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Todo livro termina da mesma forma: fecho a última página e vou procurar seu autor.

Não para explicar a obra pela biografia — desconfio de leituras que fazem isso —, mas porque sempre me pareceu curioso descobrir que vida atravessou aquela imaginação. Depois de Guimarães, vieram suas cartas; depois de Hemingway, seus cadernos e excessos; de Camus, a Argélia; de tantos outros, entrevistas, correspondências, fotografias, pequenos detalhes que não explicavam seus livros, mas ampliavam a experiência da leitura.

Desconstruindo Sofia
Desconstruindo Sofia, de Solemar Oliveira (Editora UFG, 194 páginas)

Desta vez, pela primeira vez, o ritual falhou, pois eu já conhecia o autor antes de conhecer o romance. Conhecia o leitor antes do escritor, o professor antes do romancista. Já havia lido alguns de seus contos, discutido filmes, ouvido longas conversas sobre Kafka, os russos e até mesmo os pré-socráticos. Sabia que Solemar Oliveira era um leitor apaixonado e um físico acostumado a pensar o mundo por estruturas. Faltava apenas conhecer seu romance, e talvez tenha sido justamente essa inversão que tornou a leitura de “Desconstruindo Sofia” tão desconcertante — o livro que Solemar escreveu é mais sombrio, mais brutal e mais incômodo do que me deixava prever o homem afável que conheço.

Existe uma fantasia persistente de que grandes narrativas só podem nascer de biografias atormentadas. Respirei aliviada ao descobrir que uma voz tão impiedosa pudesse nascer de alguém cuja gentileza sempre me chamou a atenção e ao entender, página a página, que essa distância entre autor e narrador não é acaso, e sim a própria condição da obra.

A literatura não é o lugar onde o escritor se revela; é o lugar onde ele aprende a desaparecer.

Quem fica em cena é Teodoro. “Desconstruindo Sofia”, primeiro romance do escritor e físico anapolino Solemar Oliveira, acompanha Teodoro, um matemático recluso que vive numa cidade do interior à sombra da separação de Sofia, sua ex-mulher. Em prosa densa e febril, o livro se constrói como o monólogo de um homem que tenta, sem descanso, ordenar pela razão aquilo que o sentimento desorganiza e cujas noites se enredam entre a memória da mulher amada, as ruas da cidade e as próprias obsessões.

E Teodoro é uma das construções mais bem-acabadas do romance. Não por ser um personagem agradável, longe disso, mas por possuir uma consciência própria, coerente e perturbadora. Tudo o que vemos passa por sua linguagem, por suas neuroses, por sua necessidade quase patológica de organizar o mundo. Matemática, filosofia, literatura, religião — tudo se transforma em tentativa de domar aquilo que insiste em lhe escapar. É um narrador que não transporta a história; ele é a história, e essa é uma escolha formal ambiciosa, que se arrisca a cansar e quase sempre não cansa.

Teodoro pertence a uma linhagem antiga e desconfortável de narradores que nos obrigam a pensar de dentro de uma cabeça que reprovamos, parentes do homem do subsolo de Dostoiévski e do Humbert Humbert de Nabokov. Esses livros descobriram que a primeira pessoa pode ser uma armadilha: quanto mais articulado o narrador, mais o leitor é tentado a confiar nele, e é nessa confiança que mora o perigo. O que Teodoro acrescenta à tradição é a chave matemática, a tentativa permanente de reduzir a experiência humana à lógica de um sistema. Onde Humbert tinha a retórica, ele tem o teorema.

