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Estamos no inverno. Apesar de ensolaradas, as manhãs são frescas nessa época do ano. Enquanto me barbeio, ouço o ruído familiar, sincopado e intermitente na janela do quarto. Há dias, num esforço hercúleo, porém inútil, um passarinho, cuja espécie miseravelmente desconheço, briga contra a própria imagem refletida no vidro. Comparece o bichinho arreliento quase sempre no mesmo horário do dia, despertando-me, ao alvorecer. Termino de rapar o rosto. Enxugo-me com uma toalha úmida, desfigurada, que já cheira a bolor. Miro no espelho o rosto vincado e pouco expressivo que já não parece meu. Aumento o volume da música para encobrir o repique renitente e o incontestável estado de melancolia que me perturbam. Aturdido, cogito investir o corpo contra a alvenaria, meter a cabeça no espelho feito um boi enfezado ou um pássaro estúpido, espatifando a melancolia em pedaços. Deus não dá asas às cobras, mesmo assim, já faz tempo que eu não voo. Vivia essa ingênua sensação de poder na juventude, numa época em que não dava a mínima para espelhos, analgésicos e pássaros enxeridos. Intrépida, como um dia eu já fui, a avezinha mantém a peleja inglória contra nada senão a falta de noção da própria ignorância. A resiliência emplumada humilha-me. Tenho a impressão de que se trata dum animal de pequeno porte. Aves maiores são lerdas, não se sustentariam no peitoril estreito da janela. Confiro as horas. Estou adiantado no tempo. Visto-me sem empolgação. Decido conferir quem é a ave que me atravanca as manhãs. Caminho descalço, na ponta dos pés, para que o bichinho não se aperceba de mim e fuja. Cansei de fugir da realidade. Minto descaradamente para mim mesmo, mas minto com moderação. O nome disso é maturidade. Ou neurastenia. Sei lá. Dá no mesmo. Dá para sentir no ar os golpes valentes que o bico desfere contra o vidro. Chego a vibrar intimamente com o despojamento daquele pequeno intruso. Abro a janela num rompante de curiosidade, ouço um baque surdo; no entanto, deparo-me com nada a não ser um céu azul, sem nuvens, que debocha de mim. A acareação fica para o dia seguinte. Amanhece, de novo. O meu corpo é o meu templo. Um templo velho, diga-se. O silêncio retumbante faz-me perder a hora. O passarinho não aparece, não combate, não tripudia. Foi buscar outra janela, eu suponho. Na escala animal, é um bicho claramente superior a mim. Salto da cama. Sinto câimbras nas panturrilhas. Vocifero. Desacato o próprio corpo. Engulo apressado o café da manhã, como se eu fosse um animal na baia. A fome termina em tragédia quando, ao espiar pelo janelão do jardim de inverno, flagro o corpo inerte de um bem-te-vi sobre o gramado.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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