Em “O Reino de Deus”, drama romântico lançado em 2017 e dirigido por Francis Lee, Johnny Saxby, vivido por Josh O’Connor, é um jovem criador de ovelhas em Yorkshire que passa os dias entre o trabalho pesado na fazenda da família e noites de álcool, sexo casual e pouca conversa. Ele mora com a avó, Deirdre, interpretada por Gemma Jones, e com o pai, Martin, vivido por Ian Hart, que perdeu parte da autonomia após um derrame. A rotina já seria dura em qualquer casa. Ali, com animais para cuidar, contas para fechar e pouco afeto circulando entre as paredes, cada manhã parece cobrar de Johnny uma maturidade que ele ainda não sabe oferecer.
A história começa nesse ambiente de exaustão. Johnny levanta, cuida dos animais, obedece às cobranças de Deirdre e Martin e tenta escapar de si mesmo quando o expediente termina. A bebida ocupa o lugar da conversa. O sexo casual ocupa o lugar da intimidade. O rapaz não parece viver exatamente uma rebeldia charmosa, dessas que o cinema às vezes enfeita para vender sofrimento com boa iluminação. Ele está apenas afundado numa rotina estreita, com poucas escolhas e menos paciência ainda para admitir que precisa de ajuda.
A chegada de Gheorghe
A fazenda precisa de reforço durante a temporada de parto das ovelhas. É nesse ponto que chega Gheorghe Ionescu, trabalhador romeno interpretado por Alec Secăreanu. Ele é contratado para ajudar nos dias mais puxados, quando o nascimento dos cordeiros exige atenção constante, braços firmes e disposição para passar frio no campo. Johnny recebe o novo funcionário com grosseria, preconceito e um ar de superioridade que soa menos como poder e mais como defesa. Ele sabe trabalhar, mas não sabe dividir o peso do trabalho.
Gheorghe percebe a fazenda com outra calma. Ele observa os animais, respeita o tempo das tarefas e não responde à agressividade de Johnny com submissão. Isso cria um choque importante. O visitante não entra na história para salvar o protagonista com uma frase bonita, nem para transformar o campo num cenário romântico de calendário. Ele chega para trabalhar. Ao fazer isso com competência, tira de Johnny a desculpa de ser o único capaz de sustentar aquele lugar.
Quando os dois passam mais tempo afastados da casa principal, acompanhando os animais em áreas abertas da propriedade, a relação começa a mudar de temperatura. O isolamento do campo não suaviza nada. Há lama, frio, cansaço e animais exigindo cuidado. A aproximação entre Johnny e Gheorghe nasce nesse espaço físico exigente, onde a ternura precisa competir com o mau humor, a vergonha e o instinto de fuga. O romance cresce porque os dois permanecem ali, trabalhando lado a lado, até que o silêncio já não consiga esconder tudo.
O amor sem vitrine
Francis Lee filma essa aproximação com uma sobriedade rara. “O Reino de Deus” não trata o amor como prêmio, nem transforma Johnny num sujeito adorável da noite para o dia. Ele continua áspero, impaciente e muitas vezes ingrato. A diferença é que Gheorghe não aceita ser tratado como objeto de alívio. Ele impõe presença, exige respeito e responde com firmeza quando Johnny tenta repetir os mesmos hábitos de sempre. Há afeto, mas ele vem acompanhado de trabalho emocional, e ninguém ali parece ter manual de instruções.
Josh O’Connor constrói Johnny com um corpo sempre em estado de defesa. O personagem fala pouco, olha de lado, explode em gestos pequenos e usa a rispidez para manter distância. Alec Secăreanu faz o caminho oposto com Gheorghe. Seu personagem tem menos necessidade de provar força, talvez porque a força já esteja no modo como ele age. Entre os dois, o filme cria uma tensão sem grandes discursos. Um aprende que cuidado também exige responsabilidade. O outro decide até onde pode se aproximar sem abrir mão da própria dignidade.
A boa surpresa é que “O Reino de Deus” não romantiza a grosseria. Johnny magoa, erra e perde oportunidades. O roteiro permite que ele seja desagradável sem pedir ao público que ache isso sedutor. Esse é um ponto importante, porque o filme poderia cair facilmente na fantasia do homem bruto curado pelo amor de alguém mais paciente. Francis Lee prefere um caminho mais maduro. Gheorghe não funciona como remédio. Ele é uma pessoa, com trabalho, desejo, orgulho e cansaço.
A casa também pesa
A família de Johnny mantém o drama com os pés no chão. Deirdre, vivida por Gemma Jones, administra a casa com uma dureza compreensível. Ela não tem tempo para sentimentalismo, porque a fazenda depende de rotina, dinheiro e resistência física. Martin, interpretado por Ian Hart, ocupa uma presença amarga e vulnerável. Mesmo fragilizado, ainda interfere no modo como o filho encara o trabalho e a própria vida. O passado familiar está ali, não como explicação grandiosa, mas como peso diário na cozinha, no curral e nos horários que ninguém pode ignorar.
Essa casa apertada ajuda a diferenciar “O Reino de Deus” de outros romances sobre descoberta afetiva. Johnny não está apenas aprendendo a amar alguém. Ele precisa descobrir se consegue permanecer num lugar que sempre associou a obrigação, frustração e perda. O romance com Gheorghe abre uma porta, mas não apaga a fazenda, a doença do pai, a disciplina da avó nem a necessidade de cuidar dos animais na manhã seguinte. O amor entra na rotina, e a rotina cobra recibo.
O filme também tem uma inteligência discreta ao tratar o campo britânico. Yorkshire não aparece como cartão-postal. A paisagem é bonita, mas não está ali para enfeitar sofrimento. O vento corta, o barro gruda, o frio incomoda, e os animais exigem uma atenção que não combina com poses dramáticas. Essa materialidade dá força à história. Quando Johnny falha, alguém trabalha mais. Quando ele bebe demais, alguém paga parte da conta. Quando ele aceita cuidado, o gesto tem efeito sobre o dia seguinte.
Um romance de permanência
“O Reino de Deus” ganha força porque fala de mudança sem pressa artificial. Johnny não vira outra pessoa por milagre. Ele aprende aos poucos que o desejo pode pedir presença, escuta e responsabilidade. Gheorghe, por sua vez, não se contenta com migalhas emocionais. A relação entre os dois só avança quando ambos deixam de tratar o afeto como intervalo entre tarefas e passam a encará-lo como parte da vida que estão construindo, ainda que o terreno continue difícil.
Francis Lee entrega uma crítica delicada à masculinidade fechada em si mesma, mas faz isso por meio de ações, não de discursos. Johnny precisa cuidar de cordeiros, enfrentar o pai, lidar com a avó, trabalhar ao lado de Gheorghe e responder pelos próprios erros. A soma desses gestos torna o filme mais humano do que uma simples história de paixão no campo. Há romance, sim, e há beleza nesse encontro, mas a emoção vem do esforço de permanecer quando fugir pareceria mais cômodo.
“O Reino de Deus” é um drama íntimo, firme e comovente sobre dois homens que se aproximam num lugar onde quase tudo parece feito para calar sentimentos. Josh O’Connor, Alec Secăreanu, Gemma Jones e Ian Hart sustentam uma história de poucos personagens, muita terra sob as botas e quase nenhum espaço para mentira confortável. Quando Johnny olha para a fazenda depois de conhecer Gheorghe, ele ainda vê trabalho, família e cobrança. A diferença é que, pela primeira vez em muito tempo, também enxerga uma chance de ficar.