Convém, porém, não suavizar o que esse narrador faz. A consciência de Teodoro é um lugar de violência contínua, e o leitor é obrigado a habitá-la sem trégua, junto das mulheres da noite intercambiáveis, da antiga companheira reduzida a uma dívida que se cobra, da própria Sofia decomposta em triângulos, cores e vísceras. A misoginia satura o texto, e seria desonesto abordá-la como se não o fizesse. No entanto, ela é de Teodoro, não do livro, e este não a endossa — a expõe. Tudo o que o narrador diz para rebaixar Sofia acaba revelando mais sobre a pobreza dele do que sobre ela. Quando despreza seus gestos, são exatamente esses gestos que comovem o leitor e que permanecem quando as teorias do narrador são esquecidas. Recusar esse material seria pedir que a ficção representasse apenas o mundo que aprovamos, e o acerto do autor está em não pedir que gostemos ou perdoemos Teodoro, mas em nos prender dentro de uma mente em ruína o tempo suficiente para que entendamos como ela funciona. É um pacto duro, e o leitor que o aceita sai diferente.

Dentro desse pacto, Sofia é o caso mais delicado do romance e, a meu ver, o mais revelador. Ela entra na história como objeto das obsessões de Teodoro, e Solemar parece resistir deliberadamente à tentação de lhe devolver uma autonomia plena. Os gestos mínimos estão lá e são o que há de mais comovente no texto: Sofia compra broas de milho pela manhã, alimenta pombos na praça, lê versos em silêncio, busca Deus com uma sinceridade que Teodoro nunca alcança. São fragmentos de uma pessoa real que chegam sempre filtrados pelo desprezo de quem narra; humanizam a personagem sem nunca romper por completo a moldura do narrador. Sofia nunca é plenamente resgatada da condição de símbolo, e essa recusa, aos poucos, deixa de parecer limitação para revelar-se método.

É aqui que o livro fez comigo o oposto do que eu esperava. Eu lia atrás do gesto de ternura, do momento em que o autor devolveria humanidade à mulher que o narrador dissolve. Esse momento não vem, e a recusa é proposital. “Desconstruindo Sofia” não é a história de uma mulher que emerge apesar de seu algoz; é a história de um homem que destrói e, em seguida, reescreve o que destruiu para não ter de encarar o próprio ato. Sofia some, e some não como pessoa que parte, mas como verdade que o narrador precisa apagar.

Solemar Oliveira
Solemar Oliveira

Talvez por isso as inúmeras referências filosóficas e literárias não me pareceram ornamentais. O autor não cita Dostoiévski, Camus, Kafka ou Bertrand Russell para exibir erudição; essas leituras constituem a forma de pensar de Teodoro, organizam — e deformam — sua consciência. Existe uma diferença entre um romance que apenas mostra referências e um que pensa através delas, e este pertence claramente ao segundo grupo. O preço dessa ambição é a permanência quase ininterrupta no mesmo clima emocional por quase toda a sua extensão, e há momentos em que se sente falta de um contraste, de um respiro que faça a violência seguinte pesar mais. Só que ainda prefiro um livro que arrisque um tom extremo a outro que não arrisque nenhum.

Percebo, entre muitas pessoas que conheço, uma tentação recorrente de confundir inteligência com virtude, como se a leitura de muitos livros nos imunizasse contra a crueldade. Teodoro é a prova literária do contrário. Sua biblioteca é vasta, e é justamente dela que ele extrai os instrumentos do apagamento: transforma Sofia em triângulo escaleno, em distribuição de cores, em teorema; lê o universo inteiro em equações e não consegue ler a mulher que, na cozinha, insiste em comprar broas de milho. É um homem que compreende tudo, exceto a única coisa que importava compreender.

Ao fechar “Desconstruindo Sofia”, fiquei com a impressão de que seu tema nunca foi o amor, nem o ciúme, nem mesmo o crime, embora este o penetre. Seu verdadeiro tema é o olhar, a tragédia de olhar alguém durante tanto tempo a ponto de deixar de vê-lo e de, no lugar da pessoa, erguer uma ideia.

Ideias são obedientes; pessoas, não.

A cultura nos ensina a compreender o mundo. Nenhum livro nos poupa da tarefa, infinitamente mais difícil, de enxergar o outro.

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