem sofisticada está a serviço de uma curiosidade literária tão antiga quanto contar histórias: como seria estar, durante algum tempo, dentro de outra pessoa?
Woolf transforma a preparação de uma festa num mergulho em vidas inteiras. O dia acaba. O tempo, evidentemente, não.
Frankenstein
Há livros que ficam famosos. “Frankenstein” sofreu destino mais complicado: foi quase soterrado pela própria fama.
Dois séculos de cinema, quadrinhos, fantasias e desenhos animados transformaram sua criatura num sujeito verde, de testa quadrada, parafusos no pescoço e consideráveis dificuldades de conversação. Mary Shelley imaginou algo bem mais perturbador.
Victor Frankenstein é um jovem cientista que descobre como produzir vida. Consegue o que deseja e imediatamente demonstra não ter pensado muito no passo seguinte. Ao ver a criatura, foge. O abandono é o pecado original do livro. Sozinho, aquele ser aprende a falar, ler, pensar e observar os humanos. Aprende também que sua aparência basta para condená-lo. Inteligente, eloquente e desesperadamente necessitado de afeto, o “monstro” vai se tornando mais humano na mesma proporção em que seu criador se torna menos.
Mary Shelley tinha 20 anos quando o romance saiu anonimamente, em 1818, depois da lendária temporada suíça em que ela, Percy Shelley, Lord Byron e companhia se distraíram contando histórias de fantasmas. Havia férias piores.
O terror propriamente dito envelheceu menos do que se poderia imaginar porque sua pergunta não depende de cadáveres eletrificados nem de laboratórios góticos. O que uma pessoa deve àquilo que criou? Victor quer o poder de um deus e, quando chega a hora de assumir a responsabilidade correspondente, revela-se bastante humano.
A tecnologia mudou muito desde 1818. Esse defeito, não.
Ao Farol
Um menino quer visitar um farol. A família está de férias numa casa da ilha de Skye, na Escócia. Talvez dê para ir amanhã. Talvez chova.
Se alguém acha pouca história para um romance, está procurando a história no lugar errado.
Virginia Woolf organiza “Ao Farol” em três movimentos. O primeiro se concentra em algumas horas na casa dos Ramsay. O segundo atravessa dez anos com uma violência quase silenciosa: a casa fica praticamente vazia, a guerra passa pelo mundo, pessoas morrem — algumas em meia frase — e o tempo toma conta dos cômodos. O terceiro reúne o que restou.
Publicado em 1927, é talvez o ponto em que a radicalidade formal de Woolf e sua capacidade de emocionar sem melodrama se entendem melhor. Um jantar pode consumir páginas porque, naquele jantar, cabem casamento, desejo, vaidade e a sensação incômoda de que toda reunião de pessoas já contém em segredo sua futura dispersão.
Lily Briscoe, a pintora que tenta concluir um quadro enquanto luta contra as vozes encarregadas de lhe ensinar os limites reservados a uma mulher, acrescenta à história outra forma de permanência.
O farol é a parte simples. Continua no mesmo lugar. O problema são os seres humanos.
Orgulho e Preconceito
Um homem solteiro e rico deve estar procurando esposa. Todo mundo sabe disso. Principalmente quem tem filhas solteiras e pouco dinheiro.
Jane Austen abre “Orgulho e Preconceito” pregando essa pequena armadilha e passa o restante do romance demonstrando que, onde sua sociedade vê verdades naturais, ela enxerga convenções bastante engraçadas.
Elizabeth Bennet tem quatro irmãs, uma mãe empenhada numa campanha matrimonial de proporções militares e um patrimônio incapaz de garantir tranquilidade às filhas. Fitzwilliam Darcy possui fortuna, posição, orgulho e um talento notável para entrar numa sala e fazer metade das pessoas detestá-lo. Os dois se desentendem, naturalmente. Depois a coisa complica.
A fórmula amorosa foi tão copiada que hoje parece simples: duas pessoas começam se julgando mal e acabam apaixonadas. Só que Jane Austen não escreveu um manual ancestral da comédia romântica. Casar, naquela Inglaterra, era também negociar patrimônio, classe, segurança econômica e reputação. O amor precisava abrir espaço entre tudo isso.
