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Há livros que entram na sala pedindo licença, tiram o chapéu, explicam a que vieram e se acomodam no sofá da tradição como visitas bem-educadas. Nada contra eles. Muitas obras excelentes se comportam assim, e o leitor, que já tem problemas suficientes fora das páginas, nem sempre está disposto a ser assaltado pela literatura. Mas há outro tipo de livro, mais raro e mais perigoso, que não se contenta em contar uma história, desenvolver personagens, encadear cenas e entregar no fim uma pequena recompensa de sentido. Ele desloca os móveis, racha a parede, muda a acústica do cômodo. Quando termina, não sabemos bem se lemos um livro ou se passamos por um incidente.

Chamar esses livros de difíceis talvez seja correto, mas pouco esclarecedor. Difícil também pode ser um manual de física mal traduzido, uma bula de remédio ou um romance experimental que confunde obscuridade com profundidade. O que interessa aqui é outra coisa: a força de certas obras breves ou relativamente compactas que, sem precisar de mil páginas nem de grandes declarações de importância, alteram por alguns graus a relação do leitor com a própria ideia de narrativa. São livros que parecem escritos sob uma pressão anormal, como se a linguagem tivesse sido obrigada a falar numa frequência que não é a sua.

Em alguns deles, o fantástico não serve para fugir da realidade, mas para arrancar a pele civilizada que a cobre. Em outros, a ficção científica deixa de ser previsão tecnológica e vira laboratório moral, quase clínico, onde já não se sabe ao certo o que sobrou de humano depois que a linguagem administrativa, médica, política ou corporativa tomou posse dos corpos. Há também os livros em que o delírio não é ornamento, mas método; em que a fala se desfaz enquanto tenta se afirmar; em que o mito, o sonho, a bebedeira, a máquina, o gelo ou a morte operam menos como temas do que como forças de deformação.

A lista a seguir reúne cinco desses pequenos terremotos literários. Pequenos não por falta de ambição, mas porque sua devastação se dá em área concentrada, como acontece com certas explosões subterrâneas. Leonora Carrington, Anna Kavan, Louis-René des Forêts, Amos Tutuola e Olga Ravn pertencem a tradições, línguas e imaginários muito diferentes, mas todos parecem desconfiar da literatura comportada, aquela que acredita bastar representar o mundo para merecer nossa atenção. Em seus livros, o mundo não é representado. É contaminado, entortado, submetido a uma prova de resistência.

Convém entrar neles sem esperar conforto. O prêmio, se houver, é menos o prazer pacífico da identificação do que a experiência mais rara de sentir a cabeça se reorganizando diante de formas que não pedem permissão para existir. A boa literatura nem sempre ilumina. Às vezes ela apaga a luz de propósito, para que a gente descubra que ainda enxerga alguma coisa no escuro.


A Corneta — Leonora Carrington

Aos 92 anos, quase surda e vivendo na casa do filho, Marian Leatherby ganha da amiga Carmella uma corneta auditiva. O presente, que a princípio parece apenas uma excentricidade útil, permite que ela ouça o plano da família para mandá-la a um asilo. O lugar, naturalmente, não tem nada de natural: a Fraternidade Poço de Luz mistura disciplina espiritual, autoaperfeiçoamento e arquitetura de delírio, com construções em forma de bolo, cogumelo e iglu. A partir daí, a velhice deixa de ser sinônimo de recolhimento e vira uma aventura surreal, atravessada por freiras, abelhas, mistérios, cultos e sinais de apocalipse. A imaginação funciona como desobediência final.


Gelo — Anna Kavan

Uma massa de gelo avança sobre o planeta e transforma a catástrofe ambiental em paisagem mental. Nesse mundo que se desfaz, um narrador sem nome persegue uma garota de cabelos quase brancos, figura ao mesmo tempo frágil, desejada e violentada, enquanto disputa sua posse com o Guardião. A relação entre os três tem algo de triângulo amoroso, mas a expressão é pequena demais para nomear a combinação de desejo, domínio, culpa e aniquilação que move a narrativa. Tudo é instável: lugares mudam, cenas parecem sonhos, a perseguição recomeça quando parecia chegar a algum ponto. A ficção científica vira pesadelo íntimo, e o fim do mundo parece nascer da mesma brutalidade que governa os personagens.


O Tagarela — Louis-René des Forêts

Um narrador anônimo, atormentado pela própria presença no mundo, transforma uma situação quase banal numa crise verbal sem saída. Depois de uma caminhada tomada por sensações ambíguas e, mais tarde, sob efeito do álcool numa boate, ele convida uma mulher para dançar e se vê de repente num triângulo incômodo com ela e o namorado. O episódio deflagra uma torrente de fala, confissão, impostura e autoexame. A tagarelice não é simples excesso de palavras, mas uma forma de seduzir, se defender, se expor e se perder. Quanto mais o narrador tenta dominar o relato, mais o relato denuncia sua vaidade, sua fragilidade e sua incapacidade de estar em silêncio.


O Bebedor de Vinho de Palma e Seu Finado Fazedor de Vinho na Cidade dos Mortos — Amos Tutuola

Filho do homem mais rico de sua cidade, o herói sem nome vive desde os dez anos entregue ao vinho de palma, cercado por amigos igualmente bebedores e servido por um fazedor incomparável. Quando esse homem morre ao cair de uma palmeira, a bebida perfeita desaparece com ele. Incapaz de aceitar a perda, o protagonista sai em busca do morto na Cidade dos Mortos e atravessa uma geografia fabulosa de matas, rios, vilarejos, espíritos, criaturas monstruosas e objetos mágicos. A aventura nasce da tradição oral iorubá, mas não se comporta como peça folclórica domesticada. Tudo nela se move, se transforma, ameaça e ri. A lógica do maravilhoso é a própria lógica do mundo.


Os Funcionários — Olga Ravn

Em um futuro distante, humanos e humanoides viajam a bordo da nave seis mil, encarregados de explorar Nova Descoberta, planeta árido que aos poucos revela objetos estranhos. Recolhidos e levados para salas especiais, esses artefatos alteram rapidamente a rotina da tripulação e fazem a convivência deslizar para uma espiral de degradação. A história chega ao leitor por meio de depoimentos compilados por uma comissão investigativa, como se o romance fosse o dossiê posterior a um desastre. O procedimento dá frieza burocrática a uma matéria cada vez mais íntima: memória, desejo, corpo, obediência, trabalho, saudade da Terra. A ficção científica se torna uma investigação sobre o que ainda chamamos de humano.

Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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