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Em “Resistência”, filme de 2023 dirigido por Gareth Edwards, a guerra entre humanos e IA ganha corpo por meio de Joshua (John David Washington), um ex-agente das forças especiais recrutado para localizar uma arma capaz de decidir o futuro do conflito. Ambientada em um futuro marcado por medo, luto e ocupação militar, a trama acompanha esse soldado ferido pela ausência da esposa, Maya (Gemma Chan), enquanto ele descobre que a missão recebida envolve Alphie (Madeleine Yuna Voyles), uma criança sintética vista pelos humanos como ameaça.

A ficção científica costuma gostar de máquinas frias, luzes azuis e salas cheias de gente falando com muita seriedade. “Resistência” até visita esse território, mas Gareth Edwards prefere colocar poeira, mata, vilas, templos e estradas no caminho de seus personagens. O resultado é um filme de ação, aventura e drama que trata a IA menos como invenção distante e mais como presença política, religiosa e familiar em um mundo rachado pela guerra.

A história se passa depois de um ataque devastador atribuído à IA, episódio que transforma máquinas avançadas em inimigas públicas da humanidade. Os Estados Unidos passam a caçar núcleos sintéticos espalhados por regiões da chamada Nova Ásia, onde humanos e seres artificiais convivem de modo muito mais ambíguo do que os militares gostariam de admitir. É nesse ambiente que Joshua, vivido por John David Washington, volta ao campo de batalha carregando uma dor que nunca saiu de cena.

Joshua perdeu Maya, interpretada por Gemma Chan, durante uma operação militar. Ou pelo menos acredita ter perdido. A lembrança dela pesa tanto quanto qualquer arma no filme, porque serve de isca para trazer o personagem de volta à ação. Quando a coronel Howell (Allison Janney) o convoca para uma nova missão, ela oferece a possibilidade de que Maya ainda esteja viva. Para Joshua, isso basta para aceitar uma tarefa perigosa, mesmo sem confiar por completo em quem o chama.

A missão muda de tamanho

O objetivo inicial parece simples para uma guerra tão complicada. Joshua deve localizar o Criador, figura misteriosa associada ao avanço da IA, e destruir uma arma que poderia acabar com o domínio humano. A informação chega embalada em urgência militar, com mapas, ordens e aquela confiança típica de gente armada demais para admitir dúvidas. O problema é que a arma não tem a aparência esperada.

A descoberta de Alphie, interpretada por Madeleine Yuna Voyles, desloca o coração do filme. Ela é uma criança sintética com habilidade para interferir em equipamentos, máquinas e sistemas de defesa. Para os militares, Alphie representa risco estratégico. Para Joshua, ela começa como carga incômoda, passa a ser passagem para encontrar respostas sobre Maya e logo se torna algo mais difícil de nomear. O filme cresce quando troca a noção abstrata de ameaça por uma criança que observa tudo com silêncio, curiosidade e uma calma desarmante.

Essa relação entre Joshua e Alphie sustenta a parte mais humana de “Resistência”. Ele não vira protetor por bondade automática, nem abandona sua função de soldado por encanto repentino. O vínculo nasce do deslocamento, do cansaço, das fugas e da convivência forçada. Alphie depende dele para atravessar áreas sob vigilância. Joshua depende dela para chegar ao que procura. Os dois avançam por interesse, sobrevivência e afeto em construção, sempre com soldados e máquinas fechando o caminho.

Maya continua presente

Maya não é apenas uma lembrança romântica perdida no passado. A personagem de Gemma Chan está ligada ao centro moral da história, porque sua ausência orienta cada escolha de Joshua. Ele procura Maya enquanto tenta cumprir uma ordem, mas as duas coisas passam a entrar em atrito. Quanto mais ele se aproxima de Alphie, mais difícil fica tratar a missão como serviço militar comum.