Austen atravessa o material com uma ironia de aparência tão educada que às vezes demora para mostrar os dentes. Seus idiotas são impiedosamente expostos, mas Elizabeth, inteligente demais para acreditar que possa estar errada, também precisa descobrir que o preconceito não é privilégio dos tolos.
Publicado em 1813, o romance continua sendo lido por prazer, sem precisar daquela caridade cultural com que às vezes visitamos clássicos como quem visita parentes idosos. Não é vantagem pequena.
O Grande Gatsby
Jay Gatsby tem uma mansão em Long Island, oferece festas espetaculares, serve bebida a multidões e parece conhecer todos. Ninguém sabe exatamente quem ele é.
O proprietário, aliás, tem interesses mais específicos. Toda aquela maquinaria de riqueza trabalha para uma única espectadora: Daisy Buchanan, a mulher que Gatsby amou quando ainda não possuía dinheiro suficiente para imaginar que poderia merecê-la.
Nick Carraway, vizinho de Gatsby e primo de Daisy, observa o espetáculo da primeira fila. Seu olhar, dividido entre fascínio e repulsa, permite que a euforia dos anos 1920 adquira aparência de ressaca antes mesmo de acabar a festa. Tom Buchanan nasceu cercado pelo tipo de dinheiro que dispensa explicações e carrega junto com ele a brutalidade de quem jamais precisou inventar a própria identidade. Gatsby fez o caminho contrário. Fabricou a si mesmo.
A frase “crítica ao sonho americano” foi repetida tantas vezes em trabalhos escolares que já ameaça funcionar como repelente contra o romance. Seria uma pena. Gatsby não interessa porque representa uma tese sociológica com piscina. Interessa porque acredita que dinheiro, esforço e desejo podem lhe devolver aquilo que nenhuma fortuna compra: o tempo.
Quer o passado de volta. A ideia é ridícula.
Quem nunca quis pode rir primeiro.
1984
Poucos romancistas tiveram o privilégio — ou a desgraça — de ver suas invenções transformadas em vocabulário de uso corrente. Grande Irmão, duplipensamento, Polícia do Pensamento, novilíngua. Muita gente nunca leu “1984” e mesmo assim conhece pedaços do livro. Isso costuma acontecer com religiões e marcas de refrigerante.
Winston Smith vive na Oceânia, um Estado totalitário em guerra permanente que deseja controlar não apenas o comportamento de seus habitantes, mas a matéria com que eles pensam. Winston trabalha no Ministério da Verdade, onde altera documentos antigos para garantir que o passado jamais entre em desacordo com o presente oficial. Se o Partido disse hoje o contrário do que dizia ontem, ontem precisa mudar.
Então Winston começa a escrever um diário. Depois conhece Julia. Num mundo assim, lembrar, desejar e amar já constituem atividades clandestinas.
Orwell publicou o romance em 1949, gravemente doente, depois de ter observado fascismo, stalinismo, guerra, propaganda e manipulação política em escala industrial. O livro nasceu daquele século, mas teve a inteligência de não se deixar aprisionar por uma única ditadura.
Daí a situação curiosa: grupos ideológicos incompatíveis continuam usando Orwell para denunciar os adversários. O Grande Irmão, como se sabe, é sempre o outro.
Talvez seja uma das razões pelas quais ainda sentimos que ele está olhando.
Lolita
Humbert Humbert fala muito bem. Esse é o problema.
Ele quer convencer o leitor de que sua obsessão sexual por Dolores Haze, menina de 12 anos que rebatiza como Lolita, pertence ao território do amor trágico, da fatalidade, de alguma espécie grandiosa de paixão. Para sua infelicidade — e nossa sorte — Vladimir Nabokov escreve melhor do que Humbert consegue mentir.
