No calendário da literatura brasileira, 27 de junho já pertencia a Guimarães Rosa. Era o dia de Cordisburgo, do sertão transfigurado, da língua brasileira levada a uma espécie de combustão metafísica. Em 2026, a data passou a carregar outro sinal: morreu, no Rio de Janeiro, Alexei Bueno, poeta, ensaísta, tradutor, crítico e editor que, por caminho quase oposto ao de Rosa, também fez da língua uma casa extrema. Se Rosa reinventou o Brasil pelo sertão, Alexei perseguiu a permanência da poesia no coração de uma época que parecia cada vez menos disposta a ouvi-la.
Não convém forçar a coincidência. Guimarães Rosa e Alexei Bueno não pertencem à mesma escala histórica, não operam com a mesma matéria verbal, não pedem o mesmo tipo de leitura. Rosa nasce da oralidade sertaneja, da invenção popular elevada a cosmogonia, da fala brasileira colocada em estado de milagre. Alexei vem de outra linhagem: a do livro, da biblioteca, do verso medido, da memória clássica, do diálogo com os mortos, da cidade que olha para suas ruínas sem pedir desculpa por saber latim, Camões, Nerval, Augusto dos Anjos e a melancolia dos séculos. O ponto de encontro, se existe, está antes da literatura virar tema de currículo ou fetiche de rede social: está na crença, cada vez mais rara, de que a língua não é apenas meio de comunicação. É destino.
Alexei Bueno morreu na madrugada de sábado, 27 de junho de 2026, aos 63 anos. As primeiras notícias informaram que ele tratava um câncer. Houve, nas horas iniciais, divergência sobre o local exato da morte — algumas notas falaram em hospitalização, outras em morte em casa —, o que recomenda prudência. O dado seguro, até aqui, é o Rio de Janeiro, sua cidade natal e uma das matérias obsessivas de sua imaginação cultural.
Nascido em 26 de abril de 1963, Alexei Bueno Finato foi daqueles escritores que não cabem direito numa palavra só. Poeta, antes de tudo. Mas também ensaísta, crítico, tradutor, editor, pesquisador, organizador de obras, curador de tradições, homem de arquivo e de combate. Não fez apenas livros. Trabalhou sobre o tecido material que permite que os livros existam, circulem, sobrevivam à negligência, à edição ruim, ao esquecimento e à moda.
Sua estreia poética, “As Escadas da Torre”, saiu em 1984. Vieram depois “Poemas Gregos”, “Livro de Haicais”, “A Decomposição de J. S. Bach”, “Lucernário”, “A Via Estreita”, “Entusiasmo”, “Os Resistentes”, “A Árvore Seca”, “Anamnese”, “Cerração”, “O Sono dos Humildes”, “A Noite Assediada”, “Naquele Remoto Agora”, “O Irrefreável” e outros títulos que compõem uma obra menos interessada em parecer atual do que em disputar, com certa arrogância necessária, o direito de durar. Ganhou prêmios importantes, entre eles o Jabuti, o da Associação Paulista de Críticos de Arte, o da Academia Brasileira de Letras, o da Biblioteca Nacional, o Fernando Pessoa e o Candango. Nada disso explica a poesia, mas ajuda a medir a estranha posição que ocupou: era reconhecido, sem ser domesticado; premiado, sem virar unanimidade confortável.
O poeta Alexei Bueno escreveu contra a pressa. Contra a facilidade. Contra a ideia, hoje quase obrigatória, de que a poesia precisa pedir desculpas por sua densidade e provar utilidade imediata antes de existir. Em seus melhores momentos, sua obra parece mover-se entre duas forças que não se conciliam plenamente: de um lado, a ambição de permanência, a forma, o decoro verbal, o amor pelos metros, pelo soneto, pela arquitetura visível do poema; de outro, a consciência de que todo edifício humano está condenado à ruína. O resultado não é uma poesia meramente “clássica”, palavra que muitas vezes serve de eufemismo para coisa morta. É uma poesia assombrada por aquilo que tenta salvar.
Essa tensão talvez explique por que Alexei podia parecer antigo sem ser simplesmente anacrônico. Antigo, nele, não significava atrasado. Significava recusar o presente como juiz absoluto da literatura. Há escritores que envelhecem porque obedecem demais ao próprio tempo. Alexei corria o risco inverso: o de parecer fora do tempo justamente por desconfiar dele. Num ambiente literário que frequentemente confunde informalidade com verdade, prosaísmo com coragem e descuido com liberdade, sua aposta no rigor formal soava quase provocação. Em certo sentido, era.
Mas seria injusto reduzi-lo ao poeta que defendia a tradição como quem guarda um cofre. Alexei não foi antiquário de luxo. Foi trabalhador da tradição. Como editor e organizador, desempenhou papel decisivo na recuperação e fixação de textos centrais da literatura brasileira e portuguesa. Organizou a “Obra Completa” de Augusto dos Anjos, trabalhou com Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Jorge de Lima, Gonçalves Dias, Vinicius de Moraes, Álvares de Azevedo, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros. Preparou edições comentadas, antologias, volumes de referência. Quem acha que isso é tarefa lateral não entendeu como a literatura sobrevive. Um poema mal editado também morre. Um autor clássico entregue ao leitor em edição desleixada chega ferido antes mesmo da leitura.
