Lançado em 2002, “Cidade de Deus” acompanha, no Rio de Janeiro, a formação de um bairro marcado pelo crime, pela ausência do poder público e pela infância empurrada cedo demais para escolhas sem volta. Dirigido por Fernando Meirelles e codirigido por Kátia Lund, o filme parte dos anos 1960 e avança pelas décadas seguintes para mostrar como Buscapé (Alexandre Rodrigues), um jovem que sonha em ser fotógrafo, tenta escapar do caminho seguido por muitos ao seu redor. Ao mesmo tempo, Zé Pequeno (Leandro Firmino) cresce no crime e passa a dominar a Cidade de Deus com medo, armas e uma ambição que quase ninguém consegue conter.
O enredo começa quando a Cidade de Deus ainda parece um lugar em formação, distante dos cartões-postais do Rio e perto demais de uma rotina feita de improviso. Nos anos 1960, o Trio Ternura, formado por Cabeleira (Jonathan Haagensen), Alicate (Jefechander Suplino) e Marreco (Renato de Souza), pratica assaltos a caminhões de gás, comércios e motéis. Para alguns moradores, eles parecem criminosos de bairro, meio folclóricos, meio perigosos. Para as crianças que observam tudo de perto, porém, eles viram uma espécie de manual errado sobre poder, dinheiro e respeito.
Entre essas crianças está Dadinho (Douglas Silva), garoto pequeno no tamanho e enorme na vontade de ser temido. Ele acompanha os mais velhos, insiste para participar dos crimes e demonstra uma frieza que assusta até quem já vive entre armas. Buscapé, por outro lado, olha para o mesmo ambiente com outra disposição. Ele não quer herdar o lugar do irmão Marreco, nem entrar para uma disputa em que cada erro pode custar a vida. Sua saída parece improvável, mas ganha forma quando a fotografia deixa de ser só um desejo e passa a abrir portas fora do bairro.
O crime aprende depressa
A passagem dos anos muda o tamanho da ameaça. Dadinho cresce, vira Zé Pequeno (Leandro Firmino) e transforma a antiga vontade de aparecer em domínio territorial. Ele não age por impulso passageiro, mas por uma lógica brutal de ocupação. Quer tomar bocas de fumo, eliminar rivais e impor uma autoridade que se sustenta no medo. O filme deixa evidente que aquele poder não nasce de um golpe isolado. Ele se forma por repetição, pela falta de alternativas e pela capacidade de usar a violência antes que alguém tenha tempo de reagir.
Ao lado dele está Bené (Phellipe Haagensen), seu melhor amigo e uma das poucas pessoas capazes de suavizar sua presença diante dos outros. Bené circula melhor entre grupos diferentes, gosta de festas, roupas, música e da vida social que Zé Pequeno parece incapaz de aproveitar sem estragar alguma coisa. A relação dos dois dá ao filme uma camada humana importante, porque mostra que até dentro de um ambiente feroz existem afetos, lealdades e pequenas tentativas de manter alguma ordem. O problema é que Bené não controla o amigo, apenas adia alguns estragos.
Buscapé cresce nesse mesmo território tentando não ser engolido por ele. O jovem interpretado por Alexandre Rodrigues procura empregos, se interessa por garotas e mantém a câmera por perto como quem carrega uma chance rara no bolso. Ele não é santo nem herói de vitrine. Também sente medo, desejo, inveja e uma certa falta de jeito que rende alguns dos momentos mais leves da história. Em uma vida cercada por homens armados, sua pouca vocação para o crime acaba sendo quase uma bênção doméstica, daquelas que ninguém agradece em voz alta, mas deveria.
A câmera abre caminho
A fotografia muda a relação de Buscapé com a Cidade de Deus. Antes, ele era apenas mais um morador tentando atravessar ruas perigosas sem chamar atenção. Com a câmera, passa a ter um motivo para observar, registrar e, principalmente, sair do lugar onde nasceu. A redação de jornal surge como uma possibilidade concreta, ainda que frágil. Suas imagens interessam porque ele está perto do que repórteres de fora nem sempre conseguem alcançar. Esse acesso, porém, vem com risco, pois fotografar criminosos não é o mesmo que fotografar paisagem de calendário.
O filme acerta ao transformar Buscapé em narrador sem fazer dele dono absoluto da história. Ele conta, lembra, comenta e organiza os acontecimentos, mas a Cidade de Deus não cabe apenas em sua experiência. A cada nova fase, outros personagens entram na disputa por espaço. Sandro Cenoura (Matheus Nachtergaele) tenta manter seu ponto de venda sem ser esmagado por Zé Pequeno. Mané Galinha (Seu Jorge), trabalhador conhecido no bairro, é arrastado para a guerra depois de ter sua vida atravessada pela brutalidade do chefe local. O crime deixa de ser assunto de bando e passa a contaminar famílias, amizades e qualquer tentativa de rotina.
Essa progressão torna “Cidade de Deus” especialmente forte. O filme não apresenta a violência como um raio caído do nada. Ela vem de uma sequência de escolhas, omissões, vinganças e oportunidades fechadas. Crianças observam adultos armados, depois carregam armas também. Jovens que antes corriam atrás dos criminosos passam a ocupar o lugar deles. A polícia aparece mais como força de repressão e interesse do que como proteção cotidiana. Nesse cenário, quem tenta viver fora do crime precisa disputar cada pequena chance de passagem.
O bairro perde o sossego
A guerra entre grupos rivais aperta o cerco sobre todos. Zé Pequeno quer controle total, Sandro Cenoura tenta resistir, Mané Galinha entra no conflito movido por dor e revolta, e Buscapé continua tentando transformar o caos em imagem publicável. O mais incômodo é perceber que, para muitos meninos, entrar em um bando parece oferecer identidade, proteção e algum dinheiro. É uma promessa pobre, mas sedutora quando o resto quase nunca chega. O filme mostra esse aliciamento sem discurso pesado, deixando que as ações revelem o tamanho da armadilha.
Fernando Meirelles e Kátia Lund trabalham com ritmo ágil, cortes secos e uma narração que aproxima o público dos acontecimentos sem aliviar sua gravidade. A câmera se move com energia, mas não transforma a miséria em enfeite. Quando há correria, ela informa quem persegue e quem foge. Quando há pausa, deixa aparecer o constrangimento, o medo ou a vaidade de quem tenta parecer maior do que é. A técnica está a serviço do tempo da história, porque cada avanço muda o grau de perigo ao redor de Buscapé.
Uma obra ainda incômoda
“Cidade de Deus” ainda é perturbador porque une força narrativa e precisão popular sem perder o rosto dos personagens. Zé Pequeno assusta não apenas pelo que faz, mas pela naturalidade com que passa a tratar pessoas como obstáculos removíveis. Bené comove porque tenta pertencer a um mundo mais leve, embora esteja preso a uma amizade que cobra caro. Buscapé conquista atenção porque não deseja mandar no bairro, apenas sair dele com uma câmera, algumas fotos e o mínimo de futuro possível.
A crítica é dura à forma como o abandono cria suas próprias autoridades, muitas vezes mais presentes do que o Estado. Mesmo assim, o filme não transforma seus personagens em peças de tese. Eles querem dinheiro, prestígio, amor, proteção, vingança, trabalho ou só uma chance de atravessar o dia sem morrer. Essa mistura dá vida ao enredo e impede que a história vire sermão. Quando Buscapé levanta a câmera, ele não resolve a Cidade de Deus, mas consegue registrar o que muitos preferiam manter fora do quadro.