“Lolita” é uma armadilha moral fabricada com uma das prosas mais sedutoras do século 20. Culto, espirituoso, autoconsciente e monstruoso, Humbert tenta realizar uma fraude diante de nossos olhos. Sua linguagem transforma abuso em romance, violência em paixão e uma criança numa suposta cúmplice de sua própria exploração. O leitor precisa reaprender a enxergar Dolores atrás da personagem verbal chamada Lolita.
Publicado primeiro em Paris, em 1955, depois de recusas de editoras americanas receosas do escândalo, o romance tornou-se best-seller, clássico e fonte quase inesgotável de mal-entendidos.
A audácia de Nabokov não esteve simplesmente em escolher um criminoso como narrador. Literatura fez isso antes e depois. O risco foi dar a esse homem uma voz tão brilhante que o leitor pode se deixar seduzir exatamente pela estratégia que deveria estar julgando.
A fraude nem sempre foi percebida. Continua não sendo.
Não deixa de ser uma prova incômoda da eficiência do livro.
As Aventuras de Huckleberry Finn
Huck Finn foge de um pai alcoólatra e violento. Jim foge da escravidão. Numa jangada descendo o Mississippi, os dois vão encontrar assassinos, vigaristas, famílias ocupadas em se exterminar por razões que já ninguém recorda e cidadãos perfeitamente respeitáveis.
A civilização, como se percebe, não se sai muito bem.
Mark Twain publicou o romance em 1884 apostando a narração na voz de um garoto pobre, pouco escolarizado e cheio dos preconceitos que sua sociedade lhe ensinou. É justamente aí que a aventura ganha força moral. Huck aprende que ajudar Jim a escapar é pecado e crime. A experiência de conviver com ele, porém, informa uma coisa diferente. Em determinado momento, precisa escolher entre aquilo que todos chamam de certo e aquilo que ele começa a perceber como humano.
A opção pela linguagem coloquial e por diferentes dialetos alterou profundamente a prosa americana. Hemingway, nunca conhecido pela modéstia das afirmações, diria depois que toda a literatura moderna dos Estados Unidos vinha desse livro. Exagerou. Havia, como muitas vezes nos exageros de Hemingway, alguma coisa verdadeira ali.
O romance também envelheceu com problemas à mostra: insultos raciais, caricaturas e sobretudo uma sequência final em que Tom Sawyer transforma a libertação de Jim numa brincadeira desnecessariamente longa.
Clássicos não são bibelôs. Alguns chegam ao presente dando bastante trabalho.
A Montanha Mágica
Hans Castorp sobe aos Alpes suíços para visitar durante três semanas o primo internado num sanatório de tuberculosos.
Fica sete anos.
Só isso deveria servir de advertência a quem acredita controlar a duração das próprias férias.
Thomas Mann publicou “A Montanha Mágica” em 1924 e fez do sanatório de Davos uma Europa reduzida às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Castorp chega saudável, jovem, razoavelmente ingênuo e sem uma ideia muito definida do que pretende fazer da vida. A montanha se encarrega de sua educação. Apaixona-se por Clawdia Chauchat e cai sobretudo sob influência de dois professores não solicitados: o humanista Settembrini e o radical Naphta, que transformam liberdade, religião, violência e história numa discussão interminável.
A doença é doença, atmosfera, símbolo, ameaça e oportunidade de suspensão da vida lá embaixo. Mann era escritor suficientemente bom para não permitir que uma única chave resolvesse tudo.
Até o tempo adoece. Minutos custam a terminar; anos desaparecem. O livro é longo, digressivo, intelectual, irônico e povoado por gente que mede a temperatura do corpo várias vezes ao dia. Parece um método engenhoso de expulsar leitores.
Pois continua sendo lido e reaparecendo em listas.
Talvez a literatura goste de contrariar os especialistas em facilidade.
O Morro dos Ventos Uivantes
Chamar Heathcliff e Catherine de um dos grandes casais românticos da literatura é defensável. Só convém acrescentar que seu amor destrói duas famílias, contamina outra geração, atravessa a morte e faz uma separação litigiosa parecer estratégia recomendável de saúde mental.
