Há filmes de ação que parecem ter sido concebidos dentro de uma planta baixa, antes de existir um personagem, uma ambição estética, uma mínima centelha de perigo verdadeiro. Um prédio vazio, uma heroína traumatizada, um grupo de ladrões armados, reféns indefesos, elevadores, escadas, corredores, tubulações, cofres escondidos, policiais ineptos do lado de fora: o gênero já entrou tantas vezes por essa porta que a maçaneta está gasta. “A Protetora”, dirigido em 2020 por Ryûhei Kitamura, sabe exatamente em que tradição está pisando, e talvez por isso se mova com certa sem-cerimônia por seus 97 minutos. O problema é que saber o endereço não significa conhecer a casa.
Ruby Rose interpreta Alexandra “Ali” Gorski, ex-fuzileira naval americana que carrega nos ombros a culpa de uma missão fracassada em Bucareste, quando um comboio diplomático sob sua proteção é atacado e termina em carnificina. A sequência de abertura existe para informar, sem grande sutileza, que Ali sabe matar, sabe apanhar, sabe sobreviver e, sobretudo, sabe que sobreviveu quando outros não tiveram a mesma sorte. De volta a Nova York, ela aceita a ajuda do tio Pat e vai trabalhar como porteira no Carrington, um edifício de luxo em reforma, desses em que a riqueza parece ter saído de férias e deixado para trás paredes ocas, apartamentos silenciosos e segredos muito mais caros que seus moradores.
Ruby Rose sustenta o corpo a corpo
É nesse prédio quase desabitado que Kitamura instala sua máquina de pancadaria. Ali descobre que ali vivem Jon Stanton, viúvo de sua irmã, e os filhos dele, Max e Lily. A proximidade familiar vem com uma conta antiga, porque a relação entre Ali e Jon jamais foi tão limpa quanto conviria a uma família enlutada. Rupert Evans dá a Jon uma correção meio sonsa, de professor que se esforça para parecer sensato mesmo quando cercado por homens armados, enquanto os filhos servem ao roteiro como motor de urgência e como senha para que a protagonista abandone de vez qualquer hesitação civilizada. Quando Victor Dubois, o criminoso vivido por Jean Reno, invade o edifício atrás de obras de arte escondidas nas paredes, “A Protetora” encontra sua forma definitiva: uma variação feminina, econômica e menos espirituosa de “Duro de Matar”, sem a arquitetura emocional que fazia John McClane sangrar com graça.
Jean Reno atravessa o filme com a dignidade possível de quem já esteve em coisa muito melhor. Seu Dubois é um vilão de sotaque, casaco escuro e paciência curta, interessado em quadros valiosíssimos que teriam sido ocultados no prédio por um antigo morador. Aksel Hennie, como Borz, tem função mais saborosa: começa como colega de trabalho, aparece com uma solicitude suspeita, depois se revela peça de uma engrenagem criminosa que já estava em movimento antes de Ali entender o tamanho da armadilha. Hennie empresta ao personagem uma aspereza física que combina com martelos, facas, portas arrombadas e traições sem grande filosofia. Falta, contudo, um roteiro que lhe permita ser mais que obstáculo musculoso.
Uma pancadaria que conhece seus limites
Kitamura já demonstrou em outros trabalhos gosto pela violência coreografada como espetáculo de impacto, com corpos lançados contra superfícies duras e uma certa alegria sádica no ruído do metal contra a carne. Aqui, essa inclinação aparece aos soluços. Há bons instantes quando Ali improvisa armadilhas, usa ferramentas de manutenção como armas e transforma a geografia do edifício em extensão de seu treinamento militar. A protagonista corre por corredores empoeirados, se esconde em passagens técnicas, abre válvulas, aciona alarmes, faz de canos, granadas e mangueiras recursos de guerrilha doméstica. Essas cenas dão ao filme sua pequena razão de existir, porque Rose funciona melhor quando não precisa explicar o trauma de Ali nem sustentar diálogos afetivos de segunda mão. Ela é mais convincente em movimento, com o rosto fechado, o corpo magro parecendo sempre a meio segundo de desferir um golpe seco.
O que emperra “A Protetora” é a preguiça com que a história amarra tudo ao redor da ação. O roteiro de Lior Chefetz e Joe Swanson empilha informações como quem deposita caixas num depósito: a culpa militar, a irmã morta, o cunhado com quem houve um envolvimento mal resolvido, as crianças em perigo, o tio bondoso, os quadros escondidos, o comparsa infiltrado, o policial corrupto, o grande assalto durante um feriado. Quase nada respira. O filme quer que Ali pareça uma mulher devastada, uma tia substituta, uma guerreira clandestina e uma funcionária invisível do prédio, tudo sem dar a Ruby Rose uma cena capaz de converter essas camadas em personagem. Sobra-lhe a competência física, que não é pouco, e falta-lhe o tecido dramático que faria cada golpe ter peso além do barulho.
Há também uma estranha pobreza de atmosfera para um filme passado quase inteiro num edifício de luxo abandonado à própria reforma. O Carrington deveria ser um labirinto de ameaça, com cada andar sugerindo uma nova possibilidade de cerco, cada apartamento guardando a falsa segurança dos endinheirados. Muitas vezes parece apenas um conjunto de locações disponíveis, iluminadas para que o público não se perca e montadas sem a malícia espacial que uma narrativa desse tipo exige. O suspense nasce menos da direção que da lembrança de outros filmes em que um prédio fechado bastava para transformar homens comuns em ratos, heróis em fantasmas e ladrões em donos provisórios do mundo.
Ainda assim, “A Protetora” não é um desastre sem remissão. Tem duração honesta, alguma brutalidade eficiente, um desfecho que ao menos entende a necessidade de colocar Ali e Borz frente a frente sem muita conversa, e uma protagonista que, limitada pela escrita, cumpre o contrato físico do gênero. Kitamura entrega um filme de ação menor, derivativo, por vezes tolo, desses que entram pela tela como quem invade um apartamento errado e mesmo assim quebra alguns móveis antes de sair. A heroína salva a família, os ladrões pagam por sua cobiça, Jean Reno recolhe seu cheque com gravidade francesa, e Ruby Rose deixa a impressão de que Ali Gorski merecia um prédio mais perigoso, inimigos mais inventivos e uma fechadura menos enferrujada para arrombar.