Gareth Edwards acerta ao deixar esse conflito aparecer em gestos, não em grandes discursos. Joshua olha, hesita, avança, protege e volta a desconfiar. John David Washington interpreta o personagem com uma contenção que combina com alguém treinado para obedecer, mas quebrado demais para agir no automático. Sua melhor qualidade aqui está no cansaço. Joshua parece sempre alguns segundos atrasado emocionalmente, tentando alcançar o que a guerra já tomou dele.

Allison Janney dá à coronel Howell uma firmeza seca, quase impaciente. Ela representa a parte humana que já decidiu quem merece existir e quem deve ser eliminado. Ken Watanabe também aparece como Harun, figura importante ligada à resistência dos seres sintéticos. Sua presença ajuda a mostrar que o conflito vai além de humanos contra máquinas. Há comunidades, alianças, perdas e crenças em disputa, o que dá ao filme uma escala maior sem afastá-lo do vínculo entre Joshua e Alphie.

A ação vem da perseguição

“Resistência” funciona bem quando deixa a ação nascer da geografia. As perseguições passam por estradas, plantações, vilarejos e instalações militares, sempre com a sensação de que não existe abrigo totalmente seguro. A plataforma Nomad, usada pelos humanos para vigiar e atacar do alto, reforça essa pressão. Ela paira sobre o mundo com frieza monumental, lembrando que a guerra também se vence por alcance, vigilância e controle do céu.

Mesmo quando o roteiro usa caminhos conhecidos da ficção científica, a direção de Edwards dá textura ao universo. Os seres sintéticos têm rostos variados, vivem em espaços comuns, rezam, cuidam, fogem e morrem. Essa escolha enfraquece a fantasia de que a IA pode ser tratada apenas como ameaça técnica. Em “Resistência”, há corpos no chão, famílias separadas e soldados invadindo lugares onde a vida seguia antes da próxima ordem chegar.

O filme também sabe criar respiros sem desmanchar a tensão. Alphie tem uma presença curiosa, às vezes quase irônica, porque observa a brutalidade dos adultos com uma serenidade que desmonta muita pose militar. Não há piada forçada, mas há humanidade em pequenas reações, em olhares atravessados, em momentos nos quais Joshua parece perceber que sua companheira de fuga sabe mais do mundo do que muitos comandantes com crachá e arma na cintura.

Uma ficção de grande escala

O maior mérito de “Resistência” está em combinar espetáculo e sentimento sem transformar tudo em sermão. Gareth Edwards filma um mundo amplo, cheio de ruínas, naves, bases e máquinas, mas a história só ganha força porque permanece ligada a uma relação muito simples. Um homem quer reencontrar a esposa. Uma criança quer sobreviver. Um exército quer destruir aquilo que teme. Entre esses desejos, cada deslocamento cobra uma perda.

O roteiro nem sempre escapa de soluções previsíveis. Algumas viradas aparecem com a familiaridade de quem já viu outras ficções sobre guerra, tecnologia e redenção. Ainda assim, “Resistência” mantém interesse porque acredita no poder de sua dupla central. John David Washington e Madeleine Yuna Voyles dão ao filme um eixo emocional suficiente para atravessar os momentos mais grandiosos sem deixar o espectador preso apenas ao tamanho das máquinas.

O filme é mais eficiente quando olha para os humanos. São eles que apertam botões, invadem territórios, justificam ataques e decidem quem deve ser poupado. A IA, por sua vez, aparece com diferentes formas de existência, algumas frágeis, outras poderosas, quase todas presas ao olhar de quem já a condenou antes de qualquer conversa. Essa ambiguidade dá ao drama uma camada atual, sem depender de palestra ou frases de efeito.

“Resistência” chega ao trecho decisivo mantendo Joshua entre a ordem recebida e o laço criado com Alphie. A guerra continua acima deles, nos radares, nas armas e nas decisões de comando. A criança, porém, obriga o soldado a seguir por outro caminho. É aí que o filme deixa sua melhor marca, quando uma missão de extermínio vira fuga, cuidado e escolha sob mira constante.


Filme: Resistência
Diretor: Gareth Edwards
Ano: 2023
Gênero: Ação/Aventura/Drama/Ficção Científica
Avaliação: 3.5/5 1 1
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