Emily Brontë publicou seu único romance em 1847, sob o nome masculino Ellis Bell, e morreu no ano seguinte, aos 30 anos. A história chega ao leitor por uma cadeia de testemunhos. O sr. Lockwood se instala nas proximidades de Wuthering Heights, conhece Heathcliff e percebe rapidamente que aquele não é o ambiente doméstico ideal para um catálogo de móveis. A governanta Nelly Dean assume então a tarefa de reconstruir a desgraça das famílias Earnshaw e Linton.
Heathcliff entra nessa história como uma criança órfã trazida para casa. Cresce humilhado por sua posição social, apaixonado por Catherine e carregando um ressentimento que terá décadas para amadurecer.
Os narradores encaixados garantem algo essencial: nunca recebemos a verdade sem intermediários. E Brontë resiste com admirável falta de educação à tentativa de transformar paixão em virtude. Heathcliff foi vítima. Também é amante. Também é um monstro.
Uma coisa não absolve a outra.
Quase dois séculos de domesticação escolar não conseguiram tornar o livro comportado. Ainda bem.
O Vermelho e o Negro
Julien Sorel nasceu pobre, é bonito, inteligente e tem a perigosa convicção de que o mundo lhe deve coisa melhor.
Filho de um serrador numa França que restaurou a monarquia depois de Napoleão, precisa descobrir qual uniforme ainda oferece passagem para cima. O vermelho do Exército perdeu boa parte da antiga capacidade de transformar rapazes ambiciosos em homens poderosos. Resta o negro da batina.
Stendhal põe Julien para escalar. Ele vira preceptor, envolve-se com Madame de Rênal, entra no seminário, chega a Paris, penetra na aristocracia e se apaixona por Mathilde de La Mole. Como ocorre com montanhas sociais, cada cume revela outro logo atrás.
Seria simples transformar Julien apenas em vítima de uma sociedade hierarquizada. Stendhal não lhe dá essa facilidade. O rapaz é seu próprio problema com frequência impressionante. Inteligente o bastante para compreender os mecanismos do mundo, usa a inteligência também para sabotar a própria felicidade, interpretar gestos como movimentos militares e transformar relações humanas em campanhas estratégicas.
Publicado em 1830, “O Vermelho e o Negro” é psicológico antes da consolidação do romance psicológico e social sem a chatice de posar como tratado sociológico.
Stendhal observa a corrida por dinheiro, poder, amor e prestígio com uma proximidade que não exclui o riso.
Julien quer dominar o mundo.
O mundo, infelizmente, não recebeu a circular.
Crime e Castigo
Raskólnikov tem uma teoria.
Péssimo começo.
Ex-estudante pobre, isolado e orgulhoso, ele concluiu que indivíduos extraordinários podem ultrapassar as regras morais comuns quando perseguem fins superiores. Napoleão certamente não parava para pedir autorização. Por que Raskólnikov deveria fazê-lo?
Resolve testar a tese assassinando uma velha agiota e, de quebra, melhorar sua situação financeira. O experimento intelectual dura alguns minutos. O castigo começa praticamente no mesmo instante — muito antes de polícia, julgamento ou sentença.
Dostoiévski publicou o romance em 1866. Conhecia prisão, trabalhos forçados na Sibéria e até a experiência de esperar uma execução cancelada no último momento. Seria tolice converter Raskólnikov em simples autorretrato, mas não é difícil perceber por que a culpa, naquele livro, parece ter temperatura, cheiro e pulsação.
O rapaz sua, delira, caminha por uma São Petersburgo sufocante, contradiz-se, adoece, enfrenta intelectualmente o investigador Porfiri Petróvitch e se aproxima de Sônia, jovem prostituta que oferece à narrativa algo parecido com uma saída espiritual.
Como história policial, “Crime e Castigo” comete a extravagância de revelar o assassino desde o início e continuar funcionando magnificamente.
Quem matou não é o mistério.
A pergunta é muito pior: o que acontece com uma ideia quando ela sai da cabeça de alguém, apanha um machado e resolve experimentar a realidade?
Os Irmãos Karamázov
Fiódor Pavlovitch Karamázov é o tipo de pai cuja morte, em vez de produzir apenas luto, produz uma lista razoavelmente extensa de suspeitos.
