O diretor Mike Flanagan levou ao cinema “A Vida de Chuck”, adaptação de uma novela de Stephen King sobre um contador cuja história, contada de trás para a frente, começa quando o mundo apresenta sinais de colapso. Ambientado em diferentes períodos da vida de Charles Krantz, interpretado na fase adulta por Tom Hiddleston, o longa mistura drama, fantasia e ficção científica para descobrir por que aquele homem aparentemente comum surge em anúncios espalhados por toda parte.
Marty Anderson (Chiwetel Ejiofor) é professor de uma escola de ensino fundamental e tenta manter sua rotina enquanto acontecimentos cada vez mais estranhos tomam conta da cidade. A internet começa a falhar, desastres atingem diferentes regiões e estrelas desaparecem do céu. Ninguém sabe ao certo o que está acontecendo, mas a sensação é de que o mundo pode estar perto do fim.
Em meio ao caos, o rosto de Charles “Chuck” Krantz aparece em outdoors, vitrines e anúncios televisivos. As mensagens agradecem ao contador por seus “39 grandes anos”, embora Marty e as demais pessoas nunca tenham ouvido falar dele. Não há uma empresa identificada, uma campanha publicitária conhecida ou qualquer autoridade disposta a explicar a homenagem.
Felicia Gordon (Karen Gillan), enfermeira e ex-mulher de Marty, também acompanha o colapso. Os dois voltam a conversar porque precisam compartilhar informações e lidar com um medo que já não cabe na rotina de cada um. O reencontro não ganha contornos de romance açucarado. Há carinho, intimidade e uma preocupação sincera entre duas pessoas que, diante de uma ameaça maior, procuram companhia.
Chiwetel Ejiofor interpreta Marty sem transformá-lo em salvador. O professor está assustado, cansado e tão desinformado quanto todos ao redor. Ainda assim, ele insiste em procurar alguma lógica para os anúncios. O problema é que, quanto mais o rosto de Chuck ocupa a cidade, menos tempo parece restar para descobrir quem ele é.
A vida começa pelo fim
Mike Flanagan divide “A Vida de Chuck” em três partes apresentadas em ordem cronológica inversa. Primeiro surgem as consequências ligadas à existência de Charles Krantz. Depois, o roteiro volta no tempo para revelar episódios de sua vida adulta, adolescência e infância. A estrutura não transforma o longa em um quebra-cabeça difícil. Cada etapa acrescenta informações sobre aquele homem e muda a maneira como o público observa o que veio antes.
Tom Hiddleston interpreta Chuck adulto como um contador educado, discreto e aparentemente satisfeito com uma vida organizada. Ele usa terno, segue horários e passa pelas ruas sem chamar atenção. Nada em sua aparência combina com os anúncios grandiosos vistos anteriormente. Essa diferença entre o homem comum e a homenagem mundial sustenta boa parte da curiosidade.
Durante uma viagem de trabalho, Chuck escuta a percussionista Taylor Franck (Taylor Gordon) tocando na rua. A música interrompe sua caminhada e desperta uma habilidade que o comportamento reservado mantinha escondida. Ele começa a dançar e logo recebe a companhia de Janice Halliday (Annalise Basso), uma jovem abalada pelo fim de um relacionamento.
A cena de dança ocupa vários minutos e poderia parecer deslocada em um filme iniciado sob sinais de apocalipse. Flanagan, porém, usa o encontro para revelar Chuck por meio de seus movimentos. Hiddleston dança com elegância, alegria e um pequeno desajeito que deixa tudo mais espontâneo. Janice entra na brincadeira sem conhecer aquele homem, enquanto Taylor adapta a batida aos passos dos dois. Durante alguns minutos, três desconhecidos formam uma celebração improvisada numa calçada.
Uma casa cheia de segredos
A infância de Chuck ocupa uma parte importante de “A Vida de Chuck”. O menino é vivido por Benjamin Pajak e, mais tarde, por Jacob Tremblay. Ele cresce na casa dos avós Albie Krantz (Mark Hamill) e Sarah Krantz (Mia Sara), onde recebe duas influências bastante diferentes.
