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De acordo com o próprio Stanley Kubrick (1928-1999), ele concebeu seu filme “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968) como uma sinfonia visual. E essa bela e, ao mesmo tempo, complexa sinfonia entrega os seus significados aos poucos, a cada nova “audição”. Propositalmente, o diretor não facilita nossa compreensão: pouquíssimos diálogos e muitas imagens espetaculares acompanhadas por peças orquestrais escolhidas pelo perfeccionista Kubrick. Alguém disse certa vez: “Se você disser que compreendeu o filme na primeira vez que o assistiu, então você não entendeu foi nada”.

A música permeia todo o filme em um diálogo sem palavras com as imagens e as ideias. Uma peça em particular virou a identidade sonora do filme: o poema sinfônico “Assim falou Zaratustra”, do compositor alemão Richard Strauss (1864-1949). Desde a estreia do filme, houve uma associação definitiva entre a música de Strauss e a alta tecnologia em propagandas de TV e outras peças publicitárias, afinal, nada é mais tecnológico que viagens interplanetárias.

Essa associação eu fiz desde as primeiras vezes em que a ouvi, e acho um casamento perfeito entre a música e a tecnologia espacial. O ar de mistério conferido pelo órgão e a explosão percussiva da música nos conduzem a viagens cósmicas sem sair do lugar.

O filme é baseado em contos do escritor Arthur Clarke (1917-2008), em especial, “A sentinela” (1951) e “Encontro na aurora” (1953). A colaboração entre Kubrick e Clarke começou por volta de 1964, e os dois escreveram juntos o roteiro de “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Paralelamente, Clarke escreveu um romance com o mesmo título, lançado em 1968, logo após a estreia da película nos cinemas. O livro é um excelente complemento do filme e detalha alguns pontos da história que ficaram apenas sugeridos na obra de Kubrick.

A estreia de “2001: Uma Odisseia no Espaço” causou forte impacto na cultura popular, pelo uso revolucionário de técnicas cinematográficas inovadoras e de alta qualidade, muitos anos antes da utilização da computação gráfica que hoje abunda nos filmes. A estética criada para o filme destoa completamente da que era utilizada nos filmes de ficção científica até então, com seus cenários exagerados e alienígenas grotescos e malvados. Em “2001: Uma Odisseia no Espaço”, temos uma predominância de cores brancas e cenários enxutos. Existem extraterrestres no filme, mas estes não são mostrados, e suas intenções não são destruir a vida na Terra. Essa estética limpa e baseada na ciência influenciou todo o cinema de viagens espaciais dali para frente.

Além de seu impacto cultural, o filme antecipou algumas tecnologias que hoje fazem parte do nosso cotidiano, como IA, chamadas de vídeo, tablets e monitores de tela plana. Outras ainda não foram desenvolvidas, como a passagem pelo “buraco de minhoca” do espaço-tempo, teorizada por Albert Einstein.

Porém, o efeito mais surpreendente do filme é como a música foi um elemento primordial para o desenvolvimento da história contada. A originalidade na trilha sonora era seu contexto e a maneira como as peças foram usadas, tanto em conexão com a ação na tela quanto em relação umas às outras. O que é ainda mais admirável é que as obras usadas já existiam e não foram escritas para o filme.

As primeiras notas musicais ouvidas em “2001: Uma Odisseia no Espaço” são de “Atmosferas”, uma obra de 1961 do compositor húngaro György Ligeti (1923-2006). Um trecho dessa música é tocado durante uma enervante tela escura, com duração de mais de 2 minutos, como abertura e prólogo. “Atmosferas” representou um desafio tanto para o espectador quanto para os ouvintes nas salas de concertos. O próprio Ligeti descreveu a obra como “o renascimento do aspecto sonoro da forma musical… neste tipo de música não há ‘eventos’, mas apenas ‘estados’, nem contornos ou formas, mas sim um espaço musical imaginário e inabitado. A cor do timbre, geralmente um veículo da forma musical, é libertada da forma para se tornar uma entidade musical independente”.

“Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss, é ouvida nos créditos de abertura de “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Strauss escreveu seu poema sinfônico, concluído em 1896, com base no livro “Assim Falou Zaratustra”, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), e estruturou a peça sinfônica de acordo com os capítulos do livro. Na obra de Nietzsche é contada a história do sábio persa Zaratustra, também conhecido pelo nome grego Zoroastro, que sai de seu isolamento para instigar os homens na busca de uma nova moral, já que, segundo o livro, a moral cristã não lhes serve mais e precisa ser superada. Esta superação envolve o próprio homem, que deve se tornar um super-homem ou algo além-do-humano, Übermensch no original alemão. Tudo a ver com a história na tela.

A música de Strauss, especificamente a introdução chamada “O nascer do sol”, do poema sinfônico citado, aparece na primeira parte do filme, no momento de transformação evolutiva dos ancestrais do Homo sapiens, e ao final, quando um novo homem está prestes a desembarcar na Terra: a transmutação do astronauta Dave Bowman (Keir Dullea) na Criança Estelar.

O filme foi lançado antes do primeiro pouso e das primeiras caminhadas do homem na Lua. A Apollo 8 estava orbitando a Lua em dezembro de 1968, após o lançamento do filme, e Kubrick ficou apreensivo de que a realidade contradissesse o que era mostrado nas telas de cinema: a superfície lunar, bases habitadas e exploração espacial avançada.

