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Monteiro Lobato é um daqueles escritores brasileiros que parecem condenados a envelhecer mal e a permanecer indispensáveis. A combinação, incômoda como uma pedra no sapato da memória nacional, talvez seja o melhor indício de sua grandeza. O país que o transformou por décadas no avô bondoso do Sítio do Picapau Amarelo agora se vê obrigado a encará-lo também como um adulto de ideias ásperas, algumas delas francamente detestáveis, e descobre que a operação de separar o gênio infantil do polemista racista, o editor revolucionário do antimodernista rabugento, o patriota do petróleo do simpatizante da eugenia, não é simples. Se fosse simples, certamente Lobato deixaria de interessar.

Nascido em Taubaté, em 4 de julho de 1882, numa família ligada à velha elite agrária do Vale do Paraíba, José Bento Monteiro Lobato chegou à literatura brasileira carregando quase todas as contradições que o país achava que podia esconder debaixo do tapete — atraso rural, bacharelismo, desprezo pelo trabalho manual, doença, ignorância, racismo, arremedos de ciência, fascínio pelo progresso estrangeiro, mercado editorial ainda engatinhando, escola mofada e uma confiança às vezes comovente, às vezes ridícula, na capacidade da inteligência prática. Não espanta que ele próprio tenha sido tanta coisa. Fazendeiro fracassado, promotor público, jornalista, editor, tradutor, empresário, adido comercial, preso político, entusiasta do petróleo, autor de livros infantis, contista de adultos, missivista, marqueteiro de si mesmo. Em outro país, uma dessas vidas já bastaria para produzir uma biografia. No Brasil, serviu para produzir também um problema.

O Jeca Tatu, surgido nos textos que desembocariam em “Urupês”, de 1918, é uma das criações mais eficazes e mais comprometedoras de Lobato. Eficaz porque deu corpo, nome, chapéu, preguiça, doença e destino ao Brasil rural que a literatura oficial preferia pintar de verde e amarelo. Comprometedora porque nasceu de um olhar de cima, irritado, senhoril, disposto a transformar o caboclo em estereótipo antes de lhe conceder complexidade humana. Lobato depois corrigiria parcialmente a mira, trocando a acusação moral pelo diagnóstico sanitário: o Jeca não era assim porque queria, mas porque estava doente, abandonado, bichado pelo país que o produzia. A tentativa de correção melhorou o argumento, mas não purificou a imagem.

Essa é uma das chaves de Lobato: ele parecia escrever com o fígado. Não é um grande psicólogo. Não se deve procurá-lo esperando as sutilezas de Machado, os abismos de Clarice ou a música de Guimarães Rosa. Lobato é mais de botina na porta. Observa, reduz, caricatura, acusa com o dedo em riste. Quando a caricatura acerta o nervo, como em “Negrinha”, o efeito é brutal. A menina esmagada pela crueldade doméstica de uma sinhá ainda mentalmente escravocrata pertence àquelas figuras que a literatura, quando está em dia com seu próprio demônio, consegue tornar maiores que um tratado. Ocorre que Lobato denuncia a violência de um mundo usando, muitas vezes, o vocabulário e os reflexos desse mesmo mundo. A ferida aparece, mas a faca de ponta fina também.

O Lobato adulto é irregular, e não há por que fingir o contrário. “Cidades mortas” tem páginas fortes, atmosferas de decadência, bons achados de observação, mas também uma tendência a fazer dos personagens peças de acusação. “O presidente negro”, com sua mistura de ficção especulativa, futurismo racial e ideias eugenistas, é menos uma curiosidade excêntrica do que um documento perturbador daquilo que o progressismo científico do início do século 20 podia carregar de monstruoso no porão. O homem que sonhava com um Brasil moderno não sonhava necessariamente com um Brasil mais igualitário.

Mas então vem o Sítio.

Seria tentador dizer que, na literatura infantil, Lobato conseguiu se redimir. Seria também um erro, porque a literatura não é confessionário e porque as sombras não desaparecem quando a boneca ou o sabugo de milho começam a falar. Mas, no Sítio do Picapau Amarelo, Lobato encontra uma forma literária capaz de abrigar, organizar e transfigurar suas melhores ideias. Ali, na companhia de Dona Benta, Narizinho, Pedrinho, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa e, sobretudo, Emília, a literatura brasileira inventou um lugar em que criança podia ser inteligente sem se tornar insuportável, podia desobedecer sem virar exemplo moral, podia aprender sem se ajoelhar diante da lousa pelo castigo imposto.

A grande personagem de Lobato, claro, é Emília. Não por acaso, uma boneca. Se fosse gente, talvez tivesse que obedecer a alguma verossimilhança psicológica. Como é pano, fala o que quer. Emília é a criança, o escritor, o publicitário, o diabinho racionalista, o mau espírito da pedagogia e a melhor frase de Lobato andando sozinha pelo quintal. Sua língua destrava o Sítio. Ao contrário de tantos personagens infantis concebidos por adultos para ensinar bons modos a crianças reais, Emília existe para estragar a solenidade. Interrompe, distorce, exagera e faz pouco caso. É quase sempre egoísta, frequentemente injusta, às vezes brilhante. Em termos literários, é uma espécie de libertação do autor.

