Discover

A infância, quando atravessada por guerras, regimes e segredos domésticos, deixa de ser um território de descoberta e passa a ser uma delegacia da alma, onde cada lembrança precisa provar sua inocência. László Nemes sabe disso desde “O Filho de Saul”, e “O Órfão” volta a mergulhar o espectador nesse século 20 centro-europeu em que ninguém sai propriamente vivo, nem mesmo os que respiram. Agora, em Budapeste, no ano de 1957, depois da revolta húngara contra o regime comunista, Andor, um garoto judeu criado pela mãe sob a imagem idealizada de um pai morto ou desaparecido, vê sua pequena mitologia familiar ruir quando um homem bruto aparece dizendo ser seu verdadeiro pai.

“O Órfão” é um drama histórico, mas Nemes não se interessa pela História como vitrine de reconstituição. O que lhe importa é a poeira que os grandes acontecimentos deixam na garganta dos sobreviventes. O diretor, que coassina o roteiro com Clara Royer, trabalha novamente com o fotógrafo Mátyás Erdély e confia o centro do filme a Bojtorján Barabas, Andrea Waskovics e Grégory Gadebois, trio que sustenta esse triângulo familiar feito de silêncio, humilhação, medo e uma espécie de ternura deformada. Depois de “O Filho de Saul” e “Sunset”, Nemes parece menos interessado em provar virtuosismo e mais disposto a examinar o que acontece quando a vítima não tem sequer o direito de escolher a história que a salvará.

Andor não é órfão no sentido banal do termo. Sua mãe, Klára, está ali, viva, cansada, assombrada, tentando administrar a casa como quem segura uma bomba sem saber se o pino ainda existe. O pai sonhado, entretanto, pertence a outra ordem: é ausência, consolo, brasão, mentira útil, talvez. O garoto se agarra a essa figura como se ela fosse a última propriedade que lhe restou depois do Holocausto, da ocupação soviética, da miséria moral dos adultos e da suspeita que o Estado lança sobre qualquer um que tenha atravessado a época errada do lado errado. A chegada do açougueiro, interpretado por Gadebois com uma mistura incômoda de brutalidade e carência, não apenas substitui um homem por outro. Ela obriga Andor a aceitar que sua origem talvez tenha nascido menos do amor que de uma negociação inconfessável pela sobrevivência.

É aí que Nemes encontra seu melhor filme dentro do filme. A tragédia política funciona, mas a tragédia doméstica corrói mais. O regime comunista vigia, persegue, intimida; ainda assim, nada parece tão violento quanto a mesa de casa, esse pequeno tribunal onde Klára evita certas palavras e Andor aprende a desconfiar do rosto da própria mãe. Waskovics faz de Klára uma mulher que já ultrapassou a zona do choro e se fixou num pragmatismo doloroso, sem jamais converter a personagem numa santa de vitral. Ela esconde porque precisa, cala porque talvez não exista frase capaz de organizar o que aconteceu, e ama o filho com a insuficiência amarga dos que sobreviveram sem manual de instruções.

Barabas, por sua vez, não compõe um menino dócil, desses que o cinema costuma usar para arrancar piedade fácil. Andor é áspero, desconfiado, às vezes desagradável, e nisso reside sua força. Ele não quer a verdade; quer que sua mentira continue intacta, porque há mentiras que funcionam como cobertores em noites de inverno. Quando percebe que o homem que o repugna pode estar mais próximo dele do que o pai heroico que inventou, sua revolta deixa de ser apenas infantil e passa a ser uma forma primitiva de política. O garoto não aceita o pai imposto como a Hungria não aceita o dono imposto. Nemes não sublinha demais essa correspondência, mas ela se instala em cada rua úmida, cada interior estreito, cada rosto que parece ter envelhecido antes da hora.

A direção mantém a solenidade habitual, às vezes excessiva. “O Órfão” é denso, severo, quase sempre bonito de um modo opressivo, e há momentos em que Nemes força a gravidade do material como se temesse perder autoridade caso deixasse a cena respirar um pouco mais. A paleta visual enevoada, de luz sépia e arquitetura soviética transformada em labirinto moral, cria uma atmosfera de mito sombrio, embora também aprisione o filme numa rigidez que pode afastar quem espera uma progressão dramática mais limpa. Nemes prefere o mal-estar à catarse; prefere a fratura à explicação; prefere que o espectador se sente ao lado de Andor e descubra, com ele, que a verdade não liberta ninguém de imediato. Às vezes, apenas troca a fechadura da prisão.

Mesmo com essa dureza, ou talvez por causa dela, “O Órfão” alcança uma força rara ao tratar da identidade como ferida e não como resposta. A própria ligação do filme com a história familiar de Nemes, entre os destroços do Holocausto e a tirania comunista, ajuda a entender por que o longa parece menos uma ficção histórica que um acerto de contas com fantasmas herdados. O menino procura um pai e encontra uma genealogia de medo; procura nobreza e encontra sobrevivência; procura pureza e descobre que adultos raramente conseguem atravessar o inferno sem trazer um pouco dele preso às mãos.

No fim, o órfão do título não é o menino sem pai. É o menino com pais demais: o morto idealizado, o vivo intolerável, o Estado que deseja educá-lo pela força e a própria História, essa mãe monstruosa que dá à luz filhos já endividados com crimes que não cometeram. Nemes não faz um filme confortável, tampouco inteiramente perfeito. Faz algo mais raro: um drama que entende que certas revelações não encerram a infância. Elas a profanam.


Filme: O Órfão
Diretor: László Nemes
Ano: 2025
Gênero: Drama/História
Avaliação: 4/5 1 1
Leia Também