Augusto dos Anjos ocupou lugar especial nesse trabalho. Alexei tratou sua obra não como relíquia escolar, mas como problema vivo de texto, interpretação e transmissão. O mesmo vale para Camões. Sua relação com “Os Lusíadas”, com os sonetos camonianos e com a tradição portuguesa em geral não era a reverência vazia de quem ajoelha diante do monumento. Era a intimidade de quem sabe que um clássico só continua clássico quando alguém aceita o trabalho nada glamouroso de relê-lo, anotá-lo, corrigir erros, restituir contexto, devolvê-lo à circulação.
Como tradutor, Alexei Bueno enfrentou Nerval, Poe, Longfellow, Mallarmé, Tasso, Leopardi, Shakespeare, John Clare, entre outros. Sua tradução de “O corvo”, de Edgar Allan Poe, entrou numa linhagem em que já estavam Machado de Assis e Fernando Pessoa, o que dá uma ideia do tamanho da encrenca. Traduzir poesia, nesses casos, não é transportar sentido de uma língua para outra, como quem muda móveis de apartamento. É reconstruir uma máquina verbal em outro idioma sem fingir que a perda não existe. Alexei sabia disso. Sua erudição não era ornamento de sala. Era ferramenta.
Há também o Alexei historiador da poesia brasileira. “Uma História da Poesia Brasileira”, publicado em 2007, é a obra de alguém que não via a literatura como sucessão de modismos, escolas e slogans didáticos, mas como continuidade conflituosa, herança em disputa, conversa áspera entre mortos e vivos. Em 2022, com “A Escravidão na Poesia Brasileira: Do Século XVII ao XXI”, organizou um volume de mais de 700 páginas reunindo mais de 200 poemas de 81 poetas ao longo de três séculos e meio. O projeto, nas palavras dele, preenchia uma “lacuna absurda”. Mais que antologia, era uma intervenção na memória literária do país, lembrando que a poesia brasileira também registrou, deformou, enfrentou ou evitou a violência fundadora da escravidão.
Esse ponto é importante porque impede uma caricatura fácil. Alexei não era apenas o poeta da forma, do mármore, da biblioteca, dos deuses gregos e das sombras clássicas. Seu interesse pela tradição não excluía a história brasileira, inclusive a mais brutal. Ao contrário: talvez fosse justamente por desconfiar da amnésia contemporânea que ele voltasse tantas vezes aos arquivos, aos monumentos, às obras completas, às antologias, aos nomes esquecidos. Num país em que o esquecimento costuma trabalhar com mais eficiência do que a cultura, editar, organizar e republicar também são formas de resistência.
Sua presença pública nas letras tinha a mesma marca de exigência. Alexei podia ser contundente, impaciente, pouco inclinado a concessões. Não cultivava a simpatia fácil que transforma todo escritor morto em santo instantâneo. Seria uma traição ao personagem amaciá-lo agora em nome da liturgia fúnebre. Ele pertenceu a uma espécie em extinção ou, pelo menos, em recolhimento: a do escritor que lia com ferocidade, discutia com paixão, conhecia genealogias, não tinha medo de julgar e via a literatura como assunto sério demais para ser entregue à espuma da cordialidade.
Isso não significa que estivesse sempre certo. Ninguém está, muito menos quem polemiza. Mas a figura de Alexei Bueno fica maior quando preservamos suas arestas. Bons obituários não embalsamam; iluminam. E há algo iluminador no contraste entre sua obra e o tempo em que ela se escreveu. Enquanto parte da cultura literária brasileira se rendia ao culto da leveza, da pauta, do depoimento imediato, da frase de efeito e da legitimação sociológica do texto, Alexei continuava a apostar na velha e perigosa ideia de que poesia é trabalho com a linguagem levado ao limite. Podia soar elitista. Podia soar severo. Podia soar inatual. Ocorre que nem toda inatualidade é defeito. Às vezes é apenas o nome provisório daquilo que ainda terá leitores quando a atualidade tiver virado poeira.
No dia em que o Brasil literário recordava o nascimento de Guimarães Rosa, morreu um poeta que pertenceu a outra família da língua. Rosa abriu no sertão uma passagem para o infinito, fazendo a fala brasileira ranger, florescer, delirar, rezar e filosofar como se estivesse sendo inventada naquele instante. Alexei Bueno, por sua vez, caminhou pela via da permanência, da memória culta, da forma herdada e reinventada, do livro como objeto de civilização. Um expandiu a língua pela combustão da oralidade. O outro a tensionou pela tradição, pelo arquivo, pelo rigor e pelo convívio com os mortos.
A coincidência da data não apaga a distância entre eles. Apenas desenha, por um segundo, uma ponte improvável. No mesmo 27 de junho em que Rosa voltava ao calendário, Alexei saía dele para entrar naquele território mais incerto onde ficam os escritores depois que a vida termina e a obra começa a responder sozinha. Deixa poemas, traduções, ensaios, edições, antologias, polêmicas e a imagem rara de um homem que levou a poesia a sério quando quase tudo ao redor parecia pedir o contrário. Não é pouco. Num país que esquece depressa, talvez seja quase uma forma de eternidade.

