Os bancos andam jogando todos os serviços para os apps nos celulares. A ideia é acabar com as agências físicas. Todo dia uma agência de banco é fechada e em seu lugar surge uma farmácia ou uma pet shop. As poucas agências físicas que ainda funcionam têm tão poucos funcionários que, quando a gente entra, dá até medo de ser assaltado.
Pois outro dia eu fui obrigado a procurar uma dessas tais agências físicas para resolver um problema numa conta corrente. Entrei na agência e dei de cara com um totem onde eu deveria clicar para conseguir uma senha de atendimento. Mas não consegui tirar a senha, o totem não estava funcionando direito.
Eu olhei em volta à procura de algum funcionário do banco para me ajudar, mas não vi nenhum. Saí andando à procura de alguém que trabalhasse naquela agência e parecia que eu estava brincando de esconde-esconde. Não encontrava ninguém, olhei até debaixo das mesas e nada de alguém que trabalhasse ali.
Demorei um tempão para achar um funcionário e acabei encontrando um sujeito de crachá do banco escondido atrás de um balcão. O cara ficou com uma cara de assustado, como quem diz: “Droga! Me pegou!”. Viu-se obrigado a me explicar como funcionava o tal totem e eu finalmente peguei a minha senha.
Enquanto eu esperava para ser atendido, outras pessoas chegaram à agência e não conseguiram tirar a senha no totem com defeito. Como o funcionário do banco foi se esconder de novo, eu tive que explicar às pessoas como é que se tirava a senha, ou seja, trabalhei para o banco de graça! Até pensei em cobrar pelo meu trabalho, mas não tive saco para brincar de novo de esconde-esconde com o funcionário do banco.
Duas horas depois eu acabei sendo atendido, mas é claro que o meu problema não foi resolvido.
— O senhor tem que resolver isso pelo aplicativo — disse o atendente.
— Mas eu não tenho a senha.
— É só tirar uma nova senha.
— Eu não estou conseguindo tirar a senha pelo aplicativo. Quando tento, surge uma mensagem dizendo para eu procurar uma agência.
— Tem que ser na agência da sua conta, que não é essa em que estamos.
— Mas a agência da minha conta fechou!
— Então, só pelo aplicativo.
— Mas eu não tenho a senha!
Depois que conseguirem acabar com as agências, os bancos pretendem acabar também com os funcionários e fazer tudo por IA. Acho que foi por isso que o funcionário ficou brincando de esconde-esconde na agência a que fui: ele não queria ser achado com medo de ser o próximo a ser mandado embora, substituído pela IA.
Mas, nessa ânsia por passar todos os serviços para os aplicativos, parece que o pessoal dos bancos ainda não entendeu que estamos no Brasil e que o objeto mais roubado atualmente são justamente os celulares, o tal aparelho onde eles te obrigam a manter um aplicativo que dá acesso a tudo que você tem no banco.
Assim, todo mundo é obrigado a ter dois celulares: o do banco, que fica em casa, e o do ladrão, sem o aplicativo do banco, para andar na rua. O problema é que tudo que se precisa pagar com PIX tem que ser feito pelo aplicativo e aí é preciso manter um aplicativo do banco justamente no celular do ladrão. É uma situação complicada! Talvez isso só seja resolvido quando os bandidos também resolverem acabar com os seus agentes físicos e passarem toda a sua operação para a IA.

