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Lançado em 2019, “Magnatas do Crime”, de Guy Ritchie, acompanha em Londres a tentativa de Mickey Pearson (Matthew McConaughey) de vender seu império de maconha antes que rivais, chantagistas e oportunistas transformem sua saída em uma guerra particular. A história mistura ação, crime e comédia em um ambiente de luxo gasto, mansões aristocráticas, jornais de reputação duvidosa e criminosos que falam de negócios com a educação de quem está escolhendo vinho para o jantar.

Mickey Pearson é um americano formado em Oxford que fez fortuna explorando uma ideia tão ousada quanto cínica. Ele plantou maconha nas propriedades de aristocratas britânicos empobrecidos, gente com sobrenome antigo, terras enormes e dinheiro insuficiente para manter tudo de pé. O acordo serve aos dois lados. Mickey ganha esconderijos discretos, longe dos olhos da polícia. Os nobres recebem renda sem precisar admitir muita coisa em voz alta.

O problema começa quando Mickey decide vender esse império. Ele quer sair rico, preservado e, de preferência, vivo. Para isso, procura Matthew Berger (Jeremy Strong), bilionário americano interessado em comprar a operação. A venda, porém, atrai gente demais para perto do cofre. Cada interessado quer uma fatia maior, uma vantagem secreta ou um motivo para derrubar o preço. Em pouco tempo, o plano de aposentadoria vira uma disputa por informações, endereços e influência.

Matthew McConaughey interpreta Mickey com uma calma perigosa. Ele não precisa gritar para ocupar a sala. O personagem sabe que sua autoridade depende menos da força bruta do que da reputação acumulada. Quando alguém tenta se aproximar demais do negócio, Mickey trata a ameaça com elegância calculada, embora a violência nunca esteja muito longe. Guy Ritchie usa essa frieza para sustentar a tensão sem abandonar o tom debochado.

Raymond tenta conter o estrago

Ao lado de Mickey está Raymond Smith (Charlie Hunnam), seu braço direito. Raymond é o sujeito que resolve problemas sem parecer interessado em aplausos. Ele escuta, observa, calcula o risco e tenta manter a operação longe do barulho. Sua missão ganha um peso especial quando Fletcher (Hugh Grant), um investigador particular cheio de vaidade, aparece com uma história comprometedora nas mãos.

Fletcher trabalha para Big Dave (Eddie Marsan), editor de um tabloide que deseja atingir Mickey por vingança e oportunidade. Em vez de apenas entregar informações, Fletcher transforma sua chantagem numa apresentação quase teatral. Ele narra os acontecimentos, interpreta intenções, sugere viradas e saboreia cada pausa. A graça vem do contraste entre o perigo real da situação e a pose artística de um homem que parece acreditar ter escrito uma obra-prima do crime.

Hugh Grant se diverte muito nesse papel. Fletcher é escorregadio, espalhafatoso e irritante na medida certa. Ele tenta vender silêncio, mas também quer reconhecimento. Raymond, por sua vez, precisa descobrir quanto daquilo é ameaça concreta e quanto é vaidade temperada com fofoca. A conversa entre os dois dá ao filme parte de seu ritmo, porque cada informação pode custar dinheiro, revelar um esconderijo ou colocar Mickey em desvantagem.

Rosalind não fica à margem

Rosalind Pearson (Michelle Dockery), esposa de Mickey, não aparece apenas para decorar a vida doméstica do protagonista. Ela administra sua própria garagem, conhece o ambiente em que o marido circula e sabe que poder sem proteção vira convite para ataque. A relação dos dois tem afeto, mas também parceria. Rosalind compreende o preço de estar perto de um homem que construiu fortuna em território ilegal.

Michelle Dockery dá à personagem uma firmeza elegante, sem transformar Rosalind em caricatura de mulher durona. Ela sabe quando falar, quando observar e quando agir. Sua presença também impede que Mickey pareça invulnerável. Ao redor dele há dinheiro, capangas e propriedades secretas, mas a vida privada continua sendo uma fresta perigosa. Quando rivais se aproximam desse espaço, a ameaça deixa o campo dos negócios e passa a tocar algo bem mais pessoal.

