Em “Sun Dogs”, comédia dramática de 2017 dirigida por Jennifer Morrison, Ned Chipley (Michael Angarano) vive nos Estados Unidos pós-11 de Setembro tentando entrar nos fuzileiros navais porque acredita que só uma missão patriótica dará sentido à sua vida. A recusa constante do Exército, porém, abre espaço para uma mentira piedosa, perigosa e meio absurda, daquelas que começam em uma sala de alistamento e terminam envolvendo família, polícia, vigilância amadora, um cassino e uma amizade que nasce no lugar mais improvável possível.
Ned mora com a mãe, Rose Chipley (Allison Janney), e o padrasto, Bob Garrity (Ed O’Neill), em uma casa onde todo mundo parece estar esperando alguma coisa. Ele espera ser aceito pelos fuzileiros. Rose espera coragem para seguir o sonho de se tornar paramédica. Bob espera o resultado de um processo contra a empresa de transporte onde trabalhava, depois de machucar as costas. O problema é que a vida deles ficou presa nessa fila, cada um segurando sua senha com mais paciência do que esperança.
A lesão cerebral leve sofrida por Ned no parto nunca é usada apenas como informação médica. Ela atravessa a forma como ele lê o mundo, interpreta sinais e se agarra a ideias grandiosas. Seu aniversário é em 11 de setembro, data que, para ele, virou uma espécie de chamado pessoal. Ned acredita que precisa salvar vidas, combater ameaças e provar valor. O desejo é sincero, mas a realidade insiste em colocá-lo do lado de fora dos portões.
Michael Angarano interpreta Ned sem transformá-lo em caricatura. Ele compõe um personagem ingênuo, insistente e muitas vezes desarmante, mas também capaz de colocar todos ao redor em situações embaraçosas. Ned trabalha como zelador em um cassino e circula por aquele ambiente com a seriedade de quem acredita estar apenas aguardando a grande oportunidade. A graça nasce do contraste entre a missão que ele imagina e o mundo banal que o cerca, cheio de crachás, corredores, máquinas e gente cansada demais para notar seus delírios patrióticos.
A mentira do sargento
Quando Ned tenta se alistar mais uma vez, o Sargento Jenkins (Xzibit) toma uma decisão que deveria encerrar o problema, mas acaba criando outro maior. Para afastá-lo sem esmagar sua autoestima, Jenkins inventa uma unidade secreta chamada Sun Dogs, encarregada de vigiar possíveis células da Al-Qaeda dentro dos Estados Unidos. A mentira é dita com ar de solução provisória. Ned, porém, a recebe como uma convocação oficial.
A partir dessa invenção, “Sun Dogs” cresce em uma zona incômoda e curiosa. O filme acompanha um homem que deseja fazer o bem, mas não sabe distinguir missão real de fantasia alimentada por autoridade. Ned imprime cartões de visita, apresenta-se como agente especial dos fuzileiros navais e passa a enxergar suspeitos onde há apenas pessoas seguindo suas rotinas. A comédia tem leveza, mas não trata a confusão como bobagem sem peso. Cada passo de Ned aumenta a chance de alguém se machucar, ser acusado ou passar vergonha diante da polícia.
Jennifer Morrison filma essa escalada com afeto, mas sem blindar o personagem das consequências. O olhar da diretora preserva a ternura, ainda que a história exponha a irresponsabilidade de quem preferiu mentir para se livrar de uma conversa difícil. Jenkins queria ganhar paz. Em vez disso, dá a Ned um distintivo imaginário e uma justificativa para invadir vidas alheias.
Tally entra na investigação
No cassino, Ned conhece Tally Petersen (Melissa Benoist), sem perceber que ela está ali tentando conseguir clientes. A aproximação dos dois começa em terreno torto, quase constrangedor, mas aos poucos ganha outra textura. Quando Tally é expulsa do cassino, Ned divide com ela sua suposta missão secreta. Ela acredita, ou talvez prefira acreditar por algum tempo, porque aquela história oferece uma fuga de sua própria invisibilidade.
