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Em “O Sorriso de Monalisa”, drama de 2003 dirigido por Mike Newell, Katherine Ann Watson (Julia Roberts) chega ao Wellesley College, em 1953, para ensinar história da arte a jovens brilhantes que, apesar da formação de elite, vivem pressionadas a transformar diploma em passaporte para o casamento. A professora vem da Califórnia com ideias modernas para a época, mas encontra uma faculdade orgulhosa de sua tradição, onde inteligência feminina é celebrada desde que não atrapalhe o altar, o enxoval e a boa aparência diante das famílias.

O filme acompanha esse choque com elegância e alguma ironia. Wellesley é apresentado como um lugar impecável, feito de salas bem cuidadas, rituais sociais, alunas preparadas e regras que não precisam gritar para serem obedecidas. Katherine acredita que a arte pode abrir espaço para pensamento próprio. As estudantes, por sua vez, sabem citar artistas, datas e conceitos, mas muitas foram ensinadas a usar essa cultura como adorno, não como instrumento de escolha. A tensão nasce aí, entre o que elas sabem e o que esperam que façam com esse conhecimento.

A professora chega tarde ao próprio sonho

Katherine Ann Watson (Julia Roberts) aceita a vaga no Wellesley College esperando encontrar uma instituição dedicada à formação intelectual de mulheres. Ela realmente encontra alunas excepcionais. O problema é que boa parte daquele talento parece cercada por expectativas familiares e sociais muito rígidas. A faculdade oferece prestígio, mas também cobra comportamento. Na prática, cada aula carrega uma pergunta incômoda. Até onde aquelas jovens poderão ir sem serem vistas como ingratas, excêntricas ou inadequadas para a vida que já desenharam para elas?

A primeira barreira aparece dentro da sala. Betty Warren (Kirsten Dunst), Joan Brandwyn (Julia Stiles) e outras estudantes chegam preparadas para vencer a professora no próprio terreno. Elas leram o programa, decoraram as respostas e tratam Katherine como alguém que precisa provar autoridade. A cena é importante porque desmonta qualquer fantasia de que a turma seria ingênua ou passiva. As alunas são inteligentes, rápidas e afiadas. O drama está no uso que o mundo ao redor permite que elas façam dessa inteligência.

A arte vira assunto doméstico

Para escapar da aula engessada, Katherine leva obras e perguntas que não cabem tão bem nos manuais. Ela quer que as estudantes opinem, duvidem e defendam uma leitura própria. A atitude incomoda porque desloca a arte do museu para a vida cotidiana. Um quadro deixa de ser apenas tema de prova e passa a cutucar escolhas pessoais. O que é valor? Quem decide o que merece respeito? Por que uma mulher educada deve pedir licença para querer mais de uma coisa ao mesmo tempo?

É aí que “O Sorriso de Monalisa” funciona melhor. O filme não transforma Katherine em dona da verdade, nem as alunas em caricaturas de uma época. Betty Warren (Kirsten Dunst), por exemplo, defende o casamento e a tradição com uma força que pode ser cruel, mas também revela medo de perder o lugar que lhe prometeram. Joan Brandwyn (Julia Stiles) tem talento para pensar em Direito e em uma vida profissional, mas também deseja se casar. Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal) desafia convenções com mais ousadia, embora pague o preço de ser julgada por todos. Connie Baker (Ginnifer Goodwin) procura afeto e reconhecimento, muitas vezes com uma insegurança que a deixa exposta.

Wellesley sorri enquanto vigia

A faculdade é uma personagem silenciosa. Seus corredores, dormitórios e cerimônias criam uma sensação de ordem permanente. Quase tudo parece bonito, mas quase nada parece livre. O bom comportamento vale tanto quanto as notas. Uma aluna pode ser brilhante em sala e, ainda assim, ser tratada como alguém que precisa escolher o marido certo antes de escolher a própria vida. O roteiro trabalha essa pressão sem precisar transformar cada adulto em vilão. A força do costume já faz boa parte do serviço.

Katherine também não passa ilesa. Sua vida afetiva entra em julgamento, suas escolhas viram assunto e sua presença começa a ser vista como ameaça ao equilíbrio da instituição. Bill Dunbar (Dominic West), professor de italiano, surge como uma figura charmosa, mas menos confiável do que aparenta. Paul Moore (John Slattery), ligado ao passado de Katherine, representa outro tipo de expectativa. A professora pede coragem às alunas, mas também precisa lidar com seus próprios desencontros. Isso dá ao filme uma camada mais humana, porque ninguém ali está completamente acima das contradições que aponta nos outros.

As alunas não cabem em cartilhas

A relação entre Katherine e as estudantes cresce quando o filme permite que cada jovem tenha uma forma diferente de reagir. Betty usa a segurança social como arma. Joan pesa possibilidades reais, sem que sua dúvida seja tratada como fraqueza. Giselle enfrenta a hipocrisia com provocação. Connie quer ser vista sem precisar fingir sofisticação o tempo inteiro. O resultado é um retrato mais interessante do que uma simples disputa entre tradição e modernidade. Há afeto, vaidade, medo, cálculo e desejo de pertencimento no mesmo dormitório.

Mike Newell mantém o drama em um registro acessível, com ritmo de filme feito para grande público, mas sem abandonar a crítica aos papéis impostos às mulheres nos anos 1950. A direção aposta em contrastes fáceis de reconhecer, mas eficientes. A sala de aula abre perguntas, os jantares fecham comportamentos, o jornal estudantil expõe reputações e os corredores espalham julgamentos com a velocidade de uma fofoca bem penteada. O humor aparece de leve, muitas vezes na distância entre a pose sofisticada de Wellesley e o pânico que uma ideia nova provoca naquele ambiente.

Um drama elegante sobre escolhas caras

“O Sorriso de Monalisa” tem um olhar afetuoso para suas personagens, mesmo quando algumas delas são difíceis de defender. Betty pode ser dura, Joan pode frustrar expectativas, Katherine pode insistir demais. Ainda assim, o filme preserva algo essencial. Cada uma delas age dentro de um espaço com custo real. Querer estudar mais, casar, trabalhar, amar ou simplesmente respirar fora do roteiro previsto não tem o mesmo peso para todas. A crítica social surge dessa diferença.

O longa deixa a sensação de que a passagem de Katherine pelo Wellesley não muda tudo, mas muda o suficiente para incomodar. E, naquele ambiente, incomodar já é quase uma pequena rebelião com luvas bem passadas. “O Sorriso de Monalisa” é interessante porque fala de um tempo específico sem parecer peça de museu. A pergunta que atravessa o filme ainda reconhece muitas mulheres pelo caminho. Afinal, o que fazer quando uma instituição elogia sua inteligência, mas prefere que você não a use demais?


Filme: O Sorriso de Mona Lisa
Diretor: Mike Newell
Ano: 2003
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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