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Em histórias de fantasmas, a pergunta decisiva raramente é se os mortos existem. Isso é quase o de menos. O que interessa saber é por que os vivos precisam tanto deles. Um fantasma pode ser assombração, culpa, saudade, truque de roteiro, ornamento gótico, lembrança mal curada ou simples expediente para fazer uma criança atravessar corredores escuros sem que a narrativa precise inventar muita coisa além de portas rangendo. Em “Através do Tempo”, o fantasma pertence sobretudo a essa família respeitável e um tanto inofensiva da tradição britânica: menos uma ameaça do que uma autorização para que o passado volte a falar em voz baixa, tomando chá no salão.

Dirigido e escrito por Julian Fellowes, antes que “Downton Abbey” transformasse seu talento para aristocracias em marca registrada televisiva, o filme adapta “The Chimneys of Green Knowe”, romance infantojuvenil de Lucy M. Boston, e se passa em Green Knowe, uma dessas mansões inglesas que parecem ter sido construídas não para abrigar pessoas, mas segredos. A casa é o verdadeiro personagem central, mais até que Tolly, o garoto de 13 anos vivido por Alex Etel, enviado em 1944 para passar o Natal com a avó, Mrs. Oldknow, enquanto a mãe tenta obter notícias do pai desaparecido na guerra. Lá, entre escadas, tapeçarias, criados antigos e cômodos que conservam a temperatura moral de outros séculos, Tolly descobre que pode atravessar o tempo e testemunhar uma história familiar enterrada desde o início do século 19.

O material é bonito, e Fellowes sabe disso. Talvez saiba até demais. O garoto, a avó altiva e ferida, a ameaça de venda da propriedade, as joias desaparecidas, a menina cega Susan, o jovem Jacob, o mordomo sinistro Caxton, a mãe perdulária e mundana, a sombra das guerras napoleônicas espelhando a Segunda Guerra: tudo parece cuidadosamente disposto para produzir uma fantasia familiar de bom gosto, daquelas em que o sobrenatural chega perfumado de tradição literária e não de enxofre. O elenco ajuda a sustentar a moldura. Maggie Smith, Timothy Spall, Carice van Houten, Dominic West, Hugh Bonneville e Pauline Collins cercam o jovem protagonista com uma solidez profissional que o filme nem sempre sabe aproveitar.

Maggie Smith e a elegância do luto

Maggie Smith, como Mrs. Oldknow, faz o que se espera dela e um pouco mais. Há atrizes que envelhecem para dentro do cinema, incorporando ao rosto uma espécie de arquivo nacional. Smith traz à avó de Tolly uma mistura de secura, elegância e dor contida que impede a personagem de virar apenas a velha senhora excêntrica da mansão. Quando ela fala do passado, a gente acredita menos na literalidade dos fantasmas do que no peso de uma família que aprendeu a transformar ressentimentos em porcelana. A dureza com que recebe o neto, a culpa por ter rejeitado a nora, a obstinação em manter Green Knowe de pé, tudo isso poderia render um drama adulto de primeira. O problema é que “Através do Tempo” prefere abrir várias portas ao mesmo tempo e nem sempre entra de verdade em alguma delas.

A fantasia, por exemplo, é menos uma lógica do que uma conveniência. Tolly atravessa de 1944 para 1805 — ou 1808, conforme a sinopse consultada, detalhe que já diz algo sobre a frouxidão temporal da coisa — com a naturalidade de quem passa da sala de jantar para a biblioteca. Às vezes é visto, às vezes não; às vezes interfere, às vezes apenas assiste; às vezes o filme se comporta como história de viagem no tempo, às vezes como conto de assombração. Essa indecisão poderia ser poética se tivesse a ambiguidade como princípio. Não tem. Parece antes uma hesitação de dramaturgia, um modo de preservar a atmosfera mágica sem pagar o preço de organizar suas regras internas.

