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A peça “Fim de Partida”, protagonizada pelo ator Marco Nanini, está em viagem pelo Brasil. Encenar um dos textos mais importantes do teatro já bastaria para chamar a atenção do público — sempre tão carente de boas obras no interior do país. O que é digno de menção, na verdade, é a ousadia de levar um trabalho do escritor irlandês Samuel Beckett para um público grande. Público este submetido a altas doses de televisão há décadas e, na atualidade, afogado pelos shorts e reels das redes sociais.

A peça de Beckett é a antítese de tudo que existe nos meios digitais de hoje. Ela é uma aparente negação de realidade e das rotinas cotidianas. O cenário tem um vazio de referências (móveis de uma casa, paisagem, natureza). Desaparece a tentativa de encenar e criar situações reais. E, por isso mesmo, sendo antirrealista, ela talvez revele com mais precisão as formas da vida moderna. Parece um contrassenso, mas pode ser o caminho mais efetivo para capturar os movimentos do mundo na atualidade.

O espanto provocado por “Fim de Partida” e também “Esperando Godot” (a peça mais conhecida de Beckett) começou ainda nos anos 1950, com as primeiras encenações do autor. As primeiras interpretações sobre a obra do autor o associaram ao teatro do absurdo e até ao existencialismo por conta dos diálogos dos personagens. O cenário abstrato desloca a atenção do espectador a todo momento. Quem deu esse caminho de leitura, muito influente ainda, foi Martin Esslin num estudo de 1961.

“A situação [em ‘Fim de Partida’] adquiriu a profundidade de uma significação realmente universal; foi concentrada e imensamente enriquecida precisamente por haver sido libertada de todos os elementos de circunstância social naturalista, bem como de enredo exterior”, escreveu Esslin, no livro “O Teatro do Absurdo”. Na frase, estão lá expressões recorrentes do embate crítico: universal, naturalista, exterior. A consequência dessa leitura é trazer para a discussão os temas da alma humana e da essência.

O essencialismo é uma visão que contamina também a leitura da obra de Franz Kafka. Leitores e leitoras altamente qualificados não conseguem ver que a realidade ou o real está nas formas estéticas usadas por esses autores ditos abstratos. Formas que organizam as obras que, isso sim, são capazes de dar algum sentido a um mundo desmoronado (o dos extremos do século 20, com suas duas guerras mundiais).

Pastelão macabro

A versão brasileira e mais recente de “Fim de Partida” tem um capricho visual único. Há um contraste com a aspereza trazida por Hamm (feito por Marco Nanini), cego e preso numa cadeira de rodas. O personagem permanece imóvel do pescoço para baixo. A voz, no entanto, segue em movimento alucinante. Quem cuida dele é Clov (interpretado por Guilherme Weber), adotado ainda criança por Hamm. Senhor e servo numa singela relação cotidiana, fechados no que parece ser um quarto com duas janelas.

Os dois outros personagens da peça são Nagg e Nell, que vivem em latões de lixo. Trata-se dos pais de Hamm, que trazem um traço cômico (e muito triste) para a cena. Os diálogos fazem alusões supostamente positivas (Hamm diz “estamos avançando” em vários trechos) e inúmeras negativas. A negatividade começa na aparência, sobretudo nas vestimentas deles, e se espalha pelos corpos. Parecem sobreviventes de algum desastre, com suas mutilações, ou até do Holocausto da Segunda Guerra Mundial.

Roberto Schwarz escreveu um texto que tem rodado o mundo sobre “Fim de Partida”, de Beckett. O olhar de quem é também dramaturgo, além de crítico literário. Ele retoma o ensaio de Theodor Adorno, que mudou a rota interpretativa iniciada por Esslin. O ponto de vista se desloca para as formas dessa peça única. Para Schwarz, estamos diante de uma “comédia-pastelão em veia de humor negro e absurdo”. A linguagem é “rudimentar e quase nada, ainda que refinadíssima à sua maneira”.

Apesar do desnorteamento, há um sentido a ser descoberto pelo espectador da peça de Beckett. Esse sentido é buscado por Schwarz no diálogo com Adorno, para quem a arte contemporânea havia perdido a capacidade de captar a realidade após os campos de concentração. Não havia descrição realista ou naturalista capaz de dar conta do que ocorreu em Auschwitz e seus extermínios. Por isso, conclui-se que o irrealismo é um alento para a narrativa de ficção nos últimos 80 anos.

Schwarz afirma: “A precariedade [em ‘Fim de Partida’] é tomada ao pé da letra, como o saldo da civilização burguesa ou seu ponto de chegada. Em lugar de suma da condição humana, que abre perspectivas sobre a sua plenitude, temos o precário como um fim de linha, ou melhor, como o fim da linha em curso há muito tempo, o fim ao qual as antigas promessas de plenitude levaram — o que naturalmente faz rever aquelas promessas com outros olhos. Trata-se do buraco no qual descemos, o resultado efetivo de nossa história”.

Traumas modernos

Se fosse escrever nos anos 2020 um novo “Fim de Partida”, Beckett possivelmente mostraria esse “buraco” a partir da pandemia, das catástrofes climáticas ou das migrações que rondam e assombram sobretudo a Europa. O fim de partida é uma situação-limite em que, num lugar específico do planeta, chega-se a um ponto final das possibilidades de avanço. Por mais que Hamm repita diversas vezes na peça “estamos avançando”, esse avanço já não existe e saiu do horizonte das pessoas.

Fim de partida
Marco Nanini e Guilherme Weber em cena de Fim de Partida, de Samuel Beckett, com direção de Rodrigo Portella

Não é por acaso que Beckett reaparece em narrativas contemporâneas, muitas delas em remissões diretas à sua obra. Há um momento Beckett. No filme japonês “Drive My Car” (2021), o personagem vai a Hiroshima para uma encenação de “Esperando Godot”. É significativo que isso aconteça na cidade da bomba atômica, símbolo da destruição da Segunda Guerra Mundial. O protagonista, um diretor de teatro mergulhado numa crise criativa, encontra justamente em um autor irlandês um caminho para pensar aquele mundo.

O mesmo “Esperando Godot” surge ainda no filme iraniano “Foi apenas um acidente” (2025). Ali também há uma situação-limite, até cômica, mas profundamente fundada na história do Irã. Em determinado momento, os personagens estão no meio do deserto para decidir o que fazer com um homem sequestrado por eles: matá-lo, enterrá-lo ou interrogá-lo. Incapazes de decidir, um deles comenta que parecem aqueles personagens de Beckett debaixo de uma árvore, esperando alguma coisa acontecer.

Uma das características dos personagens beckettianos é a incapacidade de tomar uma decisão. Clov quer ir embora e deixar de vez Hamm, porém permanece no mesmo lugar. Seria ele a alegoria do que se vive hoje, quando não devemos nem esperar muito do fim do mundo, como diz o filme romeno de Radu Jude? A vida está tão desfigurada que já não se consegue decidir muita coisa. Não podemos ter certeza de que uma escolha conduza a uma melhora da vida.

A nova encenação de “Fim de Partida” é provocativa, em várias partes do mundo, como podemos notar. Há dúvidas se é o mesmo fim de partida pensado por Beckett, mas ele nos obriga a pensar. Uma situação que muitas vezes parece irreal, um pastelão, mas ao mesmo tempo profundamente verdadeira por causar um incômodo. Ao olhar aqueles personagens no palco, é impossível não imaginar a desumanização que carrega, por exemplo, a experiência contemporânea das migrações forçadas.

Enio Vieira

Jornalista, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB) e consultor na área de comunicação.

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