Numa biografia convencional, Cordisburgo seria apenas o lugar de nascimento. No caso de João Guimarães Rosa, isso parece pouco. Quase errado. Cordisburgo foi o primeiro ouvido do escritor, o lugar onde o menino João aprendeu, antes de qualquer teoria, que a língua não serve só para nomear o mundo. Ela também desvia, tropeça, canta, mente, ilumina, se esconde.
Antes do médico, do diplomata, do acadêmico e do autor de uma das obras mais difíceis de domesticar da literatura brasileira, houve um menino mineiro nascido em 27 de junho de 1908, filho de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa. O pai, conhecido como seu Fulô, mantinha uma venda na cidade. O detalhe importa. Uma venda de interior, no começo do século 20, não era só comércio. Era sala de espera, jornal falado, arquivo de causos, balcão de dívidas, posto de observação. A vida passava por ali pedindo mantimento, puxando conversa, exagerando uma história, corrigindo outra, inventando sem pedir licença à literatura.
O Brasil em que Rosa nasceu ainda era majoritariamente rural. A República engatinhava, Minas Gerais conservava enorme peso político e simbólico, e cidades como Cordisburgo condensavam um modo de vida feito de religião, natureza, oralidade, comércio miúdo e isolamento relativo. O menino cresceu entre estradas lentas, rezas, bichos, boiadas, assombros e conversas demoradas. Mais tarde, quando sua obra fosse tomada como uma explosão verbal, talvez fosse preciso lembrar que explosões também têm raiz. A de Rosa estava nessa escuta antiga.
A casa onde nasceu e passou a infância virou museu. A transformação é justa, embora traga seu pequeno perigo: o de imobilizar em vitrine aquilo que, nele, sempre foi travessia. Documentos, gravatas-borboleta, máquina de escrever, maleta de médico, objetos do sertão mineiro, tudo ajuda a recompor o personagem público. Mas o essencial continua fora do vidro. A criança que atravessava aquela casa não sabia que um dia seria Guimarães Rosa. Sabia, talvez, que o mundo falava de muitas maneiras.
Aos dez anos, mudou-se para Belo Horizonte para estudar. A saída de Cordisburgo não apagou a origem. Criou distância. Há escritores que só enxergam um lugar depois de perdê-lo de vista. O sertão que entraria nos livros de Rosa não seria cópia documental da infância, muito menos álbum regionalista de tipos curiosos. Seria uma realidade refeita por alguém que conhecia por dentro a fala do interior, mas já a escutava também com o espanto do erudito, do poliglota, do homem que lia o mundo em muitas línguas e devolvia tudo num português irreconhecivelmente brasileiro.
A biografia externa é conhecida e, vista de longe, quase arrumada demais. Rosa formou-se em Medicina em 1930, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Exerceu a profissão no interior mineiro, em Itaguara, experiência decisiva no contato direto com a vida sertaneja. Tornou-se capitão médico da Força Pública de Minas Gerais. Em 1934, entrou por concurso no Itamaraty. Serviu em Hamburgo, Bogotá e Paris. Foi médico, militar, diplomata, funcionário aplicado, viajante, leitor de idiomas, homem de gabinete e de arquivo. Tudo isso poderia ter produzido apenas um intelectual respeitável. Produziu outra coisa.
O contraste entre o menino de Cordisburgo e o diplomata cosmopolita é vistoso, mas simplifica. Não havia dois Rosas, um sertanejo e outro mundano, um arcaico e outro moderno. Havia um escritor capaz de fazer essas forças trabalharem juntas. O conhecimento de línguas estrangeiras não o afastou do português popular. Ao contrário, ajudou-o a perceber que toda língua, quando vista de perto, tem alguma coisa de estrangeira. O convívio com a fala sertaneja não o prendeu ao regionalismo. Deu-lhe o chão de onde partir para uma literatura que não queria apenas representar o Brasil profundo. Queria refazê-lo por dentro da frase.
A estreia literária em livro veio com “Sagarana”, em 1946. O impacto foi imediato porque o regionalismo, ali, voltava diferente de si mesmo. Não era mais o sertão como paisagem pitoresca, com personagens em vitrine folclórica para instrução do leitor urbano. Era território moral, verbal, mítico. Havia bois, vaqueiros, jagunços, rezas, violência, humor, medo, assombro. Havia, sobretudo, uma linguagem que parecia nascer colada à experiência narrada e, ao mesmo tempo, desconfiar de qualquer naturalidade. Rosa escrevia como quem recolhe e transmuta. Ouvia a fala viva, mas não se limitava a transcrevê-la.
Em 1956, ano difícil de exagerar, publicou “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”. Poucos escritores brasileiros concentraram tanta força num mesmo momento. “Corpo de Baile” ampliava o universo rosiano em novelas atravessadas por infância, velhice, amor, doença, destino, travessia e revelação. “Grande Sertão: Veredas”, seu único romance, levava tudo ao limite. A fala de Riobaldo, jagunço aposentado que narra sua vida a um interlocutor silencioso, é uma das grandes invenções da literatura em português. Ali, o sertão já não cabe em definição escolar. É geografia, campo de guerra, experiência amorosa, problema teológico, labirinto da memória, teatro da culpa.
A tentação de chamar Rosa de regionalista precisa ser enfrentada com cuidado. Sim, sua obra nasce de Minas, do sertão, de uma experiência histórica e linguística muito localizada. Mas o local, nele, não estreita a literatura. Faz o contrário. Quanto mais Rosa se enterra no chão mineiro, mais se aproxima de temas sem endereço fixo: o bem, o mal, a coragem, a covardia, o desejo, a morte, a fé, o medo de que o diabo exista e o medo talvez maior de que não exista coisa nenhuma. A universalidade de Rosa não é a do escritor que apaga a origem para falar com todos. É a de quem desce tão fundo numa origem que encontra, lá embaixo, matéria comum aos homens.
A linguagem continua sendo o grande escândalo. Rosa inventou palavras, recuperou arcaísmos, dobrou sintaxes, misturou registros, torceu a frase até fazê-la parecer antiga e recém-nascida. O resultado ainda desafia leitores porque não oferece a falsa hospitalidade da prosa transparente. Em Rosa, ler é atravessar. Às vezes com encanto, às vezes com irritação, muitas vezes com a sensação de que o texto sabe mais do que o leitor e não pretende facilitar a vida de ninguém. Não se trata de dificuldade ornamental. A forma é o pensamento. Tirar de Rosa sua língua seria deixar Riobaldo sem sertão.
Depois vieram “Primeiras Estórias”, em 1962, e “Tutameia”, em 1967, além dos livros póstumos. A carreira pública também ganhou seu rito de consagração. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, Rosa só tomou posse em 16 de novembro de 1967. Morreu três dias depois, no Rio de Janeiro. A coincidência é tão literária que dispensa enfeite. O homem que havia transformado morte, destino e travessia em matéria verbal encerrou a própria trajetória como se a realidade, por uma vez, tivesse aceitado escrever à moda dele.
Mais de um século depois daquele 27 de junho de 1908, Cordisburgo permanece menos como curiosidade turística do que como chave de leitura. Ali nasceu João Guimarães Rosa, menino do interior de Minas, filho de uma família ligada à vida concreta da cidade pequena. Nasceu também, ainda sem nome, uma forma nova de escrever o Brasil. Não um Brasil explicado, reduzido a mapa ou tese. Um Brasil falado por dentro, em estado de pergunta, com poeira, medo, graça, violência, reza, invenção e silêncio. Rosa saiu de Cordisburgo. A literatura brasileira ainda tenta alcançá-lo.

