Há sofrimentos que, por falta de coragem ou de oportunidade, nunca chegam a ser compreendidos; apodrecem em silêncio, engrossam a casca das pequenas crueldades cotidianas e, quando encontram alguém dotado de poder, convertem-se em leis, exércitos e guerras. Freya conheceu o amor, perdeu a filha de maneira brutal e concluiu, com a lógica sem freios dos feridos, que o erro não estava no homem que a traíra, mas no sentimento que a tornara vulnerável. “O Caçador e a Rainha do Gelo”, de Cedric Nicolas-Troyan, encontra sua melhor ideia nesse desvio moral. A rainha vivida por Emily Blunt refugia-se no Norte, ergue um reino gelado, rapta crianças, transforma-as em soldados e decreta que nenhum de seus caçadores poderá amar. A tragédia particular torna-se política de Estado, e o coração partido de uma mulher passa a decidir o destino de milhares.
Não por acaso, os primeiros movimentos do filme são também os mais interessantes. Freya ainda vive à sombra da irmã Ravenna, a soberana vaidosa e sanguinária a quem Charlize Theron oferece a imponência de uma estátua prestes a ganhar vida. Quando o poder de congelar tudo ao redor desperta, a personagem de Blunt deixa de ser apenas vítima e começa a construir sua própria monstruosidade. A diretora dentro da atriz parece compreender que vilões verdadeiramente perturbadores não se julgam maus: consideram-se esclarecidos. Freya está convencida de que, proibindo o amor, poupa seus súditos da agonia que a destruiu. É uma justificativa terrível e, precisamente por isso, humana. O roteiro de Evan Spiliotopoulos e Craig Mazin, contudo, não confia por muito tempo na força desse conflito e logo abandona a anatomia da tirania em favor de perseguições, duelos, anões tagarelas e um espelho mágico que serve a praticamente todas as necessidades da trama.
Criados dentro dessa máquina militar, Eric e Sara violam a única regra do reino e se apaixonam. Chris Hemsworth volta a interpretar o caçador como um homem que prefere disfarçar a melancolia com bravatas, mas o ator se mostra mais à vontade quando precisa lutar, provocar ou sorrir do que ao sustentar o romance condenado sobre o qual repousa boa parte do enredo. Jessica Chastain, como Sara, oferece ao filme uma presença física de admirável convicção; seus movimentos, olhares e silêncios sugerem uma guerreira muito mais complexa que as frases entregues pelo roteiro. O problema é que a relação dos dois nasce pronta. O público é informado de que aquele amor é grande, irresistível e capaz de desafiar impérios, mas quase nunca tem a oportunidade de vê-lo crescer. Quando Freya os separa por meio de uma ilusão, a história exige uma comoção que ainda não conquistou.
Duas rainhas em um filme melhor
Essa insuficiência torna-se mais evidente porque Blunt e Theron pertencem a um filme melhor. Freya contém a dor até que ela pareça mineral; Ravenna, diversamente, transforma cada entrada em cena numa cerimônia de autocoroação. Theron fala, anda e olha como se o mundo inteiro fosse apenas uma superfície destinada a refletir sua beleza. É uma interpretação deliberadamente excessiva, mas adequada a uma personagem que não admite a existência de nada fora de si. Blunt escolhe caminho oposto, reduzindo gestos e esfriando a voz, e o duelo entre as duas atrizes produz a eletricidade que falta ao casal central. Quando Ravenna ressurge do Espelho Mágico e passa a disputar poder com a irmã, “O Caçador e a Rainha do Gelo” finalmente revela qual deveria ter sido seu verdadeiro eixo: não a aventura relativamente convencional de Eric, mas a relação entre duas mulheres que respondem ao medo de maneiras diferentes e igualmente destrutivas.
O esplendor visual ajuda a esconder as rachaduras por algum tempo. Os figurinos de Colleen Atwood transformam coroas, armaduras e vestidos em extensões psicológicas das rainhas; Ravenna parece revestida de ouro líquido e lâminas, enquanto Freya carrega no corpo a rigidez branca e azul de seu império. O desenho de produção de Dominic Watkins e a música de James Newton Howard completam uma fantasia sombria que, em seus melhores planos, aproxima beleza e ameaça. Cedric Nicolas-Troyan conhece a mecânica do espetáculo, movimenta massas, criaturas e partículas digitais com segurança e sabe produzir imagens de imediato impacto. Falta-lhe, porém, o domínio equivalente sobre o drama. O filme ergue salões magníficos, florestas encantadas e muralhas de gelo, mas não consegue fazer com que esses lugares acumulem memória, mistério ou vida. São ambientes que impressionam os olhos e se retiram da lembrança com a mesma rapidez.
Beleza visual, costuras aparentes
Também pesa contra a narrativa sua natureza indecisa de prequela e continuação. O filme volta ao passado para explicar a origem de Eric e Freya, avança até depois dos acontecimentos de “Branca de Neve e o Caçador” e tenta preencher a ausência de Branca de Neve com novos personagens, novas regras e uma mistura dos contos dos irmãos Grimm com “A Rainha da Neve”, de Hans Christian Andersen. A operação tem alguma curiosidade conceitual, sobretudo ao aproximar o espelho, a vaidade e o coração congelado, mas a costura permanece visível. Em vez de expandir organicamente aquele universo, o longa parece procurar, cena a cena, uma justificativa para continuar existindo.
A recepção crítica severa — apenas 19% de aprovação no Rotten Tomatoes — e a arrecadação mundial de quase 165 milhões de dólares diante de um orçamento informado de 115 milhões ajudam a explicar por que a prometida saga perdeu o fôlego. São números coerentes com uma produção grande demais para sua imaginação dramática e modesta demais em resultado para o tamanho do investimento. Ainda assim, chamar “O Caçador e a Rainha do Gelo” de desastre seria tão cômodo quanto afirmar que toda fantasia precisa ser profunda. Há entretenimento, beleza, boas cenas de combate e quatro astros empenhados em conferir dignidade a um material irregular.
O filme fracassa não porque lhe faltem magia, dinheiro ou talento, mas porque toma o amor como solução sem antes compreender o sofrimento que pretende vencer. Freya transforma o luto em gelo; Ravenna, o medo em vaidade; Eric e Sara, a paixão em resistência. Cedric Nicolas-Troyan reúne essas forças num mesmo campo de batalha, mas só de vez em quando percebe o que elas significam. Ao fim, sobra um reino portentoso, povoado por personagens que poderiam ter sido inesquecíveis. O gelo se parte, as rainhas caem e o amor triunfa, como mandam os contos de fadas. O coração do filme, entretanto, continua congelado.