Tally tem talento para filmar e editar vídeos. Esse detalhe muda o ritmo da investigação amadora. Ao lado de Ned, ela passa a vigiar Sameer Udday, homem que Ned enxerga como ameaça terrorista. Eles o seguem, gravam imagens, recolhem materiais e enviam tudo para Jenkins como se estivessem produzindo provas. A situação beira o ridículo, mas a entrega dos dois impede que a história vire apenas piada. Há uma tristeza discreta em ver duas pessoas solitárias encontrando importância em uma missão que não existe.
Melissa Benoist dá a Tally uma mistura boa de ironia, fragilidade e esperteza. Ela não entra na vida de Ned como salvadora romântica. Entra como alguém também perdida, também cansada de ser tratada como presença descartável. Quando os dois dividem as vigílias, a câmera e os planos atrapalhados, “Sun Dogs” começa a mostrar sua força mais interessante. A investigação falsa cria uma intimidade real.
Uma casa cheia de adiamentos
A família de Ned é outro núcleo essencial do filme. Rose ama o filho, mas também usa esse cuidado como motivo para permanecer onde está. Allison Janney faz de Rose uma mulher exausta, generosa e quase sempre firme, dessas que seguram a casa enquanto fingem não perceber o próprio cansaço. Ao conhecer Tally e descobrir seu talento para o cinema, Rose a incentiva a procurar uma escola. O conselho dado à jovem retorna contra ela mesma, porque Rose também está atrasando a própria vida.
Bob, vivido por Ed O’Neill, carrega outro tipo de paralisia. Ele espera a indenização do processo e usa a dor nas costas como barreira para quase tudo. A relação dele com Ned não é simples, mas também não é fria. Bob reclama, se irrita e se vê colocado em situações constrangedoras, ainda assim aparece quando precisa pagar fiança ou oferecer algum tipo de presença paterna. O filme tira humor dessa convivência doméstica, mas sem transformar a casa em palco de gritaria.
O jantar de Ação de Graças reúne essas tensões com certo desconforto. Tally é convidada por Ned, mas sua presença mexe com segredos e mal-entendidos. Rose percebe na jovem uma vocação artística. Bob percebe complicações. Ned tenta encaixar todos em sua ideia de normalidade, embora nada ali esteja muito normal. A mesa de família vira um ponto de pressão. Depois dela, ninguém consegue fingir com a mesma facilidade que está tudo no lugar.
O tamanho possível da bondade
“Sun Dogs” funciona melhor quando abandona qualquer ilusão de grande aventura e se concentra nas pequenas ações que ainda podem salvar alguém de um dia ruim. A história de Tally sobre a mãe, que morreu por suicídio depois de se sentir invisível, dá ao filme um eixo mais delicado. Ned escuta aquilo com a atenção literal de quem transforma uma dor em tarefa. Essa é sua força e também seu perigo. Ele leva tudo a sério demais, até aquilo que os outros dizem tentando sobreviver à própria tristeza.
Ned queria combater inimigos invisíveis em nome de um país inteiro, mas talvez sua verdadeira capacidade esteja em perceber uma pessoa sozinha, oferecer um cumprimento, entregar um cartão, interromper uma queda antes que ela aconteça. Jennifer Morrison não trata essa descoberta com peso excessivo. Prefere uma delicadeza simples, às vezes até engraçada, porque Ned continua sendo Ned, com suas certezas tortas e seu jeito formal de quem parece ter decorado um manual de conduta.
Mesmo quando a trama ameaça cair na excentricidade fácil, o elenco mantém tudo em temperatura humana. Michael Angarano dá dignidade a Ned. Melissa Benoist faz Tally parecer mais viva a cada cena. Allison Janney e Ed O’Neill transformam Rose e Bob em adultos imperfeitos, mas reconhecíveis. “Sun Dogs” fala de pertencimento, mentira, cuidado e propósito sem perder a leveza. É um filme sobre gente tentando ser útil antes que o mundo a dispense do serviço.