O Sítio é um país portátil. Não o Brasil real, evidentemente, mas uma hipótese de Brasil em que a cultura oral de Tia Nastácia, a biblioteca civilizada de Dona Benta, a curiosidade das crianças, a ciência do Visconde e a anarquia de Emília são obrigadas a conviver no mesmo terreiro. O resultado é mais vivo quando a convivência não se resolve em harmonia. Lobato não inventou apenas histórias; inventou uma máquina de pôr repertórios em atrito constante. A história do mundo passa pela sala de Dona Benta como visita importante, mas não tão importante que não possa ser interrompida por uma boneca malcriada.

Lobato nunca foi um escritor disposto a confiar inteiramente no poder mágico e inútil da literatura. Ele queria que ela servisse para alguma coisa. Queria ensinar, civilizar, corrigir o idioma, sacudir a escola e tirar o Brasil da pasmaceira. Quando a lição se dissolve na cena, o Sítio se torna uma das invenções mais livres da história de nossa literatura. Quando a lição fica em primeiro plano, os personagens viram alunos bons demais de um professor ansioso.

Esse professor ansioso também foi editor, e aqui convém fazer justiça. Lobato compreendeu antes de todos que literatura não vive apenas de inspiração. Vive de papel, capa, preço, distribuição e aposta comercial. Ao comprar a “Revista do Brasil”, lançar “Urupês” e depois se lançar à aventura editorial, ajudou a arrancar o livro brasileiro do fundo de salas abafadas em que meia dúzia de letrados se cumprimentava com mesuras e cafezinhos. Lobato pensava o livro como produto, palavra que ainda hoje arrepia alguns espíritos delicados. O editor Lobato talvez tenha sido mais moderno que o escritor Lobato.

Errou, e como errou. O ataque a Anita Malfatti, em 1917, virou uma espécie de crachá negativo, usado para resumir sua dificuldade diante da modernidade estética que chegava ao Brasil. Mas reduzir Lobato ao sujeito que não entendeu Anita é tão cômodo quanto reduzi-lo ao vovô do Sítio. Lobato queria um Brasil moderno, sim, mas moderno com clareza, indústria, saúde, petróleo e livro barato. Diante da deformação expressionista, da pintura que não parecia querer consertar nada, reagiu como fiscal de utilidade pública. Modernizou o mercado, mas desconfiou da modernidade quando ela lhe apareceu como vertigem formal.

Mais difícil é tratar das zonas raciais de sua obra, porque aí o risco de burrice se distribui democraticamente por todos os lados. A defesa automática, que invoca o “era assim na época” como quem joga creolina sobre um cadáver, é intelectualmente pobre, quase miserável. A condenação sumária, que transforma a leitura em boletim de ocorrência e considera encerrado o caso depois de anexar meia dúzia de frases ao processo, também apenas reforça a idiotia. Lobato, assim como outros autores de seu tempo, escreveu passagens racistas, trabalhou com ideias raciais e eugenistas em circulação em seu tempo e deixou, em torno de Tia Nastácia e de outros personagens negros, material que hoje exige mediação crítica. Não se trata de blindar a criança contra a literatura, mas de não entregar a ela, embrulhado em nostalgia, um mundo verbal que naturaliza humilhações.

Tia Nastácia é o ponto mais delicado do Sítio porque concentra, talvez como nenhum outro personagem, a mistura de afeto, subalternidade e violência simbólica que estrutura boa parte da cultura brasileira. Ela cozinha, conta histórias, sustenta a casa, leva sustos, é amada e ridicularizada, na mesma proporção. Está no centro e à margem. Sem ela, o Sítio perde chão; com ela, o Sítio revela o preço social de seu encanto.

No entanto, o que fazer com um clássico incômodo? A pergunta não vale só para Lobato, embora nele ela se apresente com especial nitidez brasileira. Queimar livros é uma ideia idiota. Canonizá-los sem contextualização histórica já não dá. Talvez a única resposta possível seja ler melhor. Ler com prazer quando houver prazer, com irritação quando houver motivo. Um clássico não é um parente querido a quem se perdoa tudo no almoço de domingo. Também não é um réu que se elimina da história depois da sentença. É uma máquina de continuar produzindo sentido, inclusive contra si mesma.

Lobato morreu em 1948, mas dá trabalho até hoje, quase 80 anos depois. Poucos escritores brasileiros podem se vangloriar dessa forma póstuma de vitalidade, embora gabar talvez não seja o verbo mais adequado para alguém que, se pudesse, provavelmente escreveria um artigo indignado contra quase todos os seus leitores contemporâneos: os defensores e os detratores. Seu fantasma deve ser um sujeito cansativo. Mas a literatura brasileira, que não anda podendo dispensar fantasmas desse tamanho, faria mal em expulsá-lo da casa.

O melhor de Monteiro Lobato continua sendo a invenção de um tipo de infância que não precisava ter medo de pensar. O pior continua sendo a quantidade de coisas que esse pensamento, vindo de seu autor, carregava sem examinar direito. Entre uma ponta e outra, há uma obra desigual, viva, livre apesar disso, brasileira até a raiz dos cabelos brancos. Quem quiser apenas o avô simpático ficará com uma mentira. Quem quiser apenas o vilão também. Lobato é mais perturbador porque cabe nos dois retratos e ainda sobra muito. Como Emília, sua criação mais insolente, ele parece continuar sentado no meio da sala, pernas cruzadas, pronto para dizer alguma coisa inconveniente. O trabalho do leitor adulto é não mandá-lo calar, mas lê-lo e saber distinguir.

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