Lançado em 2007, “P.S. Eu Te Amo” acompanha Holly Kennedy (Hilary Swank), uma jovem viúva de Nova York que recebe cartas deixadas pelo marido, Gerry Kennedy (Gerard Butler), morto após uma doença. Escritas antes de sua partida, as mensagens propõem pequenas tarefas e viagens para ajudá-la a atravessar o luto. Dirigido por Richard LaGravenese, o romance combina dor, amizade e recomeço sem esconder o lado desconfortável de continuar vivendo quando a pessoa amada já não está por perto.
Holly e Gerry formavam um casal apaixonado, embora estivessem longe daquela harmonia impecável vendida por comerciais de margarina. Eles discutiam por dinheiro, trabalho, filhos e pelo tamanho do apartamento. Gerry, irlandês, reagia às crises com charme e alguma irresponsabilidade. Holly queria segurança e temia que as escolhas do marido deixassem os dois presos a uma vida sem perspectiva.
As discussões revelam um casamento afetuoso, mas pressionado pelas frustrações da vida adulta. Gerry tenta aliviar o peso das cobranças, enquanto Holly quer saber quando poderão comprar uma casa ou construir uma família. Antes que essas questões sejam resolvidas, ele adoece e morre. A perda encerra as brigas, mas também deixa Holly sem a pessoa com quem dividia até os dias ruins.
Após a morte do marido, ela se fecha no apartamento. Passa horas assistindo à televisão, não cuida da aparência e ignora telefonemas. As roupas de Gerry permanecem guardadas, e os objetos do casal mantêm uma rotina que já deixou de existir. Sua mãe, Patricia (Kathy Bates), e as amigas Denise (Lisa Kudrow) e Sharon (Gina Gershon) tentam tirá-la de casa, mas Holly prefere permanecer cercada pelas lembranças.
O aniversário e a primeira mensagem
A mudança começa quando Holly completa 30 anos. Um bolo chega acompanhado por uma gravação feita por Gerry. Na mensagem, ele pede que a esposa comemore o aniversário, convide as amigas e volte a participar do mundo. O susto logo dá lugar à emoção, pois aquela voz conhecida invade o apartamento e devolve ao cotidiano uma presença que parecia perdida.
Gerry também informa que outras cartas chegarão nos meses seguintes. Cada uma trará uma tarefa, uma orientação ou um convite para abandonar algum hábito. Todas serão encerradas com a mesma frase que dá nome ao filme. Para Holly, a correspondência oferece companhia e estabelece compromissos que ela dificilmente assumiria por iniciativa própria.
Patricia recebe a novidade com preocupação. A mãe teme que as mensagens mantenham a filha presa ao casamento e atrasem sua recuperação. Holly acredita no contrário. Para ela, Gerry conhecia suas inseguranças e deixou as instruções porque sabia que a viuvez a faria desistir de quase tudo. Esse desacordo acompanha boa parte da história e acrescenta uma dúvida incômoda. As cartas ajudam Holly a viver ou apenas prolongam sua dependência do marido?
Amigas, bebidas e homens disponíveis
Denise e Sharon acompanham Holly nas primeiras tarefas. As duas oferecem afeto, mas não tratam a amiga como uma peça frágil. Denise, interpretada por Lisa Kudrow, procura um namorado com critérios tão específicos que transforma qualquer conversa em uma seleção de candidatos. Basta descobrir uma incompatibilidade para dispensar o sujeito e procurar outro.
Sharon, vivida por Gina Gershon, tem uma personalidade mais ponderada, embora também guarde mudanças importantes em sua vida. As duas tentam proteger Holly enquanto preservam seus próprios relacionamentos, planos e desejos. Essa diferença torna a amizade mais humana. Elas acolhem a viúva, mas não podem suspender suas vidas até que ela se sinta preparada para acompanhá-las.
Daniel Connelly (Harry Connick Jr.), funcionário do bar administrado por Patricia, também se aproxima de Holly. Ele fala demais, revela pensamentos inconvenientes e possui pouca habilidade para escolher o instante adequado de uma confissão. Sua sinceridade causa constrangimento, mas cria uma amizade valiosa. Daniel gosta dela e não esconde esse interesse, embora perceba que Gerry continua ocupando grande parte de seu espaço emocional.
