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Em “A Ausência que Seremos”, drama histórico lançado em 2020 e dirigido por Fernando Trueba, o escritor colombiano Héctor Abad Faciolince revisita, a partir de suas lembranças, a vida do pai, Héctor Abad Gómez, médico, professor universitário e defensor dos direitos humanos em Medellín. Interpretado por Javier Cámara, o personagem aparece como um homem afetuoso dentro de casa e incômodo fora dela, em uma Colômbia atravessada pela violência política. O filme mostra por que a memória de uma família também pode contar a história de um país inteiro.

Baseado no livro homônimo de Héctor Abad Faciolince, “A Ausência que Seremos” acompanha a relação entre o médico Héctor Abad Gómez (Javier Cámara) e o filho, chamado de Quiquin na infância, vivido por Nicolás Reyes Cano. Na fase adulta, Héctor Abad Faciolince é interpretado por Juan Pablo Urrego, que assume a tarefa delicada de reconstruir a figura paterna sem transformar a lembrança em retrato sem falhas. O resultado é um filme comovente, mas nunca interessado apenas em arrancar lágrimas. Ele prefere observar como o afeto se organiza quando a ameaça deixa de ser assunto distante e passa a rondar a porta de casa.

Um médico entre a casa e a rua

Héctor Abad Gómez é professor universitário de medicina, mas sua atuação vai além da sala de aula. Ele se preocupa com saúde pública, pobreza, intolerância e desigualdade. Em Medellín, sua voz passa a incomodar porque não fica restrita aos corredores acadêmicos. O personagem defende direitos humanos em um país marcado por tensões políticas, grupos armados, disputas ideológicas e medo cotidiano. Para muita gente, ele representa coragem. Para outros, passa a ser um problema.

Dentro de casa, porém, Héctor é outro tipo de força. Ele é pai amoroso, marido presente e figura quase solar para o pequeno Quiquin. O menino acompanha o pai com uma mistura de admiração e curiosidade. Quer estar perto, ouvir, participar, compreender aquele homem que parece saber acolher todos ao redor. Javier Cámara interpreta Héctor com doçura, energia e certa teimosia. Seu personagem tem aquela convicção meio perigosa de quem acredita que falar a verdade ainda pode mudar alguma coisa. Em tempos tranquilos, isso seria apenas bonito. Na Colômbia retratada pelo filme, vira risco.

Cecilia Faciolince (Patricia Tamayo), esposa de Héctor, ocupa um lugar essencial nessa dinâmica familiar. Ela tenta preservar a casa, os filhos e uma normalidade possível, mesmo quando o mundo lá fora insiste em atravessar a rotina. A relação entre o casal não é desenhada como santinho de altar. Há diferenças, discussões, tensões religiosas e políticas, mas também existe afeto sólido. Trueba filma essa intimidade com atenção ao que parece pequeno. Uma conversa à mesa, uma bronca, uma brincadeira ou uma visita inesperada ajudam o espectador a perceber o quanto aquela família está viva antes que a violência tente tomar conta da lembrança.

O filho como guardião da lembrança

A força de “A Ausência que Seremos” está na forma como o filme alterna o olhar da criança e o olhar do adulto. Quiquin (Nicolás Reyes Cano) vê o pai como alguém maior que o mundo. Já Héctor Abad Faciolince adulto (Juan Pablo Urrego) revisita essa imagem com a dor de quem sabe o que veio depois. Essa mudança de perspectiva dá ao filme uma camada mais madura. A infância guarda luz, mas a memória adulta conhece o peso da perda.

O roteiro não trata Héctor Abad Gómez como um herói inalcançável. Ele é admirável, sem dúvida, mas também humano. Fala demais quando poderia se poupar, desafia ambientes hostis, acredita no diálogo em uma época na qual a escuta parece artigo de luxo. Essa combinação torna o personagem mais interessante. O filme não precisa santificá-lo para que o espectador compreenda sua grandeza. Basta mostrá-lo agindo, ensinando, cuidando dos filhos e ocupando espaços públicos onde sua presença passa a provocar desconforto.

Fernando Trueba acerta ao aproximar o drama político do cotidiano familiar. A violência colombiana não surge apenas em discursos ou manchetes. Ela aparece no clima das ruas, nas conversas interrompidas, no cuidado com as palavras e na sensação de que qualquer exposição pública pode cobrar um preço alto. A ameaça cresce sem transformar o filme em espetáculo de brutalidade. O medo está ali, mas o centro continua sendo a família, especialmente o elo entre pai e filho.

A Colômbia dentro da sala de jantar

“A Ausência que Seremos” funciona melhor quando mostra como a história nacional invade a vida privada sem pedir licença. Héctor Abad Gómez não vive isolado em suas ideias. Ele dá aula, participa de debates, defende os mais vulneráveis e insiste em falar de tolerância em um ambiente cada vez menos disposto a ouvir. Sua postura tem consequência. A família percebe que o prestígio do médico não o protege de tudo. Pelo contrário, quanto mais sua voz alcança espaço, maior fica a exposição.

O filme também se beneficia de uma reconstrução sensível de época. Roupas, casas, ruas e ambientes universitários aparecem sem ostentação. Nada parece colocado apenas para enfeitar a cena. Cada espaço ajuda a situar o espectador em uma Medellín familiar e ameaçadora, onde uma casa cheia de vida pode conviver com notícias ruins e conversas sussurradas. A direção de Trueba prefere a contenção. Em vez de empurrar emoção com força, deixa que ela venha do vínculo entre os personagens.

Há momentos em que o filme se alonga um pouco na admiração pelo pai. A ternura é tão grande que algumas passagens poderiam ganhar mais atrito. Ainda assim, essa escolha combina com a origem da obra. A história nasce do olhar de um filho que perdeu uma presença fundamental e tenta escrever contra o apagamento. Seria estranho exigir frieza de uma memória marcada por amor, saudade e espanto.

Um retrato de afeto e coragem

Javier Cámara é o grande eixo de “A Ausência que Seremos”. Sua atuação sustenta a mistura de carinho doméstico e coragem pública que define Héctor Abad Gómez. Ele sorri com facilidade, fala com paixão e ocupa a cena com uma humanidade que não precisa de pose. Nicolás Reyes Cano também merece destaque como Quiquin, porque traduz a admiração infantil sem artificialidade. Já Juan Pablo Urrego carrega a parte mais silenciosa da história, a de um homem adulto tentando dar forma ao que ainda dói.

O filme emociona porque compreende que a morte de uma pessoa pública nunca é apenas pública. Quando alguém é arrancado de sua família pela violência política, perde-se também uma rotina inteira. Perdem-se conversas, almoços, conselhos, irritações, abraços, manias e pequenas cenas que nenhum registro oficial consegue devolver por completo. “A Ausência que Seremos” olha para essa falta com respeito e delicadeza, sem transformar sofrimento em ornamento.

Ao revisitar a vida de Héctor Abad Gómez, Fernando Trueba entrega uma obra sobre memória, paternidade e responsabilidade civil. O filme fala de um homem que escolheu não se calar, mas também fala de quem ficou para organizar os vestígios dessa escolha. O pai ocupa a rua, a universidade e a casa. O filho, anos depois, ocupa a página e a lembrança. Entre um gesto e outro, “A Ausência que Seremos” preserva o nome de Héctor Abad Gómez e devolve ao espectador a dimensão humana de uma perda que a Colômbia ainda reconhece.


Filme: A Ausência que Seremos
Diretor: Fernando Trueba
Ano: 2020
Gênero: Drama/História
Avaliação: 4/5 1 1
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