Discover

Ambientado no sul dos Estados Unidos, “A Cor Púrpura” acompanha a luta de Celie, interpretada por Fantasia Barrino, para sobreviver à violência doméstica, ao racismo e ao isolamento durante as primeiras décadas do século 20. Dirigido por Blitz Bazawule, o drama musical adapta novamente o romance de Alice Walker e acompanha uma mulher que passou boa parte da vida impedida de escolher o próprio caminho. Sua mudança começa quando outras mulheres atravessam sua rotina e apresentam possibilidades que pareciam reservadas a pessoas mais livres.

Celie ainda é adolescente quando sofre abusos dentro da própria casa. Na juventude, vivida por Phylicia Pearl Mpasi, ela engravida duas vezes e tem os filhos retirados pelo homem que acredita ser seu pai. Sem informações sobre o destino das crianças, a garota cresce em silêncio, apoiada principalmente pela irmã mais nova, Nettie, interpretada por Halle Bailey.

A situação piora quando Celie é entregue em casamento a Albert, vivido por Colman Domingo. Conhecido por todos como Mister, ele procura uma mulher que cuide da propriedade, dos filhos e dos serviços domésticos. Celie deixa a casa onde nasceu, mas apenas muda de agressor. Na fazenda do marido, trabalha sem descanso e passa os dias sob ameaças, humilhações e agressões físicas.

Nettie tenta permanecer ao lado da irmã e chega a morar por algum tempo na propriedade. Albert, porém, a expulsa depois de ser rejeitado por ela. Antes de partir, Nettie promete escrever. Celie espera pelas cartas durante anos, embora nenhuma mensagem chegue às suas mãos. A ausência fortalece o poder do marido, que controla correspondências, visitas e qualquer contato com o mundo fora da fazenda.

Sofia se recusa a obedecer

A chegada de Sofia muda o ambiente da família. Interpretada por Danielle Brooks, ela se envolve com Harpo, personagem de Corey Hawkins e filho de Albert. Harpo cresceu observando o pai dominar Celie e tenta repetir esse comportamento no próprio casamento. Sofia, porém, não aceita ordens, agressões ou cobranças feitas apenas porque ele é homem.

Ela fala alto, ocupa espaço e não pede desculpas por sua força. Quando Harpo tenta controlar a esposa, descobre que autoridade herdada não garante respeito. A relação dos dois mistura carinho, orgulho e brigas frequentes, enquanto Sofia insiste em preservar sua independência.

Danielle Brooks oferece uma das atuações mais vigorosas de “A Cor Púrpura”. Sua personagem tem energia, confiança e uma presença que altera qualquer ambiente. Essa força, contudo, passa a ser tratada como ameaça quando Sofia enfrenta uma mulher branca ligada às autoridades locais. O racismo transforma uma discussão em punição, e a personagem perde o direito de decidir onde viver e trabalhar.

A mudança de Sofia revela a violência de uma sociedade que aceita mulheres negras apenas quando elas obedecem. Sua vitalidade não desaparece, mas fica escondida sob cansaço, medo e anos de privação. O filme poderia dedicar mais tempo a essa fase, porém Danielle Brooks faz cada gesto carregar o peso do que a personagem sofreu.

Shug Avery abre novas portas

Outra presença decisiva na vida de Celie é Shug Avery, cantora interpretada por Taraji P. Henson. Ela chega à fazenda cercada por fama, desejo e comentários maldosos. Albert mantém uma antiga paixão por Shug e recebe a artista com uma atenção que nunca ofereceu à esposa.

Celie inicialmente observa a cantora com admiração. Shug usa roupas elegantes, viaja, ganha dinheiro e escolhe os homens com quem deseja se relacionar. Sua liberdade contrasta com a rotina de uma mulher proibida até de ler as cartas que recebe.

A relação entre as duas cresce aos poucos. Shug não é uma salvadora perfeita e tampouco vive sem contradições. Ela pode ser generosa em um momento e profundamente egoísta em outro. Taraji P. Henson preserva essas ambiguidades sem enfraquecer o encanto da personagem.

Por meio de Shug, Celie conhece cidades, bares, música e pessoas que não obedecem à autoridade de Albert. A cantora também percebe sinais da violência praticada dentro da casa e passa a tratar Celie como alguém digna de atenção. Pela primeira vez, a protagonista recebe cuidado sem que isso venha acompanhado de uma cobrança.

As canções revelam desejos escondidos

“A Cor Púrpura” transforma muitos sentimentos em números musicais. As canções surgem quando os personagens não conseguem dizer em voz comum aquilo que desejam, temem ou planejam. Em vários trechos, a música oferece leveza e permite que Celie imagine uma vida fora da fazenda.

Fantasia Barrino, que já havia interpretado Celie nos palcos, conhece bem a fragilidade e a resistência da personagem. Sua atuação não depende apenas da potência vocal. Ela baixa os olhos, controla os movimentos e fala pouco porque sabe que qualquer gesto pode provocar Albert. Quando canta, esse cuidado permanece, mas ganha uma força que a personagem ainda não consegue demonstrar nas conversas domésticas.

A direção de Blitz Bazawule aposta em cores vivas, coreografias extensas e cenários que se afastam do realismo sempre que Celie sonha com outra realidade. Algumas passagens funcionam muito bem. Outras suavizam dores que talvez precisassem de mais tempo e silêncio. O musical, em certos trechos, parece ansioso para levantar o público antes que uma perda tenha sido plenamente absorvida.

Mesmo assim, a música combina com a proposta de acompanhar uma mulher que passou anos sem poder falar. Celie transforma sentimentos guardados em voz, ainda que leve tempo para usar essa mesma firmeza diante do marido.

Uma liberdade construída aos poucos

O desenvolvimento de Celie não ocorre por uma mudança repentina. Ela aprende observando Sofia, ouvindo Shug e guardando lembranças de Nettie. Cada mulher oferece uma forma diferente de resistência. Sofia enfrenta. Shug parte quando deseja. Nettie preserva o vínculo mesmo à distância.

Essas relações ajudam Celie a perceber que a brutalidade de Albert não define seu valor. A protagonista começa a fazer escolhas, assumir responsabilidades e procurar formas de sustento que não dependam do marido. Seu crescimento ganha força quando ela deixa de aceitar o silêncio como única maneira de sobreviver.

Colman Domingo interpreta Albert sem suavizar sua crueldade. Ele apresenta um homem acostumado a mandar porque ninguém ao redor costuma contestá-lo. Sua segurança diminui quando Celie passa a controlar a própria voz, o trabalho e os deslocamentos. A perda de autoridade surge em gestos simples, quando ordens antigas deixam de produzir o mesmo resultado.

“A Cor Púrpura” possui momentos emocionantes e atuações capazes de sustentar até suas passagens mais apressadas. Fantasia Barrino oferece delicadeza a uma mulher que passou décadas sendo tratada como objeto doméstico. Danielle Brooks domina as cenas em que Sofia precisa defender sua liberdade. Taraji P. Henson traz charme e instabilidade a Shug Avery, alguém que abre portas, mas também carrega suas próprias falhas.

A adaptação poderia conter melhor alguns números musicais e dedicar mais espaço às mudanças provocadas pelo passar dos anos. Ainda assim, preserva o coração da história ao acompanhar Celie na busca por afeto, independência e notícias da irmã. Depois de tanto tempo impedida de decidir, cada escolha passa a ter um peso enorme, até mesmo quando envolve apenas sair de casa, trabalhar e pronunciar o próprio nome sem medo.


Filme: A Cor Púrpura
Diretor: Blitz Bazawule
Ano: 2023
Gênero: Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
Leia Também