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Os anos 1950 americanos foram embalados para consumo como um anúncio de eletrodomésticos. Casas espaçosas, automóveis reluzentes, maridos que saíam cedo para algum trabalho importante e mulheres que atravessavam o dia entre aspiradores de pó, assados no forno, vestidos rodados e a obrigação de parecer felizes. O subúrbio era vendido como a última etapa do progresso, embora boa parte daquela prosperidade dependesse de esposas impedidas de perguntar quem decidia o rumo de suas vidas. Olivia Wilde transforma esse imaginário numa armadilha vistosa em “Não Se Preocupe, Querida”, suspense psicológico ambientado em Victory, uma comunidade experimental erguida no deserto, onde os homens trabalham num projeto sigiloso e as mulheres usufruem do luxo oferecido pela empresa, desde que aceitem a discrição e a obediência como virtudes domésticas.

Alice Chambers acorda todas as manhãs ao lado de Jack, prepara-lhe o café, despede-se na calçada enquanto uma fileira de carros idênticos leva os maridos até a sede do Projeto Victory e começa uma rotina que inclui faxina, aulas de balé, compras e drinques com as vizinhas. Florence Pugh confere à personagem uma alegria cheia de pequenas fissuras. Alice parece sinceramente apaixonada pelo marido e confortável naquela casa de paredes envidraçadas, até que seu rosto começa a reagir antes mesmo que ela compreenda o que a incomoda. Pugh domina esses instantes de hesitação, deixando o sorriso endurecer, os olhos procurarem uma saída e o corpo recuar diante de situações aparentemente banais. O casamento preserva uma sexualidade que distingue Alice das outras esposas, e Wilde usa essa intimidade para indicar que a prisão pode ser suportável enquanto ainda se confunde com desejo.

Frank, o fundador de Victory interpretado por Chris Pine, fala aos moradores como um empresário que descobriu as vantagens comerciais de se apresentar feito líder espiritual. Seus discursos exaltam ordem, progresso, lealdade e sacrifício, palavras suficientemente vagas para que cada homem ali imagine estar participando de algo grandioso. Pine compõe Frank com uma cordialidade venenosa, voz mansa e a segurança de quem nunca precisou elevar o tom para ser obedecido. Gemma Chan, na pele de Shelley, permanece a seu lado como primeira-dama e sacerdotisa daquele pequeno culto, conduzindo as mulheres em coreografias nas quais braços, pernas e cabeças repetem movimentos até a individualidade desaparecer. O filme compreende muito bem o caráter hipnótico dessa disciplina coletiva, embora desperdice Chan numa personagem que só ganha alguma substância nos minutos finais.

A liturgia doméstica de Victory

A inquietação adquire forma quando Margaret, vivida por KiKi Layne, passa a denunciar acontecimentos que ninguém deseja ouvir. Ela estivera perto demais da sede do projeto, perdera o filho em circunstâncias obscuras e agora é tratada como uma mulher perturbada, diagnóstico conveniente numa comunidade em que qualquer desconforto feminino pode ser medicado pelo doutor Collins, de Timothy Simons. Alice testemunha o colapso da vizinha, vê um avião cair no deserto e dirige até o edifício proibido, uma construção circular instalada entre montanhas áridas. Ao tocar o vidro da sede, é tragada por imagens fragmentadas, bailarinas vistas de cima, olhos em close, corpos sincronizados e ruídos que interrompem a placidez daquela cidade de brinquedo.

É nesses momentos que Wilde demonstra maior autoridade. A fotografia de Matthew Libatique deixa o sol do deserto quase ofensivo, expondo casas, piscinas e vestidos como produtos numa vitrine. A cenografia de Katie Byron faz de Victory uma combinação de resort, condomínio empresarial e laboratório, enquanto os figurinos de Arianne Phillips tornam as mulheres parte da decoração, cobertas por cores alegres que acentuam sua condição de objetos cuidadosamente posicionados. A montagem de Affonso Gonçalves e a música de John Powell alimentam a sensação de que algo pulsa debaixo daquela geometria impecável.

Harry Styles enfrenta dificuldades justamente porque Jack precisa existir em registros muito diferentes. Como marido sedutor, ele se beneficia da afinidade física com Pugh e da aparência ligeiramente infantil que torna plausível a devoção de Alice. Quando o personagem precisa revelar medo, ressentimento e desfaçatez, o ator recorre a uma afetação que enfraquece cenas importantes, em especial o jantar na casa de Frank, no qual Alice desafia publicamente o anfitrião e obriga Jack a escolher entre protegê-la e preservar sua promoção. Pugh conduz quase sozinha o longo confronto à mesa, alternando ironia e pânico diante dos convidados que continuam mastigando, sorrindo e fingindo que nada grave está acontecendo.

Quando o desenho perde precisão

O roteiro de Katie Silberman, desenvolvido a partir de uma história de Carey Van Dyke, Shane Van Dyke e da própria roteirista, retoma ideias de “As Esposas de Stepford”, “O Show de Truman” e “Matrix”, referências reconhecíveis desde a primeira volta dos automóveis pela rotatória de Victory. A revelação acerca da verdadeira vida de Alice e Jack dá ao filme um adversário contemporâneo, o homem medíocre que transforma a própria frustração profissional num direito de confiscar a liberdade da companheira. Jack prefere uma esposa inconsciente, eternamente disponível numa fantasia digital, a conviver com uma mulher cansada depois de horas de trabalho num hospital. O ressentimento masculino está na origem de Victory, propagado pela voz de Frank e convertido numa indústria em que maridos sequestram esposas para viver um passado que jamais lhes pertenceu.

Essa explicação tem força política e pouca surpresa cinematográfica. Wilde espalha tantos sinais ao longo das duas horas que o segredo chega ao terceiro ato quase exaurido, e o filme gasta imagens inquietantes com ovos vazios, paredes que comprimem Alice, reflexos em espelhos e um pedaço de plástico envolvendo-lhe a cabeça sem integrar todas elas à lógica revelada depois. Também deixa perguntas que parecem decorrer menos da ambiguidade que da pressa, sobretudo quanto ao funcionamento de Victory, à conivência dos demais homens e à súbita reação de Shelley. Olivia Wilde, interpretando Bunny, salva parte dessa lacuna na cena em que confessa saber a verdade e explica por que escolheu permanecer ali. A resignação da personagem é terrível precisamente porque nasce de uma decisão consciente.

“Não Se Preocupe, Querida” conserva o interesse graças à presença de Florence Pugh e ao esmero com que Olivia Wilde constrói a superfície de Victory. A diretora sabe filmar uma casa bonita tornando-se hostil, um jantar elegante adquirindo a feição de interrogatório e uma mulher de vestido vermelho correndo entre homens vestidos de preto que já decidiram seu destino. Falta ao roteiro a mesma precisão, e a denúncia do controle masculino chega envolta em explicações tardias, subtramas interrompidas e um desfecho que acelera quando deveria apertar o cerco. Victory continua sedutora até o último plano, limpa, ensolarada e perfeitamente mobiliada. É necessário que Alice toque o vidro para que toda aquela felicidade revele sua natureza de cativeiro.


Filme: Não Se Preocupe, Querida
Diretor: Olivia Wilde
Ano: 2022
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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