Dmitri tem motivos. Ivan tem ideias capazes de causar calafrios. Smerdiákov ocupa uma posição particularmente espinhosa na família. Aliócha, discípulo do monge Zóssima, talvez seja o único sinceramente empenhado em que ninguém mate ninguém.
Publicado em 1880, último romance de Dostoiévski, “Os Irmãos Karamázov” dá endereço comum às obsessões que perseguiram o escritor durante a vida inteira. Deus e ateísmo, liberdade, culpa, família, violência e redenção passam a dividir o mesmo casarão. Com frequência, discutem durante páginas e páginas. Qualquer manual contemporâneo de “como fisgar o leitor nos primeiros três segundos” teria um colapso.
O espantoso é que funciona porque as ideias não são peças abstratas colocadas em bocas diferentes. Ivan não representa a descrença religiosa: é ferido por ela. Dmitri não simboliza a paixão: faz uma quantidade colossal de besteiras por causa dela. Aliócha precisa descobrir o que acontece com sua fé quando ela deixa o mosteiro e encontra pessoas de verdade.
Há um assassinato, uma investigação e um julgamento.
Mas Dostoiévski espalha o tribunal pelo livro inteiro.
Quando percebemos, o leitor também está sentado no banco dos réus.
Guerra e Paz
“Guerra e Paz” anuncia duas coisas no título e entrega umas vinte.
Napoleão invade a Rússia, exércitos avançam, Moscou arde e generais tomam decisões que historiadores futuros organizarão em explicações muito mais lógicas do que aquelas de que dispunham os homens na hora. Enquanto isso, as famílias Bolkónski, Rostóv e Bezúkhov casam, traem, brigam, reconciliam-se e procuram descobrir o que fazer com a própria existência.
Publicado em sua forma completa em 1869, o romance parece ter decidido que fronteiras de gênero eram problema de terceiros. Cabe ali saga familiar, história militar, romance amoroso e uma longa briga de Tolstói com a tese de que os chamados grandes homens comandam a História.
Napoleão é submetido a tratamento particularmente pouco cerimonioso. Diante da multidão invisível de decisões, acidentes e movimentos que produzem um acontecimento histórico, o imperador parece às vezes apenas alguém muito convencido de sua importância.
O tamanho assombra, naturalmente. Mas o prodígio não está nas centenas de personagens nem nos campos de batalha. Está no detalhe: Natasha entrando num salão, Pierre tentando se tornar uma pessoa decente, Andrei ferido olhando para o céu.
O livro tem escala gigantesca sem transformar as pessoas em formigas.
Talvez seja por isso que milhões aceitaram atravessar suas mais de mil páginas.
A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy
Tristram Shandy resolve contar sua vida.
Nove volumes depois, o projeto continua enfrentando dificuldades de arrancada.
Laurence Sterne publicou a obra entre 1759 e 1767 e parece ter passado boa parte desse período se divertindo em inventar recursos que, dois séculos mais tarde, receberiam nomes muito mais respeitáveis. Metaficção, fragmentação, participação do leitor. Sterne fazia isso tudo, além de imprimir páginas pretas, deixar outras em branco, desenhar linhas e interromper a narrativa sempre que uma digressão parecesse mais interessante que o assunto principal.
E quase sempre parece.
O risco óbvio seria termos hoje apenas uma elaborada piada tipográfica do século 18. Não temos porque no meio daquela bagunça existe uma família de enorme vitalidade. Walter Shandy, pai do narrador, desenvolve teorias tão absurdas quanto seriamente defendidas. O tio Toby, veterano de guerra, reconstrói campanhas militares em miniatura. Acidentes, equívocos e conversas fazem o livro andar exatamente quando seu autor afirma não conseguir avançar.
“Tristram Shandy” descobriu muito cedo que uma vida não pode ser narrada em linha reta pela razão bastante simples de que ninguém se lembra de si mesmo dessa maneira. Uma história chama outra, o acessório toma o lugar do essencial, a memória desobedece.
O romance parece moderno porque continuamos incapazes de pôr nossa vida em ordem.
