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[Reflexões escritas com o amor ludopédico de quem dormiu pouco para assistir a Equador contra Curaçao — e está ansioso para ver a partida entre a República Democrática do Congo e o Uzbequistão. 

É… O futebol tem dessas!]

É preciso esquecer o marketing das chuteiras cor-de-rosa, pular as paradinhas supostamente necessárias para a hidratação, voltar a ter menos substituições por partida, menos opções do plantel no banco, menos assessores de não sei o quê na comissão técnica, menos firulas nos ângulos das imagens de transmissões.

É preciso sepultar o VAR — pela volta do futebol festival de erros, com direito a xingamentos ao juiz tendo ele ou não razão, com direito a discussões polêmicas que só são controladas depois de umas duas expulsões de cada lado. É preciso acabar com a precisão objetiva, voltar ao imponderável das falhas humanas. É preciso, sobretudo, entender que dentro das tais quatro linhas a geometria funciona de um jeito diferente e o gozo reside na jogada fora de esquadro, no escanteio torto, no placar assimétrico.

É preciso acabar com a doença das bets, com a monetização instantânea dos lances, com o apelo constante pelas apostas — que, vício para muitos, mina não só saúdes financeira e psíquica daqueles que aderem; esgota o ânimo de quem não adere mas só queria voltar a ver o futebol pela paixão de ver o futebol.

É preciso devolver ao futebol o direito de ser irracional. Nem toda partida precisa ser explicada por estatísticas avançadas, nem toda jogada precisa caber em gráficos coloridos e mapas de calor. O sujeito que vai ao estádio ou liga a TV não procura uma tese de doutorado sobre ocupação de espaços; procura um milagre improvável, um chute que não deveria entrar mas entra, um drible que não fazia sentido mas funcionou. O futebol nunca foi uma ciência exata. Sua graça sempre esteve justamente nisso.

É preciso resgatar os campos, os estádios, porque quem inventou essa coisa de arenas pós-modernas parece que se esqueceu que a bola rolava de forma muito mais poética naqueles templos em que havia trechos de gramado ralo, momentos em que o terrão virava lama se houvesse chuva e pintava de marrom uniformes sagrados. É preciso voltar a preços praticáveis nos ingressos, preços que não impeçam pobres, sempre a base mais fervorosa e apaixonada da torcida, de frequentar arquibancadas. É preciso, aliás, tornar a existir as boas e velhas arquibancadas, com seus assentos duros e desconfortáveis, um tablado de concreto contínuo a não ter dó de nádegas, sem numeração, sem indicação precisa de lugar, de distância, de visibilidade. 

É preciso recuperar os personagens. O futebol produzia tipos humanos inesquecíveis: o craque preguiçoso, o centroavante na banheira, o goleiro excêntrico, o ponta irresponsável, o técnico supersticioso cheio de mandingas e frases de efeito. Hoje parecem todos saídos da mesma escola de media training, repetindo discursos empolados e idênticos, sorrindo do mesmo jeito e agradecendo a Deus, à comissão técnica e aos patrocinadores na mesma ordem. O futebol sempre foi melhor quando seus protagonistas pareciam gente de verdade e não versões esportivas de prompts de ChatGPT. 

É preciso voltar a ter um futebol que fosse bola no campo, e não pose nas redes sociais, sorriso falso em anúncio de qualquer coisa que pague, website caprichado com catadão das melhores jogadas da carreira.

É preciso um impulso, imediato, certeiro, humano, capaz de fazer voltar a ser motivo de sorriso e orgulho vestir a amarelinha, este manto autêntico do escrete nacional que, apropriado indebitamente pelo bolsonarismo, acabou instrumento de vilipêndio estratégico na autoestima brasileira, facada pontiaguda contra aquele velho e genuíno prazer compartilhado, o prazer de apenas ligar a televisão e torcer, em uníssono, pela seleção brasileira. 

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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