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Em “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes”, drama com toques de comédia dirigido por Olivia Newman e previsto para 2026, uma viúva que trabalha à noite em um aquário de uma cidade costeira vê sua rotina ser atravessada por um jovem perdido, um comerciante generoso e um polvo com uma capacidade rara de prestar atenção ao que os humanos preferem esconder. A história acompanha Tova Sullivan, interpretada por Sally Field, uma mulher marcada pelo desaparecimento do filho e pela morte do marido, que mantém a vida em ordem porque a desordem, para ela, já cobrou caro demais.

Tova limpa os corredores, os tanques e os espaços vazios do aquário depois que os visitantes vão embora. O trabalho noturno não é apenas emprego. É uma forma de ocupar as horas, escapar das perguntas e manter distância de uma dor antiga, dessas que ninguém resolve com chá, conselho ou frase bonita em ímã de geladeira. Sally Field dá à personagem uma rigidez delicada. Tova parece sempre pronta para cumprir uma tarefa, mas nem tanto para receber cuidado. Ela sabe entrar, limpar, fechar a porta e ir embora. O problema é que algumas presenças começam a quebrar essa coreografia silenciosa.

Uma viúva diante do aquário

O primeiro vínculo inesperado de Tova nasce com Marcellus, o polvo gigante do Pacífico que vive no aquário e tem voz de Alfred Molina. Ele observa tudo com uma mistura de inteligência, impaciência e ironia. Marcellus não é apenas uma criatura exótica colocada ali para arrancar simpatia do público. Ele funciona como alguém que percebe detalhes perdidos nos cantos da rotina, inclusive aquilo que Tova tenta manter fora de alcance. A relação entre os dois dá ao filme uma graça discreta, porque o animal parece julgar os humanos com certa superioridade. E, convenhamos, diante de algumas escolhas humanas, talvez ele tenha bons motivos.

A direção de Olivia Newman trabalha esse encontro com cuidado. O aquário não surge só como cenário bonito, cheio de vidro, água e luz filtrada. Ele é o lugar onde Tova ainda consegue circular sem precisar explicar quem foi, o que perdeu ou por que prefere ficar sozinha. Entre corredores vazios e tanques iluminados, ela se aproxima de Marcellus de maneira quase involuntária. Um gesto de cuidado puxa outro. Uma visita noturna vira hábito. O animal, preso em seu espaço, passa a enxergar a liberdade limitada de Tova com uma lucidez desconcertante.

Cameron chega sem pedir licença

A rotina muda com a chegada de Cameron, vivido por Lewis Pullman. Ele aparece na cidade com pouca estrutura, muitas perguntas e uma busca pessoal que o empurra para perto de Tova. Cameron procura informações sobre a própria origem e carrega a inquietação de quem cresceu com lacunas demais. Ao aceitar trabalho no aquário, ele entra no território que Tova tratava como refúgio particular. Essa aproximação não acontece com doçura automática. Há ruídos, impaciência, diferenças de idade e maneiras opostas de lidar com perdas. Ele quer respostas. Ela prefere não mexer em certas gavetas.

Lewis Pullman interpreta Cameron sem transformá-lo em rapaz iluminado por boas intenções. Ele erra, insiste, fica desconfortável e traz para a história uma energia menos polida. Essa presença ajuda o filme a sair da zona segura do drama acolhedor. Cameron precisa de dinheiro, de pertencimento e de pistas. Tova precisa de silêncio, mas começa a perceber que talvez o silêncio tenha virado uma casa fechada por tempo demais. A convivência entre os dois avança aos poucos, sempre sustentada por tarefas simples, conversas interrompidas e pequenas permissões que nenhum dos dois admite com facilidade.

Ethan observa de perto

Nesse círculo entra Ethan Mack, interpretado por Colm Meaney. Dono de um comércio local, ele acompanha Tova com uma atenção paciente, sem forçar grandes declarações. Ethan é uma presença importante porque oferece ajuda sem transformar cuidado em cobrança. Ele enxerga a solidão dela, mas sabe que Tova não se deixa acolher por insistência. Meaney dá ao personagem uma ternura contida, com aquele ar de quem conhece as dores da cidade e ainda assim abre a loja no dia seguinte.

A dinâmica entre Tova, Cameron e Ethan cria o lado mais humano do filme. Ninguém chega inteiro. Ninguém resolve a vida do outro com uma conversa inspiradora. O que há são deslocamentos pequenos, quase domésticos, que empurram a história para a frente. Um emprego oferecido, uma visita aceita, uma pergunta feita na hora errada, uma pista que muda o peso de uma lembrança. “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” ganha força quando se apoia nesses gestos, porque a emoção não vem de grandes arroubos, mas daquilo que os personagens fazem quando já não conseguem fingir indiferença.

Um mistério guardado no silêncio

O desaparecimento do filho de Tova é a ferida que organiza boa parte do enredo. O filme trata essa ausência sem transformar tudo em investigação pesada. Existe mistério, mas ele aparece costurado à vida cotidiana. O passado de Tova volta por meio de lembranças, perguntas e aproximações que ela preferiria manter sob controle. A chegada de Cameron, nesse sentido, não apenas movimenta a rotina do aquário. Ela também força a personagem a olhar para uma história que nunca terminou de verdade.

Marcellus tem papel essencial nessa costura. O polvo percebe conexões, observa comportamentos e parece compreender antes dos humanos o que está em jogo. Essa escolha poderia soar absurda em outro tom, mas aqui a fantasia ganha espaço porque o filme assume sua estranheza com naturalidade. Há leveza, há graça e há uma inteligência afetiva que impede a história de cair em sentimentalismo fácil. O espectador aceita o olhar de Marcellus porque ele não rouba o centro de Tova. Ele apenas ilumina, com seus muitos braços e pouca paciência, o que os humanos demoram a admitir.

A delicadeza sem enfeite

A grande virtude de “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” está em tratar o luto sem pressa e sem pose. Olivia Newman aposta em uma narrativa acessível, de sentimentos reconhecíveis, mas não transforma a dor de Tova em espetáculo. Sally Field carrega o filme com uma economia admirável. Basta um olhar mais duro, uma pausa curta ou um gesto de incômodo para revelar que aquela mulher se acostumou a sobreviver antes de voltar a viver. Ao lado dela, Lewis Pullman e Colm Meaney ajudam a dar corpo a uma comunidade pequena, onde todo mundo parece saber um pouco demais e dizer um pouco de menos.

O filme é uma crítica afetuosa à solidão escolhida por necessidade. Ele fala de pessoas que perderam família, tempo, coragem ou rumo, mas ainda podem ser alcançadas por vínculos improváveis. “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” não depende de grandes viradas para tocar o público. Seu encanto está na soma de tarefas modestas, conversas imperfeitas e afetos que chegam pela lateral. Tova entra no aquário para limpar o que os outros deixam para trás, mas sai dele levando perguntas que já não cabem na próxima noite de trabalho.


Filme: Criaturas Extraordinariamente Brilhantes
Diretor: Olivia Newman
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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