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A loucura diária de uns passa por banal para outros, e Woody Allen decifra como ninguém a arte de misturar assuntos os mais diversos em torno de pessoas que, querendo ou não, dividem a mesma cama, compondo assim um universo à parte de todo o mundo que as cerca, até que vêm os choques. Mágoas, arrebatamentos e frustrações deixam a zona cinzenta em que se escondem e dão azo a culpa, ignomínia e uma modalidade específica de tédio, mal-estar que só arrefece com uma mãozinha providencial de talentos metafísicos. “Simplesmente Alice” é mais uma das excelentes colaborações de Allen quanto a normalizar a insânia das relações e dissipar a nuvem de ressentimento que turva os nossos olhos e embarga os nossos passos. Num de seus trabalhos mais cautelosos, o diretor liga questões prosaicas, mas torturantes, ao sobrenatural, nunca dispensando o humor e aquele refinado cinismo, bem a seu modo.

Decadência com elegância 

Alice Tate é uma típica perua nova-iorquina. Casada com Doug, mãe de duas crianças, e com todo o tempo livre do mundo, ela vai notando que sua vida não tem muito sentido, por mais que, no começo, deleite-se no bálsamo da negação. Seus dias são ocupados por compras no Upper East Side, idas ao salão de beleza e aulas de ginástica, e quando uma dor nas costas resiste aos analgésicos e acaba ficando insuportável, ela resolve procurar um certo doutor Yang, acupunturista famoso em Chinatown. Em se tratando do universo alleniano, nada é bem o que parece, e esse desconforto anatômico tem uma motivação nada óbvia, o que leva a protagonista a um autoexame de consciência e a um caso extraconjugal com Joe, uma figura cujo magnetismo tem seu fundamento numa lembrança feliz que ela pretende resgatar, embora seja obrigada a fazer um belo sacrifício. O triângulo amoroso entre Mia Farrow, William Hurt (1950-2022) e Joe Mantegna justifica a natureza entre melodramática e filosófica do longa, mas é o texto irretocável, no qual cabem comentários excepcionalmente argutos acerca das paranoias que crescem por debaixo da pretensa normalidade de lares burgueses que afastam “Simplesmente Alice” do previsível. Woody Allen é sempre mágico de qualquer forma.


Filme: Simplesmente Alice
Diretor: Woody Allen
Ano: 1989
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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