Ainda assim, convém não cobrar de “Através do Tempo” a engenharia de um “De Volta para o Futuro”. Não estamos nesse departamento. A matriz aqui é a fantasia doméstica inglesa, mais próxima da lareira do que do laboratório, e o que importa é a sensação de que a casa conserva camadas de vida como se fossem papéis de parede superpostos. Nesse ponto, o filme acerta. A direção de arte, a fotografia de Alan Almond, os figurinos e a locação de Athelhampton, em Dorset, dão a Green Knowe uma presença física convincente, sem a histeria digital que costuma arruinar fantasias recentes feitas para crianças.

Uma casa bonita, um mistério comportado

Ocorre que a beleza da embalagem nem sempre encontra uma inquietação correspondente por dentro. Fellowes é um autor fascinado por hierarquias sociais, casas, heranças, protocolos, feridas de classe. Quando esse fascínio aparece com ironia, crueldade ou nervo moral, pode render ótimo drama. Aqui ele aparece amaciado pelo registro infantojuvenil e por uma sentimentalidade que organiza todos os conflitos em direção à reconciliação. A casa precisa ser salva. A linhagem precisa ser compreendida. A avó precisa aceitar a nora. O menino precisa elaborar a possível morte do pai. O passado precisa confessar o segredo para que o presente possa dormir melhor. É um programa dramático digno, mas previsível demais para sustentar o mistério que o filme promete.

O núcleo do século 19, com Susan, Jacob, Maria Oldknow, Captain Oldknow e Caxton, é o mais delicado e também o mais problemático. Há nele uma tentativa de tocar em temas mais ásperos — escravidão, servidão, racismo, cobiça, violência doméstica de classe — sem romper a superfície decorosa da aventura. Jacob, salvo de uma história brutal, acaba absorvido pela função nobre de vítima luminosa; Susan, menina cega de sensibilidade elevada, pertence à linhagem dos personagens puros demais para serem inteiramente vivos; Caxton, vivido por Dominic West, carrega a vilania com competência, mas sem grande mistério. O passado que deveria abrir abismos morais termina domesticado como ilustração de livro antigo.

Alex Etel, no papel de Tolly, tem a vantagem e o peso de ser o olhar infantil por meio do qual a engrenagem se move. Não compromete, mas também não incendeia. Falta ao menino uma opacidade maior, uma vida interior mais desarrumada, algo que nos faça sentir que a perda do pai e a descoberta do passado não são apenas etapas de um roteiro, mas acontecimentos capazes de desorganizá-lo. O filme o trata com carinho, mas um carinho excessivamente limpo. Tolly parece menos um garoto jogado entre a guerra e os mortos do que uma peça educada dentro de um tabuleiro narrativo.

Isso talvez explique a estranha temperatura de “Através do Tempo”. É um filme sobre guerra, luto, abandono, escravidão, incêndio, ruína financeira e fantasmas, mas quase nunca deixa que essas coisas assustem de fato. Tudo é filtrado por uma compostura de domingo à tarde. O resultado pode agradar quem procura uma fantasia familiar sem grandes sobressaltos, dessas que devolvem ao espectador a ilusão de que até as dores herdadas podem ser arrumadas se alguém encontrar a gaveta certa. Como cinema, porém, a delicadeza cobra seu preço. Em vez de emoção concentrada, há momentos em que fica apenas o capricho. Em vez de assombro, decoração assombrada.

Seria injusto desprezar o filme. Há nele uma modéstia rara, uma recusa saudável ao barulho, uma confiança antiquada na força de uma casa, de uma avó, de um corredor, de uma história contada ao pé do fogo. Num mercado infantil cada vez mais entregue à algazarra, isso já é alguma coisa. Mas também seria generoso demais chamá-lo de pequena joia escondida. “Através do Tempo” é um objeto bem-acabado, afetuoso e limitado, mais eficiente como evocação de uma tradição do que como obra capaz de renová-la. Seus fantasmas têm boas maneiras. Talvez boas demais. Ao fim, a casa permanece de pé, como devia. Quem sai um pouco instável é o filme, condenado a habitar aquele território curioso em que a lembrança é mais bonita que a experiência.


Filme: Através do Tempo
Diretor: Julian Fellowes
Ano: 2009
Gênero: Aventura/Drama/Fantasia
Avaliação: 3.5/5 1 1
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