Em 2024, sob a direção de Adam Wingard, Kong retorna à Terra Oca enquanto Godzilla protege a superfície, ambos atraídos por uma ameaça capaz de destruir humanos e Titãs. “Godzilla e Kong: O Novo Império” retoma o chamado Monsterverse com menos interesse por prudência e mais vontade de colocar criaturas gigantes em movimento. O resultado é uma aventura acelerada, colorida e assumidamente absurda, que funciona melhor quando deixa seus monstros agirem do que quando tenta explicar cada detalhe de sua mitologia.
Depois dos acontecimentos de “Godzilla vs. Kong”, os dois Titãs vivem separados. Godzilla permanece na superfície, encarregado de conter criaturas que ameaçam cidades e populações. Kong ocupa a Terra Oca, onde tenta estabelecer um território próprio e descobrir se ainda existem outros membros de sua espécie.
A situação do grande primata mistura imponência e vulnerabilidade. Kong domina o ambiente, caça, enfrenta predadores e percorre vales subterrâneos, mas também sofre com a solidão e com um problema dentário bastante inconveniente. É uma escolha curiosa e eficiente. Adam Wingard transforma uma criatura colossal em alguém capaz de provocar empatia sem precisar oferecer qualquer fala.
Na superfície, a cientista Ilene Andrews (Rebecca Hall) acompanha Jia (Kaylee Hottle), sua filha adotiva. A jovem Iwi passa por dificuldades na escola, sofre visões e desenha símbolos ligados à Terra Oca. Ilene percebe que esses episódios podem indicar algo maior, especialmente quando equipamentos da Monarch registram sinais desconhecidos vindos das profundezas.
A organização envia Ilene e Jia para investigar o fenômeno. Elas recebem a companhia do veterinário Trapper (Dan Stevens), especializado em Titãs, e do podcaster Bernie Hayes (Brian Tyree Henry), ainda obcecado em provar que suas teorias estavam certas. O grupo desce à Terra Oca porque o sinal pode revelar tanto a origem das visões de Jia quanto uma ameaça que começa a despertar.
Um reino escondido nas profundezas
Durante sua exploração, Kong cruza o caminho de Suko, um jovem primata inicialmente hostil. Os dois começam a relação entre pancadas e desconfiança, num tipo de apresentação bastante coerente para criaturas que dispensam cumprimentos formais. Aos poucos, Suko leva Kong até uma comunidade de grandes símios mantida sob o domínio do Skar King.
O novo vilão governa pela força. Skar King controla seu povo, pune qualquer sinal de desobediência e usa o poderoso Titã de gelo Shimo para sustentar sua autoridade. Kong descobre, então, que não está sozinho, mas a reunião com outros integrantes de sua espécie passa longe do reencontro afetuoso que talvez esperasse.
Essa parte fortalece “Godzilla e Kong: O Novo Império” porque entrega aos monstros uma história própria. Kong observa, reage, protege Suko e toma decisões sem depender dos humanos para traduzir cada sentimento. Seus gestos revelam indignação, medo e afeto, enquanto o domínio do Skar King fornece uma ameaça reconhecível mesmo para quem não acompanha todos os capítulos do Monsterverse.
A simplicidade também ajuda. Skar King quer expandir seu poder para a superfície. Kong precisa impedir que isso aconteça. Godzilla sente o risco se aproximando e começa a reunir energia para uma nova batalha. Wingard organiza esses movimentos com a lógica de uma matinê grandiosa, na qual os detalhes científicos importam menos do que saber quem está avançando, quem está preso e quem pretende dominar o próximo território.
Os humanos descem à Terra Oca
Ilene, Jia, Trapper e Bernie chegam a uma região habitada por integrantes da comunidade Iwi. A descoberta ajuda Jia a compreender sua ligação com aquele povo e com os Titãs. Para Ilene, porém, a experiência também desperta insegurança. A cientista teme perder a proximidade com a filha, que finalmente encontra pessoas capazes de compartilhar sua cultura e sua forma de comunicação.
Rebecca Hall mantém Ilene como o centro emocional do núcleo humano. A atriz trabalha a preocupação materna sem transformar a personagem em alguém passivo. Ilene pesquisa, acompanha Jia e procura proteger a menina, embora saiba que não pode isolá-la de sua própria origem.
