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Nas docas, o silêncio pode valer um dia de trabalho, um prato de comida, a integridade dos ossos. Os estivadores de “Sindicato de Ladrões” amontoam-se diante do encarregado à espera de uma ficha, escolhidos como animais numa feira por homens que decidem quem descarrega os navios e quem volta para casa sem um centavo. Elia Kazan põe a câmera no meio dessa gente, sob o frio cortante de Hoboken, e deixa que os rostos endurecidos, os casacos gastos e o vapor expelido pelas bocas expliquem uma cidade em que a exploração adquiriu método. Filmado em locações reais e inspirado pelas reportagens de Malcolm Johnson sobre a corrupção portuária, o roteiro de Budd Schulberg preserva a sujeira do chão sem renunciar ao melodrama, porque naquele cais até a sobrevivência precisava de uma encenação.

Terry Malloy vive nesse limbo, perto o bastante dos criminosos para usufruir de pequenas vantagens e longe demais do comando para compreender a extensão de sua cumplicidade. Ex-boxeador, ele aceita chamar Joey Doyle à janela, acreditando que Johnny Friendly e seus capangas querem apenas assustar o rapaz. Joey despenca do telhado, morto por ter decidido falar diante da comissão que investiga o sindicato, e Terry percebe que a velha regra de cuidar da própria vida já o transformara em colaborador de um assassinato. Marlon Brando faz essa descoberta sem discursos edificantes. Abaixa os olhos, enfia as mãos nos bolsos, comprime os ombros, fala como se cada palavra precisasse atravessar uma garganta cheia de ferrugem. Seu personagem pensa devagar, desconfia da própria inteligência e carrega no corpo o vício de apanhar calado.

Kazan cerca Terry com figuras que exigem dele uma definição. Edie Doyle, irmã do morto, regressa do colégio religioso para descobrir por que o pai e os vizinhos aceitam aquela tirania, e Eva Marie Saint, em sua estreia no cinema, oferece à moça uma firmeza delicada, sem a candura ornamental reservada às mocinhas de produções menos audaciosas. Na cena em que Terry apanha uma luva que ela deixa cair, Brando a veste enquanto conversam, gesto improvisado que expõe a intimidade entre os dois antes que qualquer declaração seja feita. Ele quer aproximar-se daquela mulher e sabe que a presença dela devolve Joey ao quarto, ao telhado, ao ruído seco do corpo atingindo o chão. O romance cresce sobre a culpa, e Kazan jamais permite que o beijo absolva Terry do que fez.

O padre desce ao porão

O padre Barry, interpretado por Karl Malden, percebe que sermões dentro da igreja são inúteis para homens obrigados a negociar com assassinos todas as manhãs. Ele desce ao porão de um navio depois que Kayo Dugan é esmagado por uma carga de uísque e transforma o cadáver do estivador num púlpito. A sequência é declaratória, carregada de simbolismo cristão e um tanto afeita ao gosto de Kazan por explosões emocionais, só que Malden sustenta o excesso ao falar cercado pelos trabalhadores, enquanto objetos arremessados pelos capangas de Friendly caem a seu redor. O sacerdote não oferece consolo. Exige nomes, testemunho, enfrentamento, palavras perigosas para quem sabe que a polícia pode ir embora e o sindicato continuará ali no dia seguinte.

Johnny Friendly domina o cais com a vulgaridade dos homens que confundem poder e inteligência. Lee J. Cobb infla o peito, mastiga as frases e faz do chefe sindical um déspota convencido de ter conquistado sozinho tudo quanto roubou dos outros. Sua autoridade depende de Charley Malloy, o irmão mais velho de Terry, advogado instruído que trocou a própria consciência por ternos melhores e uma cadeira junto aos mandachuvas. No banco traseiro de um automóvel, Rod Steiger e Brando protagonizam o acerto de contas que atravessou a história do cinema. Terry recorda a luta que poderia tê-lo convertido num pugilista respeitado e acusa Charley de obrigá-lo a cair para favorecer uma aposta. Steiger reage sem levantar a voz, segurando uma arma que já perdeu qualquer utilidade. Ali se entende que os dois foram derrotados muito antes de Joey Doyle tocar o pavimento.

O depoimento que assombra Kazan

A sombra do depoimento de Kazan ao Comitê de Atividades Antiamericanas, em 1952, atravessa o filme. O diretor identificou antigos companheiros ligados ao Partido Comunista e carregou até a morte a acusação de ter protegido a carreira às custas de outros, circunstância que torna a decisão de Terry de denunciar Friendly uma defesa pessoal impossível de ignorar. Reduzir “Sindicato de Ladrões” a essa justificativa biográfica, contudo, empobrece o que Kazan realiza com Schulberg e Brando. Terry não entrega homens perseguidos por ideias; enfrenta assassinos que controlam empregos, espancam dissidentes e lançam corpos de telhados. A analogia política permanece incômoda, especialmente porque o roteiro reveste o delator de uma aura sacrificial, e essa contradição deixa o filme mais áspero, nunca menos fascinante.

Boris Kaufman fotografa Hoboken em preto e branco como um território roído pelo inverno, no qual cercas, escadas, vielas e galpões aprisionam os personagens antes que Johnny Friendly mande fechar qualquer porta. A música de Leonard Bernstein irrompe com metais e percussões, acompanha o estado nervoso de Terry e às vezes força uma grandiosidade que os rostos já comunicavam sozinhos. Kazan conhece esse risco e insiste nele, culminando na surra brutal do protagonista junto ao armazém. Terry levanta-se com dificuldade, mal enxerga, cambaleia até a entrada e conduz os outros estivadores para dentro, enquanto Friendly permanece do lado de fora, berrando ordens para homens que finalmente deixam de ouvi-lo. O desfecho beira a parábola e exige alguma condescendência física. Brando resolve o problema arrastando cada passo como quem ainda luta no último assalto, só que agora ninguém lhe pagou para cair.


Filme: Sindicato de Ladrões
Diretor: Elia Kazan
Ano: 1954
Gênero: Crime/Drama
Avaliação: 5/5 1 1
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