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Há uma forma especialmente pobre de elogiar escritoras brasileiras contemporâneas: juntá-las todas no mesmo cercadinho moral, como se escrevessem, antes de tudo, para confirmar uma pauta, corrigir uma injustiça estatística ou oferecer ao leitor aquele reconforto civilizado de quem está do lado certo da história. Nada contra estar do lado certo, claro. O problema é quando a literatura, esse bicho menos domesticável do que supõem os departamentos de marketing e as boas consciências apressadas, passa a ser lida como comprovante de virtude.

Os livros reunidos aqui pedem outro tipo de atenção. Não estão na lista por serem escritos por mulheres, embora isso evidentemente importe num país que ainda trata a autoria feminina como categoria à parte, ora nicho, ora exceção, ora tendência da temporada. Estão aqui porque enfrentam, cada um à sua maneira, zonas instáveis da experiência humana: a memória que falha, o corpo ameaçado, a família como pequena máquina de ferir, a paisagem social atravessada por violência, a intimidade que nem sempre salva e quase nunca explica tudo.

Não se trata, portanto, de uma lista edificante. Melhor assim. A boa ficção raramente entra na vida do leitor para melhorar seu humor ou confirmar suas certezas. Entra para deslocar alguma coisa, às vezes pouco, às vezes muito; para tornar menos automático o modo como olhamos uma mulher numa janela, uma mãe e uma filha, uma casa depois do trauma, uma voz que insiste em falar quando o mundo preferiria silêncio. Natalia Timerman, Tatiana Salem Levy, Silvana Tavano, Marcela Dantés e Noemi Jaffe escrevem a partir de dicções muito diferentes, mas têm em comum essa recusa ao enfeite pacificador. Seus livros não pedem licença para existir. Pedem leitura. E isso, em literatura, ainda é quase tudo.


Antes que Apague, de Natalia Timerman

Há doenças que não esperam a morte para começar a matar. A narradora, psiquiatra e escritora, acompanha a mãe depois do diagnóstico de Alzheimer e se vê diante de um luto sem cadáver, desses que parecem indecentes justamente porque a pessoa amada ainda está ali, respirando, falando alguma coisa, ocupando uma cadeira, enquanto vai deixando de ser reconhecível para os outros e para si mesma.

Aos poucos, a memória falha, a linguagem se estreita, a autonomia se desfaz. Nada disso aparece como caso clínico nem como apelo fácil à comoção. A doença obriga a filha a rever uma relação inteira quando talvez já não haja tempo para consertar nada. Voltam cenas familiares, gestos de cuidado, pequenas crueldades, afetos tortos, culpas que pareciam adormecidas. O que se apaga na mãe ilumina, de forma incômoda, aquilo que a filha ainda pode lembrar. E lembrar, aqui, está longe de ser consolo.


Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy

O Rio de Janeiro de 2014 estava fantasiado de promessa. Copa do Mundo, Olimpíadas à vista, obras, discursos, cartões-postais retocados para a fotografia oficial. Júlia, arquiteta e sócia de um escritório ligado a projetos da futura Vila Olímpica, vive dentro dessa engrenagem de entusiasmo público quando sai para correr no Alto da Boa Vista antes de uma reunião. Na mata, é violentada.

A partir daí, a paisagem muda de natureza. O corpo ferido continua sendo o mesmo e já não é. A memória passa a falhar nos pontos em que todos gostariam de exigir clareza. A vergonha, como tantas vezes acontece, tenta se alojar no lugar errado. Os outros escutam mal, quando escutam. A cidade linda, celebrada como vocação turística e promessa de futuro, mostra sua outra face, feita de abandono, medo e violência mal disfarçada pela propaganda. Sem transformar Júlia em tese nem o crime em panfleto, o livro olha para o depois. E o depois, nesse caso, talvez seja a parte mais difícil de narrar.


Ressuscitar Mamutes, de Silvana Tavano

Ressuscitar mamutes é uma ideia científica, mas também uma fantasia humana antiga: trazer de volta o que desapareceu, nem que seja em fragmento, vestígio, sombra, osso, lembrança. A narradora, uma mulher madura, revisita a própria história familiar depois da morte da mãe e descobre, como quase sempre se descobre tarde demais, que certos vínculos não se encerram com a morte. Mudam de lugar, apenas. Às vezes pioram.

O livro se move entre memória, ensaio e ficção sem fazer disso uma exibição de gênero híbrido. Seu assunto é mais simples e mais difícil. Uma filha tenta entender o que herdou, o que perdeu, o que inventou para suportar a perda. Objetos cotidianos, fósseis, lembranças e arrependimentos entram na mesma corrente de pensamento, como se tudo aquilo pertencesse a uma escavação só. Não se trata de salvar o passado, ambição fadada ao fracasso, mas de perguntar o que ainda pode nascer de uma matéria aparentemente extinta.


Vento Vazio, de Marcela Dantés

Há lugares em que o vento parece ter mais personalidade do que as pessoas. Na Quina da Capivara, região árida, quase mítica, ele não sopra apenas sobre as casas, os corpos e a poeira. Entra nas frestas, desarruma a percepção, empurra para a superfície aquilo que os moradores talvez preferissem deixar quieto. Miguel Sem-Fim, Cícera, Alma e Maura conduzem a história por vozes atravessadas de culpa, obsessão, segredo e desrazão.

A usina eolioelétrica desativada, resto de uma promessa que não deu em nada, impede que o romance flutue demais no simbólico. Há ferrugem no delírio. Há chão no mito. O isolamento daquelas figuras ganha a densidade de uma condenação antiga, e a paisagem deixa de ser cenário para tomar parte no conflito. Entre oralidade, memória e vertigem, o livro faz do vento uma força física e mental. Não explica os personagens. Arranca deles o que estava mal enterrado.


O que Ela Sussurra, de Noemi Jaffe

Em certos momentos da história, decorar um poema pode ser um ato clandestino. Nadejda Mandelstam, mulher do poeta russo Óssip Mandelstam, atravessa a perseguição stalinista sabendo que a palavra escrita deixou de ser apenas literatura. Pode ser prova, sentença, risco. Depois da prisão e da morte do marido num gulag, resta a ela uma tarefa ao mesmo tempo íntima e descomunal: guardar poemas na memória para que não sejam destruídos junto com os papéis.

O sussurro, aqui, não tem nada de ornamento delicado. É técnica de sobrevivência. É arquivo em voz baixa. A trajetória histórica existe, claro, mas o livro não se acomoda no formato obediente da biografia. Prefere se concentrar na resistência miúda, repetida, quase invisível, de uma mulher que transforma lembrança em recusa. Não há monumento heroico, ainda bem. Há medo, exílio, amor, linguagem e uma pergunta que atravessa tudo: o que pode a literatura quando já não lhe deixam sequer o direito material de existir?

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