Era feriado de Porcos Tristes. As ruas estavam infestadas de gente fanática, homens e mulheres influenciados, espremidos em procissões intermináveis que atravancavam a tarde. Aproveitei que Emma fora visitar a mãe em Grandes Lábios, para me divertir. A velhota estava naquele morre-não-morre, de tanto sofrer desgosto, por conta do câncer de corrupção que tinha engordado as suas contas secretas nas Ilhas Seychelles. Dizia-se que o arquipélago era paradisíaco. Não sei, nunca estive lá. Mas, com toda certeza, não seria um paraíso à altura do corpo de Svetyslana Popannova, a polêmica deputada federal da bancada da bala-chita, a quem eu chamava carinhosamente de “Susie, a boneca” pelo simples fato de não conseguir escrever corretamente aquele nome originário do leste europeu, apinhado de consoantes. Ainda não acredito que fiz sexo com Svetyslana Popannova. Amor? Amor, não. Amor é outra esfera.
Quando Susie entrou na jacuzzi, eu tremi nas bases. Recostado numa das extremidades da banheira, fui surpreendido quando ela enfiou a perna lisa e esguia dentro d’água. Jocosamente, vieram-me à lembrança as competições de pau-de-sebo das quais eu participava durante os festejos de São João, em Campina Grande.
— Pelo amor de Deus, Susie, não faça isso!
— O que foi, honey?
— A tornozeleira.
— O que tem a tornozeleira?
— Ela pode ser molhada?
— Como assim, “ela pode ser molhada”, benzinho?
— A tornozeleira eletrônica pode ficar mergulhada? Não vai fechar curto, dar choque, eletrocutar a gente?
— Tá de brincadeira, né?
— Falo sério.
— É óbvio que não.
— Sei lá. Vai que. Quais foram as recomendações do japonês da Federal?
— Ele não disse nada em particular sobre evitar banheiras. Que desfaçatez. Relaxa, homem. Não tem nenhum perigo.
— Esse treco tem manual de instruções?
— Tudo que existe nesse mundo tem um manual de instruções, exceto a vida. Posso ou não posso entrar nessa banheira?
Consenti. Susie deitou-se no lado oposto e pousou as solas macias sobre o meu peito. As unhas estavam pintadas com as cores da bandeira nacional, o que me deixava particularmente excitado, aguçando ainda mais o espírito ufanista de um patriota adúltero de quatro costados. Brindamos com Cuspe Sour. Acendi um Jeronimo’s. Susie andava desacorçoada nos últimos dias, desde que a PF — Prato Feito — instalou aquela geringonça no seu fabuloso tornozelo. Que escândalo. Pés tão hermosos. Fazia dó.
— Esse negócio de prisão domiciliar está me matando. Sinto saudades do mar.
— Omar? Quem é Omar?
— O mar. O oceano. Sinto saudades de pegar uma praia, de mergulhar na baía, de tomar um bronze, de me sentir desejada.
Susie sabia que eu a desejava mais do que pudim de leite condensado. A famosa parlamentar da extrema direita tinha dupla personalidade, ou melhor, a famosa deputada tinha dupla nacionalidade. Desde a malograda tentativa de golpe de Estado, ela planejava fugir do país, mas acabou detida no Aeroporto Internacional do Faina, com a calça nas mãos.
— Sinto falta de outras coisas simples também. De usar rasteirinha. De frequentar roda de samba. De passear pelo shopping. De frequentar culto. De ser depilada. De receber massagem. Acho que preferiria uma prisão de verdade, sabe?
— Não diga isso, Susie. Você não faz ideia do que fazem com as pessoas dentro das cadeias. Se bem que, certamente, você teria direito a uma sela individual, por possuir diploma de curso superior.
— Não cheguei a colar grau em Ciências Ocultas. Portanto, não concluí a faculdade. Mesmo assim, aprendi desde cedo que “cela”, nesse caso em particular, se escreve com a letra “c” e não com a letra “s”. Fique atento quando for escrever a nossa história. Não sou a completa cavalgadura de quem a mídia tanto desdenha.
Finalmente, ela sorriu.
— A justiça será feita, boneca. O que estão fazendo com você é uma baita sacanagem. Só Jesus na causa.
— Amém.
— E o partido, também.
— Sei lá. Todo mundo sumiu. Me largaram na chapada. Cambada de homens frouxos.
— Se eu fosse você, faria felação premiada.
— Delação premiada, você quer dizer.
— Também.
— Não é tão simples assim, magro. Corro risco de morte se eu entregar esses vagabundos.
— Ficar presa numa cobertura de frente para o mar não é vida, Susie.
— Sim, eu sei.
— Pelo menos, ainda teremos Pasárgada.
— Grande merda. Prefiro, mil vezes, Paris.
— Paris já não é mais a mesma. Está tomada de imigrantes e pickpockets. Um horror.
— Sinto-me tão mal.
— Bora transar. Para espairecer um pouquinho.
— Não estou com cabeça para isso. Desculpe. Essa história de prisão domiciliar está me tirando do sério. A libido zerou.
— A libido?
— O desejo. O tesão está zerado.
— Adoro quando você fala essas palavras difíceis. Aliás, apesar de ter nascido no estrangeiro, você fala português melhor do que eu.
— Quando a sua esposa volta dos Grandes Lábios?
— Não sei ao certo. Depende. A sogra anda estressada. Os federais estão na cola dela. Penso que, já-já, a casa cai.
— Que tempos terríveis são esses?
— Os comunistas estão chegando.
— Estão chegando os comunistas.
— Que pesadelo.
— Dorme comigo essa noite, querido.
— Não durmo com as minhas namoradas.
— “Minhas namoradas”?
— Eu quis dizer você: Susie, a boneca, minha namorada. Prefiro pernoitar em casa. Tenho filhos pequenos. Uma questão de princípios, sabe como é.
— Princípios. Só você mesmo para me fazer sorrir numa hora como essa.
— Me faz um carinho?
Susie não respondeu. Não que eu me lembre. Não tenho certeza sobre tudo o que sucedeu em seguida. Penso que escorreguei ao me levantar, caí e bati a cabeça, tendo em vista que despertei nu, estatelado sobre o piso frio do banheiro, com um dos supercílios aberto e lambrecado pela sopa de coágulos. Devo ter desabado com tudo sobre a pia, sei lá. Havia um secador de cabelos ligado na tomada e submerso na jacuzzi. Susie estava morta. Suponho que a coitadinha tenha sido eletrocutada. Agora, era pensar no que eu iria dizer lá em casa, depois que terminasse de escrever outra palpitante história de amor que terminava mal.