O “Réquiem”, de Ligeti (1965), cujo trecho é usado durante as aparições do misterioso monólito alienígena no filme, é a obra mais perturbadora usada na trilha sonora. Expandindo sua experimentação para a voz humana, Ligeti formou um contraste surpreendente entre o tradicional e o vanguardista, com uma obra antiga em sua designação e desafiadoramente modernista e atonal em sua forma. Em retrospectiva, parece se adequar ao monólito e ao seu “caráter” inerente: antigo para os padrões humanos, mas tão avançado em propósito que é incognoscível ao homem em sua forma atual.

Na seção inicial do filme, chamada “Aurora do Homem”, o grande monólito negro aparece na Terra e ajuda um grupo de hominídeos a se destacar de seus rivais com a utilização de armas rudimentares para caçar animais e lutar contra outros grupos. No livro “2001: Uma Odisseia no Espaço”, Arthur Clarke esclarece que uma série de monólitos foi espalhada pelo universo por uma civilização extraterrestre muito avançada. Há uma sequência antológica que resume toda a cadeia evolutiva do gênero Homo, ao fazer a transição entre um osso, usado como arma por um antepassado nosso das savanas africanas, e uma nave espacial, na verdade, uma outra arma que orbita a Terra. Um corte de cerca de 4 milhões de anos.

Estamos agora, no filme, ao final do século 20. A execução da valsa “O Danúbio azul”, do austríaco Johann Strauss Jr. (1825-1899), em harmonia com o balé cósmico de naves espaciais e de uma estação espacial internacional, é puro deleite aos sentidos. A graciosa beleza da mecânica orbital é um raro momento descompromissado em oposição ao resto do filme, sempre tão profundo e reflexivo. Ajudou também a humanizar o filme e, juntamente com momentos visuais humorísticos, como o encontro do Dr. Heywood Floyd (William Sylvester) com o vaso sanitário de gravidade zero e seus inúmeros parágrafos de instruções, proporcionou um raro momento em que Kubrick se soltou diante do público.

“Lux aeterna” (1966), de Ligeti, usada durante o voo do Dr. Heywood Floyd sobre a superfície lunar, é uma obra mais sutil, composta por texturas mutáveis em seu coro a cappella de 16 vozes, percorrendo todo o espectro harmônico.

A segunda aparição do monólito é quando ele é desenterrado na Lua. O Dr. Floyd e sua equipe estão analisando o artefato; então, este é tocado pela luz do Sol e emite um sinal eletromagnético ensurdecedor para seu irmão em Júpiter, com o recado implícito de que a raça humana se desenvolveu o bastante para se lançar ao espaço.

Após outro salto de tempo, agora de 18 meses, estamos dentro da nave Discovery, acompanhando a rotina da tripulação humana e a poderosa inteligência artificial Hal 9000. Esse segmento é chamado “Missão Júpiter”, ao som do suave e sombrio “Adagio”, do balé “Gayane” (1942), de Aram Khachaturian (1903-1978), filho de família armênia e nascido em Tbilisi, na Geórgia. Ele foi um dos compositores soviéticos mais homenageados do século 20, ao lado de seus compatriotas Prokofiev e Shostakovich. A aparição de “Gayane” em “2001: Uma Odisseia no Espaço” coincidiu com a primeira visita de Khachaturian aos Estados Unidos como maestro, em 1968.

Num surto “psicótico”, o computador Hal 9000 provoca a morte de um dos tripulantes despertos e dos outros três que estavam em hibernação. O único sobrevivente é Dave Bowman, que consegue escapar de uma morte certa do lado de fora da nave e, ao reentrar, desliga Hal e prossegue na missão sozinho.

A terceira aparição do monólito negro é na órbita do planeta Júpiter, no segmento final do filme chamado “Júpiter e Além do Infinito”. Agora, a função do monólito é servir de portal estelar para a odisseia do astronauta Bowman, aqui num paralelo à viagem de Ulisses na “Odisseia”, de Homero, no espaço-tempo de milhões de anos-luz até a origem dos misteriosos monólitos. A viagem de Bowman pelo portal é apresentada com efeitos de luzes e cores frenéticas e tem como trilha sonora uma justaposição de duas das peças de Ligeti apresentadas anteriormente: o “Réquiem” e “Atmosferas”.

Ao chegar ao lar dos extraterrestres, Bowman é colocado em um anacrônico quarto de estilo barroco, aparentemente para cercá-lo de objetos familiares. Esse quarto é supostamente semelhante a um zoológico, no qual ele será estudado pelos alienígenas, e só temos consciência de que eles estão por perto pelos ruídos e sons parecidos com vozes ouvidos em segundo plano.

Antes da próxima etapa da evolução humana, o monólito aparece para um Bowman bastante idoso e acamado. O fim da jornada de Bowman leva à sua transformação na Criança Estelar, ao som triunfante de “Assim falou Zaratustra”, de Richard Strauss, um crescendo emocional e intelectual para o filme de quase três horas de duração, que se encerra com o superbebê, em uma cápsula em forma de placenta, chegando à Terra.



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