O Processo
Josef K. acorda no aniversário e recebe a notícia de que está sendo processado.
Por quê?
Parece uma pergunta inteiramente sensata. O primeiro erro de K. é acreditar que isso tenha alguma importância.
Os funcionários que aparecem em seu quarto não explicam a acusação porque a acusação simplesmente existe. Ele continua indo ao banco, procura advogados, frequenta audiências em prédios sufocantes, encontra intermediários, funcionários subalternos e pessoas que parecem conhecer algum pedaço do sistema. Quanto mais tenta compreender o tribunal, mais percebe que a ausência de lógica não é uma falha da máquina.
É a máquina.
Kafka escreveu o romance entre 1914 e 1915, não o concluiu e pediu ao amigo Max Brod que destruísse seus manuscritos. Brod, num dos maiores atos de desobediência da história editorial, publicou “O Processo” em 1925. Nem a ordem definitiva de todos os capítulos estava estabelecida, precariedade que combina um pouco demais com o universo do livro.
O adjetivo “kafkiano” tornou-se tão popular que hoje pode servir para uma repartição pública, um cadastro eletrônico ou aquela situação em que a senha do aplicativo só pode ser recuperada por meio da senha que você esqueceu.
Naturalmente, isso banaliza Kafka.
Também demonstra uma vitória literária rara: inventar um pesadelo tão preciso que o mundo passa a reconhecê-lo pelo sobrenome do autor.
Em Busca do Tempo Perdido
Sete volumes. Milhares de páginas. Frases que às vezes parecem escritas por alguém para quem o ponto final representava uma derrota moral.
Tudo isso é verdade sobre “Em Busca do Tempo Perdido”. Também é a maneira mais rápida de dizer quase nada sobre ele.
Publicada entre 1913 e 1927, em parte depois da morte de Proust, a obra acompanha um narrador das lembranças da infância em Combray até a descoberta tardia de sua vocação artística. No caminho entram amores, ciúme em doses tóxicas, homossexualidade, a aristocracia francesa em decadência, o caso Dreyfus e sobretudo a investigação obsessiva da matéria de que uma vida é feita depois que já passou.
A madeleine mergulhada no chá terminou convertida em logotipo turístico de Proust. É uma injustiça compreensível. A famosa cena condensa a ideia de que o passado mais profundo não obedece às ordens da memória consciente. Pode ficar invisível durante décadas e, de repente, regressar inteiro convocado por um sabor, um ruído ou a sensação produzida por uma pedra irregular sob o pé.
Proust sabe que o tempo vai ganhar. Todo mundo sabe.
Sua reação é de uma falta de moderação admirável: escrever milhares de páginas para discutir a derrota.
Literatura também é feita desse tipo de teimosia.
Moby-Dick
Ishmael está deprimido e resolve embarcar num baleeiro. Encontra o capitão Ahab, homem sem uma perna que pretende atravessar oceanos atrás da baleia branca responsável pelo prejuízo.
Havia sinais suficientes para procurar outro emprego.
Dessa premissa de aventura, Herman Melville extraiu em 1851 um livro que parece ter decidido carregar a biblioteca inteira para dentro de um navio. Há caça à baleia, anatomia de cetáceos, Bíblia, Shakespeare, filosofia e páginas dedicadas à cor branca. Não deveria funcionar. Em alguns momentos quase consegue não funcionar. Depois volta com uma força que torna o excesso parte da experiência.
Ahab não quer apenas matar um animal. Precisa que sua vingança dê sentido ao mundo. A baleia pode então ser Deus, natureza, mal, projeção da loucura do capitão ou — possibilidade que a crítica às vezes negligencia — simplesmente uma baleia indiferente a tudo isso.
Ishmael sobrevive porque mantém uma qualidade que Ahab perdeu: aceita que talvez o universo não tenha obrigação alguma de lhe responder.
O romance fracassou comercialmente em seu tempo, e Melville morreu em 1891 sem experimentar a consagração posterior.
Hoje “Moby-Dick” aparece em nove das dez listas deste levantamento.