Essa dimensão doméstica dá mais peso ao jogo criminoso. Mickey não está apenas vendendo uma empresa clandestina. Ele tenta preservar o que construiu antes que a cobiça alheia alcance sua casa, sua esposa e sua imagem. O roteiro mantém esse perigo em movimento, sem transformar a história em drama pesado. A violência ronda a porta, mas Ritchie prefere deixá-la entrar acompanhada de ironia e maus modos britânicos.

Rivais avançam pelo atalho

Entre os interessados no império de Mickey está Dry Eye (Henry Golding), ligado a uma organização criminosa asiática. Ele surge com ambição e pressa, disposto a atravessar regras que Mickey considera essenciais para manter a ordem. Dry Eye representa uma ameaça diferente da chantagem de Fletcher. Ele não quer apenas vender uma história ou ganhar dinheiro com segredo. Ele deseja ocupar espaço.

A situação se complica ainda mais quando um grupo de jovens lutadores invade uma das instalações ligadas ao negócio de Mickey. Eles são treinados pelo Coach (Colin Farrell), um homem que tenta manter seus alunos longe de encrenca maior do que conseguem enfrentar. A invasão vira vídeo, o vídeo circula e a façanha juvenil passa a ter custo real. O que parecia exibicionismo de rapazes cheios de energia vira problema para criminosos adultos, e Coach precisa reparar o estrago antes que alguém cobre a conta de modo menos educado.

Colin Farrell traz ao filme uma comicidade seca, quase resignada. Coach sabe que seus alunos fizeram besteira, mas também sabe que abandoná-los seria pior. Ele entra na trama tentando compensar o prejuízo e acaba preso ao mesmo circuito de favores, ameaças e dívidas que move os demais personagens. Em “Magnatas do Crime”, ninguém se aproxima do império de Mickey sem levar alguma sujeira no sapato.

Guy Ritchie volta ao crime falante

Guy Ritchie retorna ao tipo de universo que marcou sua carreira em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch”. Há criminosos eloquentes, cortes ágeis, relatos cruzados, humor de canto de boca e uma Londres onde luxo e sarjeta convivem a poucos metros. Ainda assim, “Magnatas do Crime” tem uma energia mais madura. O filme se interessa menos pela correria juvenil e mais pela administração do poder.

A direção trabalha com a informação em parcelas. Fletcher conta uma versão, Raymond filtra o que ouve, Mickey age quando precisa e o espectador acompanha a disputa sem receber tudo de uma vez. Essa escolha mantém a atenção nas conversas, nos gestos e nas pequenas vantagens que cada personagem tenta obter. Ritchie sabe que, naquele mundo, uma pasta, um endereço ou uma gravação podem valer mais que uma arma sobre a mesa.

A crítica social aparece sem palestra. A aristocracia britânica, com seus casarões e brasões, depende do dinheiro clandestino para manter fachadas respeitáveis. Os criminosos americanos falam de mercado, expansão e venda com vocabulário empresarial. A imprensa sensacionalista aparece faminta por escândalo, mas pouco preocupada com virtude. O filme ri desse conjunto sem pedir licença, e a piada quase sempre vem acompanhada de ameaça.

“Magnatas do Crime” pode soar cheio demais em alguns trechos, especialmente quando acumula personagens, interesses e relatos dentro de relatos. Ainda assim, o excesso faz parte do temperamento de Guy Ritchie. O diretor gosta de gente que fala muito, blefa muito e só percebe tarde demais que outra pessoa já moveu a peça decisiva. Quando o roteiro equilibra esperteza e brutalidade, a trama ganha um sabor raro de comédia criminal bem temperada.

O filme é espirituoso, violento e elegante de maneira torta. Mickey Pearson tenta vender seu império para comprar paz, mas descobre que o próprio anúncio da saída abre a porta para todos os cobradores. Matthew McConaughey, Charlie Hunnam, Michelle Dockery, Hugh Grant e Colin Farrell sustentam esse desfile de oportunistas com prazer evidente. Em “Magnatas do Crime”, sair do crime exige quase tanto talento quanto entrar nele.


Filme: Magnatas do Crime
Diretor: Guy Ritchie
Ano: 2019
Gênero: Ação/Comédia/Crime
Avaliação: 4/5 1 1
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