Uma viagem até a Irlanda
Uma das cartas envia Holly, Denise e Sharon à Irlanda, país natal de Gerry. A viagem leva as amigas para paisagens ligadas à juventude dele e ao começo do casamento. Para Holly, cada lugar possui um significado afetivo. O passeio oferece descanso, mas também desperta recordações que ela ainda tenta suportar.
Na Irlanda, Holly conhece William Gallagher (Jeffrey Dean Morgan), um músico gentil e sedutor que possui ligações com o passado de Gerry. A proximidade entre eles desperta nela uma mistura de desejo, culpa e curiosidade. William representa uma possibilidade de afeto fora do casamento, mas Holly ainda compara gestos, músicas e conversas com aquilo que viveu ao lado do marido.
A viagem também expõe diferenças entre as três amigas. Denise e Sharon carregam notícias importantes, enquanto Holly continua concentrada em sua perda. Quando percebe que a vida das duas avançou, ela reage com tristeza e certo ressentimento. O episódio não transforma Holly em uma pessoa cruel. Apenas revela que o sofrimento pode deixar alguém incapaz de celebrar a felicidade alheia, mesmo quando existe amor entre todos os envolvidos.
Uma profissão esquecida pelo caminho
Ao retornar a Nova York, Holly procura descobrir o que deseja fazer profissionalmente. Durante o casamento, ela havia passado por diversos empregos sem criar ligação com nenhum deles. Uma lembrança relacionada aos sapatos desperta seu interesse pelo design, e ela começa a considerar uma área na qual possa usar criatividade e conhecimento.
Essa escolha tem peso porque surge fora das tarefas domésticas e das expectativas construídas ao lado de Gerry. Holly passa a frequentar aulas e a desenvolver modelos de calçados. O trabalho oferece uma rotina própria e devolve a ela o prazer de produzir algo que pode apresentar às outras pessoas. Pela primeira vez desde a morte do marido, seus dias deixam de depender somente da chegada de outro envelope.
Hilary Swank interpreta Holly sem tentar torná-la agradável durante todo o tempo. A personagem se irrita, sente inveja, magoa as amigas e toma decisões confusas. Essa irregularidade beneficia “P.S. Eu Te Amo”, pois o luto raramente obedece a uma sequência organizada. Há dias de coragem seguidos por manhãs em que levantar da cama parece uma exigência absurda.
Gerard Butler constrói Gerry por meio das lembranças e gravações. Seu sotaque irlandês pode provocar estranhamento, mas o ator oferece energia suficiente para explicar o vínculo do casal. Gerry era carinhoso, impulsivo e imperfeito. As cenas anteriores à doença impedem que ele vire apenas o marido idealizado que escreve belas cartas depois de morrer.
O sentimentalismo pesa em alguns trechos
Richard LaGravenese aposta bastante na música, nas paisagens irlandesas e nas declarações amorosas. Em certos trechos, “P.S. Eu Te Amo” insiste na emoção além do necessário. A premissa já possui força suficiente, e algumas cenas ganhariam mais sobriedade se confiassem no silêncio de Holly ou no desconforto das pessoas ao redor.
Ainda assim, o elenco mantém o filme próximo do público. Kathy Bates oferece firmeza à mãe que ama a filha, mas se recusa a tratar Gerry como uma figura sagrada. Lisa Kudrow aproveita a franqueza de Denise, Gina Gershon dá serenidade a Sharon e Harry Connick Jr. transforma Daniel numa presença estranha, afetuosa e ocasionalmente inconveniente.
“P.S. Eu Te Amo” preserva sua força ao acompanhar tarefas concretas que empurram Holly para fora do apartamento, até a Irlanda e depois para uma profissão que pertence somente a ela. As cartas mantêm Gerry por perto durante algum tempo, mas também obrigam a viúva a abrir portas, rever amigas e assumir compromissos. Holly começa esperando pela próxima mensagem e, pouco a pouco, volta a preencher a própria agenda.