A baleia demorou. Mas acabou vencendo também essa caçada.
Cem Anos de Solidão
Entre os cinco primeiros colocados, “Cem Anos de Solidão” é o romance mais jovem e o único latino-americano.
Nada mal para uma história que começa numa aldeia inventada do Caribe colombiano e passa boa parte do tempo acompanhando uma família incapaz até de arranjar nomes diferentes para seus descendentes.
José Arcadio Buendía funda Macondo. Depois chegam filhos, netos e bisnetos, guerras civis, massacres, fantasmas, mulheres que sobem ao céu e tantos Aurelianos e José Arcadios que a árvore genealógica deixa rapidamente de parecer acessório editorial e assume condição de equipamento de sobrevivência.
Publicado em 1967, o romance tornou-se em poucos anos um dos grandes símbolos do boom latino-americano e transformou Gabriel García Márquez num escritor mundial.
“Realismo mágico” é a etiqueta inevitável. Também corre o risco de empobrecer aquilo que tenta nomear. O fantástico não entra em Macondo como decoração exótica. É a linguagem disponível para uma realidade em que história, mito, colonialismo, violência política e memória familiar já chegam misturados.
O verdadeiro milagre do livro talvez seja sua naturalidade narrativa. Uma mulher começa a subir ao céu enquanto estende lençóis e ninguém toca uma sirene estilística para avisar o leitor de que alguma coisa extraordinária aconteceu.
O absurdo não invade Macondo.
Já morava lá.
Anna Kariênina
Todo mundo conhece a parte mais famosa. Anna Kariênina é casada, apaixona-se pelo conde Vronski, desafia as convenções da aristocracia russa e caminha para uma tragédia que até quem nunca leu Tolstói provavelmente conhece.
O inconveniente — para quem gostaria de resumir o livro assim — é que Tolstói escreveu ao lado dessa história outro romance inteiro.
Konstantin Liévin administra terras, discute agricultura, política e religião, apaixona-se, casa, forma família e continua atormentado por uma questão menos cinematográfica do que o adultério de Anna: como diabos se vive?
É a justaposição dessas duas trajetórias que dá ao romance grande parte de sua força. Anna deseja um amor absoluto dentro de uma sociedade regulada por casamento, posição, dinheiro, hipocrisia e uma desigualdade sexual bastante objetiva. Seu irmão Stiva trai a mulher e conserva praticamente intacta a vida social. Anna faz coisa semelhante e descobre que a conta feminina inclui multas adicionais.
Liévin, no outro extremo, conquista boa parte daquilo que desejava e descobre que felicidade doméstica não resolve automaticamente o problema da existência.
Publicado em livro em 1878 depois de três anos de serialização, “Anna Kariênina” exibe aquela capacidade quase ofensiva de Tolstói de fazer seus personagens parecerem pessoas que existiam antes de ele chegar.
Uma hesitação, uma vaidade ridícula, um pensamento mesquinho, um gesto inesperado — e há alguém vivo na página.
Pode ser uma boa explicação para o fato de nenhuma das dez listas ter conseguido deixá-lo de fora.
Ulysses
Em 16 de junho de 1904, Leopold Bloom acorda em Dublin, toma café da manhã, sai de casa, trabalha, vai a um enterro, passa por um jornal, come, bebe, pensa na mulher, evita voltar cedo demais para casa e finalmente volta. Stephen Dedalus também atravessa a cidade. Molly Bloom permanece na cama boa parte do tempo. A epopeia cabe num dia.
Joyce precisava de quase oitocentas páginas para provar isso.
Publicado integralmente em 1922, depois de anos de circulação parcial e problemas com censura por obscenidade, o romance usa a “Odisseia” como esqueleto invisível para transformar atividades comuns em aventuras formais. Cada episódio inventa suas próprias regras. Há fluxo de consciência, teatro, paródia, trocadilhos, obscenidades — tudo entra.
A reputação de livro ilegível é exagerada e, ao mesmo tempo, não surgiu do nada. Há páginas que exigem paciência de santo e aparato de erudito. Há outras engraçadíssimas, vulgares, ternas, imediatamente humanas. Bloom, judeu, marido traído, sujeito gentil e um pouco deslocado, impede que a pirotecnia linguística vire apenas pirotecnia.
