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A briga de homens cansados costuma render ao cinema resultados mais honestos que as aventuras de rapazes atléticos, imaculados, protegidos pela juventude e por uma arrogância que ainda não cobrou sua fatura. Sylvester Stallone sempre soube transformar o próprio corpo numa espécie de autobiografia musculosa, atravessada por cicatrizes, golpes, derrotas mal digeridas e alguma disposição remanescente para levantar outra vez. Em “Rota de Fuga 3 — O Resgate”, John Herzfeld aposta justamente nessa figura: Ray Breslin, especialista em prisões impossíveis, volta à cena menos como estrategista brilhante do que como sobrevivente profissional, um sujeito que já viu demais para se espantar com a torpeza humana, embora ainda consiga ser atingido no lugar mais banal e perigoso de todos, o afeto.

Stallone contra o desgaste da própria lenda

A premissa não exige grandes preâmbulos. Breslin é contratado para resgatar Daya, filha de um magnata da tecnologia de Hong Kong, sequestrada por uma quadrilha que parece interessada em muito mais que dinheiro. O caso se complica quando Abigail, a namorada de Breslin, também cai nas mãos do mesmo criminoso, um sujeito ligado ao passado do protagonista e empenhado em transformar uma missão de resgate numa cobrança pessoal. A ação se desloca então para a Devil’s Station, penitenciária de nome suficientemente espalhafatoso para indicar o tipo de filme que se está vendo: corredores úmidos, celas mal iluminadas, homens armados surgindo de todos os cantos e uma violência que dispensa elegância porque sabe que seu público espera exatamente isso, ossos partidos e caras amassadas.

Herzfeld não tenta devolver à franquia a arquitetura engenhosa do primeiro “Rota de Fuga”, em que o prazer estava no funcionamento da armadilha, na leitura do espaço, no cálculo de cada deslocamento. Aqui, a prisão é menos um quebra-cabeça que um depósito de pancadaria. A Devil’s Station poderia ter corredores mais memoráveis, salas mais ameaçadoras, algum mecanismo perverso capaz de justificar a velha especialidade de Breslin, porém o filme prefere resolver quase tudo no confronto direto, como se o protagonista tivesse abandonado a inteligência operacional para apostar na brutalidade tardia. Isso não chega a destruir a experiência, porque “O Resgate” tem a decência de durar pouco e ir logo ao que interessa, sem fingir grandeza onde há apenas uma fita B tentando extrair mais alguns suspiros de uma marca já combalida.

A franquia troca a engenharia pelo muque

Stallone atravessa o longa com aquela expressão de quem já não precisa provar nada a ninguém e talvez por isso pareça mais convincente nos momentos de irritação silenciosa que nas explosões propriamente ditas. Seu Breslin não tem a leveza de um herói de ação contemporâneo; anda pesado, fala como quem mede energia, reage com uma secura que combina com o caráter terminal da história. Dave Bautista, como Trent DeRosa, entra para reforçar o lado bruto do enredo, e sua presença física ajuda a sustentar sequências que, sem ele, dependeriam demais de uma montagem nervosa e de capangas descartáveis. Curtis “50 Cent” Jackson aparece como Hush, peça funcional de uma engrenagem que jamais lhe dá espaço bastante para existir fora da utilidade técnica.

O problema maior é que “Rota de Fuga 3” parece sempre interessado em encerrar pendências, não em abrir possibilidades. O vilão carrega uma motivação pessoal contra Breslin, Daya serve como gatilho para a trama, Abigail como ferida emocional, DeRosa como reforço de impacto, e todos se movem dentro de uma história que já nasceu sabendo seu tamanho. Há certa honestidade nisso. Herzfeld não empurra filosofia barata para dentro da ação, não transforma o cárcere em metáfora de ocasião, não tenta convencer ninguém de que está diante de uma epopeia sobre culpa e redenção. O filme quer ser uma operação de entrada, resgate e extermínio. Quando se mantém fiel a esse objetivo, funciona com a eficiência rude de uma ferramenta velha.

Na soma, “Rota de Fuga 3 — O Resgate” é um desfecho menor para uma franquia que começou com mais engenho e terminou no muque, trocando a astúcia do escapismo pela artilharia de um acerto de contas. Ainda assim, há algo de curioso em ver Stallone nesse território gasto, conduzindo uma missão que parece menos uma aventura nova que a última ronda de um homem que já conhece todos os truques do inferno. A Devil’s Station não ficará na memória de ninguém, Ray Breslin talvez também já não peça tanto. Para um filme desses, sair vivo já é quase um triunfo.


Filme: Rota de Fuga 3 — O Resgate
Diretor: John Herzfeld
Ano: 2019
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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