Albie é contador e deseja que o neto siga uma profissão segura. Ele ensina números, organização financeira e responsabilidade. Mark Hamill oferece ao avô uma mistura de firmeza e afeto, sem esconder a angústia de um homem que conhece segredos demais. Dentro da casa existe um cômodo trancado, e Albie proíbe Chuck de entrar ali. Naturalmente, informar a uma criança que determinada porta jamais deve ser aberta costuma produzir o efeito oposto.
Sarah representa uma liberdade que o marido não consegue oferecer. Interpretada com delicadeza por Mia Sara, ela ama música e dança pela casa sem se preocupar com a própria idade. Chuck observa a avó e começa a imitá-la. O talento visto na fase adulta nasce nesses momentos domésticos, longe de plateias e aplausos.
Benjamin Pajak apresenta um menino curioso, afetuoso e atento aos adultos. Jacob Tremblay assume o personagem na adolescência, quando Chuck precisa lidar com timidez, desejo e medo de passar vergonha. A dança deixa o espaço protegido da casa e chega à escola, onde qualquer movimento pode virar motivo de admiração ou constrangimento. Tremblay preserva a reserva do personagem, mas permite que sua vontade de participar apareça em pequenos gestos.
Stephen King longe do terror habitual
“A Vida de Chuck” nasceu de uma novela publicada no livro “Com Sangue”, de Stephen King. Apesar da origem, o longa está distante do terror associado a obras como “O Iluminado” e “It: A Coisa”. Há uma casa misteriosa, fenômenos inexplicáveis e uma ameaça difícil de nomear, mas o medo ocupa menos espaço que os vínculos familiares, a passagem do tempo e as escolhas feitas durante uma vida.
Flanagan já havia adaptado King em “Jogo Perigoso” e “Doutor Sono”. Desta vez, o diretor prefere uma abordagem terna e declaradamente emotiva. Em alguns trechos, a narração de Nick Offerman explica sentimentos que os próprios atores já haviam transmitido. A trilha musical também insiste um pouco mais do que deveria. O espectador quase recebe um lembrete para se emocionar, acompanhado de piano, caso ainda não tenha percebido.
Essa insistência pode incomodar quem prefere sentimentos menos anunciados. Mesmo assim, o elenco sustenta a história com interpretações calorosas. Hiddleston dá leveza ao adulto disciplinado, Pajak preserva a curiosidade infantil e Tremblay registra a insegurança do adolescente. Eles não tentam copiar uns aos outros, mas compartilham uma gentileza que torna as três fases reconhecíveis.
Uma vida comum ganha dimensão
O maior mérito de “A Vida de Chuck” está na maneira simples com que aproxima uma catástrofe de acontecimentos cotidianos. O possível fim do mundo divide espaço com uma dança escolar, uma conversa entre ex-companheiros, uma aula de contabilidade e uma porta fechada. Cada lembrança ajuda a explicar por que o rosto de um desconhecido aparece em tantos lugares.
O longa exige alguma paciência durante a primeira parte, quando acumula perguntas e oferece poucas informações sobre Chuck. A recompensa surge quando as etapas começam a se relacionar. O que parecia uma sucessão aleatória de situações passa a compor o retrato de um homem formado por perdas, cuidados, medos e instantes de alegria.
Flanagan aposta sem vergonha na emoção e chega perto do excesso em algumas passagens. Ainda assim, há honestidade nessa escolha. “A Vida de Chuck” trata uma existência comum com a solenidade normalmente reservada a grandes heróis, embora seu protagonista seja apenas um contador que sabe dançar muito bem. Quando Chuck aceita sair da calçada e acompanhar a música, o filme revela sua melhor qualidade. Por alguns minutos, o homem dos cartazes deixa de ser um mistério e ocupa o espaço que sempre desejou.