Kaylee Hottle oferece delicadeza a Jia, cuja presença tem importância maior do que a simples função de acompanhar os adultos. A personagem participa dos acontecimentos e ocupa uma posição decisiva dentro da ligação entre humanos, Iwis e Titãs.
Dan Stevens interpreta Trapper com entusiasmo quase irresponsável. O veterinário trata situações impossíveis com uma tranquilidade divertida, inclusive quando precisa cuidar do dente de Kong ou instalar uma luva mecânica no braço do primata. Trapper sabe que está diante de animais capazes de esmagá-lo, mas age com a confiança de quem foi chamado para atender um paciente grande demais para caber na sala de espera.
Brian Tyree Henry mantém Bernie entre a paranoia e o desejo de reconhecimento. O podcaster quer registrar as descobertas porque acredita que elas podem recuperar sua credibilidade. Sua participação oferece leveza, embora o roteiro nem sempre saiba o que fazer com ele além de comentários assustados e tentativas de filmar aquilo que ninguém deveria enfrentar tão perto.
Godzilla prepara uma nova guerra
Enquanto Kong descobre o império subterrâneo, Godzilla percorre diferentes regiões da superfície. Ele combate outros Titãs, absorve energia e reage ao chamado vindo da Terra Oca. Sua presença ocupa menos espaço do que a de Kong, mas cada aparição anuncia que algo muito maior está prestes a acontecer.
Godzilla continua sendo apresentado como uma força de equilíbrio pouco interessada em opiniões humanas. Quando uma criatura ameaça romper a ordem, ele intervém e depois procura outro lugar para descansar. Roma, inclusive, ganha uma imagem inesperada quando o monstro escolhe o Coliseu como cama. Poucos hóspedes causariam tantos gastos com manutenção.
A preparação de Godzilla tem uma função simples dentro do enredo. Kong não consegue enfrentar sozinho o exército do Skar King e o poder de Shimo. Para impedir a invasão da superfície, ele precisa da ajuda do antigo rival. A aliança surge por necessidade, sem apagar a desconfiança construída entre os dois.
Wingard sabe que o público veio assistir ao encontro dessas criaturas e não adia demais o espetáculo. As lutas possuem escala, velocidade e movimentos quase humanos. Kong usa ferramentas, protege Suko e reage com irritação. Godzilla avança com a serenidade destrutiva de quem não pretende preencher qualquer relatório depois do serviço.
A diversão vence a mitologia
“Godzilla e Kong: O Novo Império” possui uma quantidade considerável de conceitos, povos, sinais e histórias antigas. Algumas dessas informações passam depressa, enquanto outras parecem existir apenas para levar os personagens à próxima batalha. O roteiro nem sempre oferece espaço suficiente para que cada descoberta ganhe peso.
Ainda assim, o enredo permanece compreensível. Skar King deseja controlar a Terra Oca e alcançar a superfície. Kong procura libertar seu povo. Godzilla reage ao desequilíbrio. Jia precisa aceitar sua ligação com os Iwis, enquanto Ilene lida com o receio de que a filha escolha outro caminho.
O filme manda bem ao aceitar sua natureza extravagante. Adam Wingard não tenta transformar a história em um drama solene sobre o destino da humanidade. Ele prefere monstros correndo, saltando, rugindo e usando prédios como obstáculos descartáveis. Essa disposição garante energia, embora deixe os personagens humanos em segundo plano durante boa parte da aventura.
Rebecca Hall, Brian Tyree Henry e Dan Stevens sustentam esse núcleo com carisma, mas o coração da produção pertence a Kong. O primata recebe os melhores conflitos, as relações mais interessantes e os gestos mais expressivos. Sua ligação com Suko acrescenta ternura sem interromper a ação, enquanto a luta contra Skar King oferece um objetivo fácil de acompanhar.
“Godzilla e Kong: O Novo Império” pede disposição para aceitar uma Terra Oca, civilizações escondidas, macacos gigantes, lagartos radioativos e um veterinário capaz de fazer tratamento odontológico em Kong. Dentro dessa proposta, entrega uma aventura barulhenta, ágil e divertida, na qual a humanidade sobrevive porque dois monstros finalmente concordam em bater no mesmo inimigo.

