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Numa época em que todo gênero de loucura é permitido e mesmo estimulado, em que boa parte das pessoas não tem mais a mínima ideia de civilidade e quanto maior a exposição nas redes sociais, maior a credibilidade que se possa vir a conquistar, um filme que denuncia a censura a uma manifestação cultural inofensiva — ainda que, vá lá, meio obscena — é profético. Os anos 1980 foram um tempo singularmente generoso para as experimentações da cultura pop, e Emile Ardolino (1943-1993) soube como poucos traduzir (e capitalizar) essa tendência. “Dirty Dancing: Ritmo Quente” é mais um dos arrasa-quarteirões que, literalmente, sacudiram plateias do mundo inteiro, catapultando seus protagonistas ao seleto panteão de Hollywood. Ao lado de produções a exemplo de “Footloose: Ritmo Louco” (1984), dirigido por Herbert Ross (1927-2001); “Flashdance: Em Ritmo de Embalo” (1983), levado à tela por Adrian Lyne; e “Os Embalos de Sábado à Noite” (1977), a cargo de John Badham, o filme de Ardolino continua a segurar o espectador na cadeira, e passadas quatro décadas, agora deixa no ar a boa e velha nostalgia.

Típico romance

O idealismo dos jovens chega a ser comovente. Mesmo quando errôneo, não deixa de ser fascinante o pensamento mágico que sugere que tudo sempre caminha para uma solução consensual e que agrada a todos, mesmo quando os problemas em tela desafiam a lógica. Num hotel muito parecido com o Overlook, nas cercanias das montanhas Rochosas, tornado eterno por Stanley Kubrick (1928-1999) em “O Iluminado” (1980), uma equipe de dançarinos entretém os endinheirados hóspedes, e Johnny Castle é o melhor deles. Francis Houseman, a Baby, chega com os pais, Jake e Marjorie, para uma temporada de férias que parecem tediosas, e o caudaloso roteiro de Eleanor Bergstein dispõe a miríade de personagens ao redor dos dois, deixando claro para onde seguirá a história, mas sem que se perca uma boa oportunidade de desenvolver o conflito geracional que oferece sustentação narrativa para o requebrado de Patrick Swayze (1952-2009) e Jennifer Grey. Contra tudo e contra todos, Johnny e Baby lutam para vencer o preconceito dos pais da moça e inocentar o mambo, a pachanga e o cha-cha-chá em Catskills, embora o que fique na cachola seja “(I’ve Had) The Time of My Life” (1987), a pegajosa balada de Bill Medley e Jennifer Warnes. Mas para que tanto rigor, não é?


Filme: Dirty Dancing: Ritmo Quente
Diretor: Emile Ardolino
Ano: 1984
Gênero: Drama/Musical/Romance
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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