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Casamentos deveriam ser uma rendição consentida, uma dessas cerimônias em que duas pessoas aceitam, diante de testemunhas entediadas e parentes indiscretos, que a vida adulta chegou para cobrar alguma compostura. Para Enola Holmes, claro, tal hipótese sempre pareceu um desaforo. Desde o primeiro filme, a irmã caçula de Sherlock vem sendo preparada para uma existência em movimento, com saias que atrapalham fugas, homens que subestimam sua inteligência e uma mãe que fez da liberdade uma espécie de religião doméstica. “Enola Holmes 3” encontra sua protagonista justamente no instante em que ela parece mais próxima de uma normalidade respeitável, rumo ao casamento com Lord Tewkesbury em Malta, e a sabedoria do roteiro de Jack Thorne está em perceber que não haveria crime mais ofensivo contra essa moça do que obrigá-la a escolher entre a felicidade conjugal e a velha comichão da aventura.

Millie Bobby Brown sustenta a franquia

Philip Barantini assume a direção imprimindo ao terceiro capítulo uma textura um pouco menos saltitante, mais escura, talvez mais adulta, ainda que a franquia continue dependente da esperteza luminosa de Millie Bobby Brown, atriz que aprendeu a manejar Enola como quem conhece cada dobra do vestido e cada pedra solta do caminho. A abertura dentro da carruagem, com perseguição, susto e a aparição de John Watson, vivido por Himesh Patel com uma discrição quase tímida, desloca o filme do romance de época para o policial de urgência. Sherlock Holmes foi sequestrado, e a irmã que estava prestes a casar precisa suspender flores, véu, promessa de vida comum e todo o aparato burguês que parecia domesticá-la para provar, mais uma vez, que inteligência não se herda por primogenitura.

Esse é o melhor conflito do longa, e também seu limite. Enola quer salvar Sherlock, agradar Eudoria, merecer Tewkesbury e ainda preservar aquela independência que a tornou interessante antes que a Netflix percebesse que havia ali uma franquia. A personagem corre por ruelas, decifra pistas, encara homens muito convencidos de sua superioridade e volta a conversar com o espectador como se estivesse abrindo uma janela no meio da ação, recurso que já foi uma graça e aqui, em alguns momentos, soa como tique de fabricação. Millie Bobby Brown sustenta a travessia porque evita transformar Enola numa boneca de empoderamento automático. Ela hesita, irrita-se, quer vencer sem admitir que está assustada, e quando o caso envolve Sherlock, deixa escapar uma ternura que o filme poderia explorar com mais coragem.

Henry Cavill, por sua vez, continua a ser um Sherlock curioso, menos cerebral que ornamental, um detetive célebre que parece sempre recém-saído de uma barbearia caríssima. Seu sequestro funciona melhor como ideia do que como presença dramática, uma vez que a ausência do personagem acaba rendendo mais ao enredo do que suas entradas em cena. Cavill tem porte, voz e uma melancolia elegante, porém Sherlock, neste universo, só ganha alguma espessura quando visto pelos olhos da irmã, como se Enola precisasse diminuir a estátua para descobrir o irmão dentro dela. Helena Bonham Carter volta como Eudoria com aquela energia de professora incendiária, alguém que educou a filha para desafiar o mundo e agora parece surpresa ao notar que desafio também inclui desobedecer à mãe.

A Malta de Barantini ajuda o filme a escapar do bolor londrino. Há sol, pedra, mar, corredores coloniais, uma atmosfera de cartão-postal atravessada por conspirações e ressentimentos políticos que a trama toca com mais vontade que profundidade. O caso é intricado o suficiente para manter a engrenagem em funcionamento, com mensagens cifradas, armadilhas, identidades escondidas e a sensação de que todos sabem um pouco menos do que dizem. Ainda assim, falta ao mistério aquela perversidade limpa dos bons enigmas, quando a solução ilumina retrospectivamente cada cena. Em muitos trechos, “Enola Holmes 3” prefere empilhar pistas a transformá-las em fascínio, e o espectador segue adiante menos por assombro investigativo que por afeição aos personagens.

Entre o altar e a aventura

Louis Partridge tem uma função delicada como Tewkesbury, porque precisa ser o noivo possível de uma heroína que não nasceu para esperar marido à janela. O ator acerta quando não disputa protagonismo com Brown e dá ao rapaz uma doçura sem moleza, de quem entende que amar Enola implica ser deixado para trás de vez em quando, inclusive no dia do próprio casamento. Esse romance, que poderia virar enfeite, torna-se uma das partes mais honestas do filme justamente porque não tenta resolver a contradição. Enola deseja a aventura e deseja Tewkesbury, e o longa melhora quando aceita esse desconforto em vez de transformá-lo numa lição bem-comportada.

“Enola Holmes 3” diverte mais do que surpreende. Tem ritmo, charme, alguns bons achados de ação e uma protagonista que ainda carrega nos ombros a mistura rara de insolência juvenil e vocação profissional. Também começa a mostrar os sinais de cansaço das séries que descobriram tarde demais o perigo de repetir sua própria fórmula com cenários mais caros. Barantini dá algum peso à aventura, Thorne preserva a espirituosidade da heroína, e Brown continua sendo a razão de tudo existir. Quando Enola abandona o altar simbólico da normalidade e volta à caça, o filme respira. Quando tenta convencer que seu enigma é maior que ela, perde terreno. No fim, Sherlock pode até ser o sequestrado, mas quem ainda precisa ser resgatada é a própria franquia, presa entre a menina que queria fugir de casa e a mulher que agora precisa decidir para onde correr.


Filme: Enola Holmes 3
Diretor: Philip Barantini
Ano: 2026
Gênero: Aventura/História/Policial
Avaliação: 3.5/5 1 1
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