Discover

Por 11 anos, Alceu Valença não soube onde estava um disco que havia gravado. “Saudade de Pernambuco”, trabalho nascido durante sua temporada em Paris e lançado em 1979, desapareceu pouco depois de chegar ao público. As fitas se perderam, o álbum saiu de circulação e nem o próprio compositor guardava uma cópia daquele capítulo de sua carreira.

O reencontro aconteceu apenas em 1990, quando um técnico de uma rádio paulistana encontrou o material nos arquivos da emissora, procurou Alceu e devolveu as gravações ao artista. O disco, que poderia ter sobrevivido apenas na lembrança de quem o ouvira na época, voltou às mãos de seu autor por obra do acaso.

Essa é uma das dez histórias contadas por Fernando Vives e Edison Veiga no novo episódio do Travessia, podcast quinzenal dedicado à música brasileira. A cada edição, os jornalistas escolhem um artista, um movimento ou um período e percorrem dez canções, revelando bastidores, personagens, encontros, rupturas e acontecimentos que ajudam a compreender a obra apresentada.

No programa dedicado aos 80 anos de Alceu Valença, o repertório serve de caminho para uma trajetória que começou muito antes de “Anunciação”, “Tropicana”, “Coração Bobo” e “Como Dois Animais” transformarem o compositor pernambucano em um dos artistas mais populares do país.

Um Alceu anterior aos grandes sucessos

O episódio recupera um Alceu anterior às grandes plateias, à presença constante na televisão e às músicas que se tornariam inseparáveis do carnaval brasileiro. É nesse momento menos conhecido de sua vida que surge “Saudade de Pernambuco”, gravado longe do Brasil, durante uma temporada marcada pela distância de casa e pela insatisfação com a ditadura militar.

“Fui embora porque estava com saco cheio da ditadura, cansado de ver amigos meus sendo torturados, inclusive amigos que sequer eram militantes políticos”, afirmou Alceu, anos depois, em entrevista ao jornal “El País”.

O músico deixou o país no fim dos anos 1970 e seguiu para Paris. A viagem tinha uma dimensão artística, mas também representava uma forma de afastamento de um Brasil sufocado pela repressão. Na França, Alceu carregava consigo a memória de Pernambuco, seus ritmos, sua paisagem, sua poesia e uma saudade registrada já no nome do álbum.

“Saudade de Pernambuco” foi lançado em 1979, quando o cantor ainda não havia alcançado a projeção nacional que teria na década seguinte. O disco circulou pouco, chegou a um número reduzido de ouvintes e permaneceu à margem da parte mais conhecida de sua discografia.

Alceu voltou ao Brasil, retomou a carreira e iniciou uma sequência de trabalhos que mudaria sua posição na música brasileira. Vieram as rádios, os programas de televisão, os grandes palcos e as canções que atravessaram gerações. Enquanto o artista se tornava cada vez mais conhecido, o álbum gravado em Paris desaparecia silenciosamente.

Não havia reedição, cópia de segurança ou arquivo pessoal que garantisse sua preservação. O disco existira, mas as gravações já não estavam ao alcance de quem o havia criado.

O acaso que salvou as fitas

Em 1990, um técnico da Rádio Transamérica encontrou as fitas guardadas nos arquivos da emissora. Ao identificar o material, entrou em contato com Alceu e devolveu a ele o registro perdido. Onze anos separavam o lançamento do disco e o reencontro do compositor com aquelas canções.

A descoberta permitiu que “Saudade de Pernambuco” deixasse de ser uma raridade quase inacessível. Em 1998, o trabalho voltou a circular em uma edição distribuída com o extinto “Jornal da Tarde”. Anos depois, em 2016, recebeu uma versão remasterizada e chegou às plataformas digitais.

O álbum passou então a ocupar o lugar que lhe cabia na obra de Alceu Valença. Não apenas como curiosidade ou peça rara, mas como documento de um período em que o compositor estava longe do país, ainda distante da consagração popular e em busca de uma linguagem capaz de reunir Pernambuco, poesia, guitarra, baião, frevo e inquietação.

Essa combinação ajuda a explicar por que Alceu nunca foi apenas o autor de uma coleção de sucessos. Sua música nasceu do encontro entre referências que, em outras mãos, poderiam parecer incompatíveis. O sertão e o rock, a tradição popular e a experimentação, o violão e a guitarra elétrica, o carnaval e a melancolia convivem em sua obra sem que um elemento anule o outro.

É esse artista múltiplo que Fernando Vives e Edison Veiga apresentam no novo Travessia. Em vez de organizar uma homenagem previsível, o episódio utiliza as canções para revelar passagens menos conhecidas, mudanças de rumo e momentos decisivos de uma carreira que atravessa mais de meio século.

O podcast transforma cada música em ponto de partida para uma história. O ouvinte não acompanha apenas uma seleção musical, mas uma narrativa sobre como Alceu se tornou Alceu, desde os anos de formação e experimentação até a consagração de um repertório reconhecido nas primeiras notas.

A aventura de “Saudade de Pernambuco” resume parte desse percurso. Um disco gravado no exílio, quase esquecido, perdido durante mais de uma década e recuperado dentro do arquivo de uma rádio. Uma obra que esteve perto de desaparecer e que hoje pode ser ouvida por qualquer pessoa.

O acaso salvou as fitas. O novo Travessia recupera a história.


PODCAST TRAVESSIA
Alceu Valença, 80 anos

Revista Bula

A Revista Bula é uma plataforma digital brasileira fundada em 1999, que atua como revista e também como editora de livros. Com foco em literatura, cultura, comportamento e temas contemporâneos, adota uma linha editorial autoral, com ênfase em textos opinativos e ensaísticos. Seu conteúdo é amplamente difundido por meio das redes sociais e alcança milhões de leitores por mês, consolidando-se como uma das referências em jornalismo cultural no ambiente digital. Além da produção de conteúdo editorial, a Bula mantém uma linha de publicações próprias, com títulos de ficção e não ficção distribuídos em formato digital e impresso.

Leia Também