Criminosos de cinema costumam entrar em bancos sabendo exatamente quem desejam ser quando as portas se fecharem. Lars Nystrom quer ser um daqueles foras da lei americanos que atravessam o deserto de óculos escuros, jaqueta de couro e uma canção de Bob Dylan na cabeça, embora esteja preso no centro de Estocolmo, cercado por policiais e reféns que percebem muito cedo o tamanho da impostura. Em “Stockholm”, produção de 2018 lançada comercialmente em 2019, Robert Budreau toma o assalto ocorrido na Sveriges Kreditbank em agosto de 1973 e descrito por Daniel Lang na reportagem “The Bank Drama” para urdir uma comédia criminal sobre o vínculo insólito que se forma entre sequestrador e sequestrada. O caso real durou seis dias, envolveu quatro reféns e deu origem à expressão “Síndrome de Estocolmo”; o filme reduz essa engrenagem ao encontro de Lars e Bianca Lind, confiando que Ethan Hawke e Noomi Rapace consigam preencher o que a reconstituição histórica deixa pelo caminho. Conseguem quase sempre.
Lars invade o banco empunhando uma submetralhadora, dispara contra um policial e exige dinheiro, um carro e a libertação de Gunnar Sorensson, comparsa antigo que cumpre pena. A situação, inicialmente conduzida com o espalhafato de uma farsa, muda quando a polícia fecha todas as saídas e obriga o assaltante, Gunnar e os funcionários do banco a se enfurnarem no cofre. É ali que Bianca começa a estudar o homem que pode matá-la. Rapace mantém a personagem em permanente estado de cálculo, observando as hesitações de Lars, seu prazer infantil diante da própria fantasia e, sobretudo, a brutalidade protocolar das autoridades, dispostas a sacrificar os reféns a fim de não parecerem fracas. A aproximação dos dois nasce de gestos concretos, de um telefone entregue, de um ferimento tratado, de uma decisão tomada contra o chefe de polícia. Bianca não parece hipnotizada; ela apenas conclui que o perigo mais previsível talvez seja também o único com o qual consegue negociar.
O cofre, a polícia e a sobrevivência
Hawke faz de Lars um sujeito barulhento, sedutor e patético, um menino crescido que confunde a própria delinquência com rebeldia política. A composição beira o histrionismo quando o ator exagera o sotaque e os movimentos, embora esse excesso combine com o assaltante que precisa interpretar o tempo inteiro para não encarar o medo. Mark Strong, na pele de Gunnar, oferece a nota mais soturna, percebendo antes do amigo que aquela aventura de figurino não terminará como um western. Budreau comprime os personagens nos corredores, entre divisórias de vidro e paredes de um amarelo adoecido, deixando que a fotografia de Brendan Steacy desgaste gradativamente o brilho da encenação. A música americana que acompanha Lars soa primeiro como trilha de um herói e, depois, como o rádio ligado no quarto de alguém que já perdeu a festa.
O problema está na facilidade com que o roteiro transforma um episódio controverso numa relação quase romântica, oferecendo a Bianca uma explicação elegante demais e a Lars uma inocência que o revólver desmente. A chamada Síndrome de Estocolmo continua sem reconhecimento como diagnóstico clínico formal, e algumas das próprias vítimas contestaram a leitura segundo a qual teriam se apaixonado pelos criminosos, descrevendo suas atitudes como estratégias de sobrevivência diante de uma operação policial desastrada. Budreau tangencia essa disputa, prefere o charme dos intérpretes e entrega 92 minutos de humor sombrio, tensão e uma intimidade desconcertante. Quando a porta do cofre enfim se abre, Lars parece menor que sua jaqueta, e Bianca, maior que a teoria criada para explicá-la.