Curiosamente, um dos livros mais experimentais do século também é um dos mais recorrentes nas listas. A vanguarda virou tradição. Joyce talvez achasse graça.
Madame Bovary
Emma Bovary leu livros demais.
Ao contrário de Alonso Quixano, não sai pelo mundo combatendo moinhos, o que talvez tivesse produzido danos menores. Faz algo muito mais perigoso: passa a exigir que a vida corresponda às promessas da literatura.
Casada com Charles Bovary, médico medíocre, bom homem e quase criminosamente satisfeito com sua existência, Emma contempla a província francesa como uma condenação pessoal. Quer paixão, luxo, intensidade, aventura, Paris — qualquer coisa que interrompa aquela realidade. Procura a saída em amantes e compras, combinação financeiramente pouco recomendável que vai produzindo uma dívida econômica e emocional impossível de administrar.
Flaubert publicou o romance em livro em 1857 depois de responder na Justiça a uma acusação de ofensa à moral pública. Foi absolvido e recebeu como indenização informal a publicidade que ajudou a transformar o livro num sucesso.
O escândalo envelheceu. Emma, não.
A grande novidade está também na posição móvel do narrador diante dela. Flaubert se aproxima o suficiente para que participemos das fantasias da personagem e recua no momento seguinte, deixando à mostra a decoração cafona do sonho. Não a trata como santa nem como idiota.
Seu famoso fanatismo pela palavra exata produziu uma prosa em que o ridículo pode conviver com uma dor perfeitamente verdadeira.
Emma queria que a vida se parecesse com literatura.
Terminou transformada em literatura imortal.
Não era exatamente o projeto.
Dom Quixote
Alonso Quixano lê tantos romances de cavalaria que seu juízo, para usar uma expressão gentil, sofre avarias. Põe uma armadura improvisada, rebatiza um pangaré como Rocinante, inventa uma dama chamada Dulcineia del Toboso e sai pela Mancha disposto a corrigir as injustiças do mundo.
Sancho Pança, camponês mais preocupado com comida, bebida e a ilha que seu senhor promete entregar-lhe para governar, aceita acompanhá-lo.
Quatro séculos depois, os dois ainda estão na estrada.
Cervantes publicou a primeira parte em 1605 e a segunda em 1615. Começou satirizando os já envelhecidos romances de cavalaria e terminou produzindo uma coisa que ainda não existia daquela maneira: uma narrativa capaz de zombar de si mesma enquanto se inventa. Há narradores suspeitos, manuscritos encontrados, um suposto historiador árabe, histórias dentro de histórias e, na segunda parte, personagens que leram a primeira e portanto já conhecem Dom Quixote.
Só isso garantiria ao livro uma cadeira permanente na história literária. Não explicaria Sancho e Quixote.
O cavaleiro vê gigantes onde existem moinhos, castelos onde há hospedarias, nobres damas onde os outros enxergam prostitutas. Sancho começa como o homem encarregado de trazer a realidade para dentro da cena. Só que a convivência altera os dois. O pragmático aprende a sonhar; o louco passa a demonstrar uma forma estranha de lucidez. A certa altura, já não sabemos com tanta segurança quem está ensinando quem a enxergar.
Entre as dez listas usadas neste levantamento, nenhuma deixou “Dom Quixote” de fora. Na pesquisa dos clubes do livro da Noruega e do Instituto Nobel Norueguês, feita com cem escritores de 54 países, o romance recebeu cerca de 50% mais votos do que qualquer outro título.
Começamos dizendo que listas são uma bobagem e passamos algumas milhares de palavras fazendo uma.
Tudo bem. Depois de tanta aritmética, o resultado permite pelo menos uma conclusão prudente: se aquela enorme, mutável e discutível confusão chamada cânone do romance tiver algum centro, ainda há por lá um fidalgo magro num cavalo ossudo, seguido de perto por um homem gordo montado num burro.

