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“A Baleia” observa Charlie, professor on-line vivido por Brendan Fraser, isolado em Idaho, em 2016, enquanto tenta reencontrar a filha antes que o próprio corpo encerre a conversa.

Lançado em 2022 e dirigido por Darren Aronofsky, “A Baleia” se passa quase inteiro dentro do apartamento de Charlie (Brendan Fraser), um professor de redação que dá aulas pela internet, mas mantém a câmera desligada para esconder sua aparência dos alunos. Ele vive em Idaho, em 2016, afastado da rua, da escola presencial e de qualquer rotina fora de casa. Sua vida ficou limitada ao sofá, ao computador, às entregas de comida e às visitas de poucas pessoas que ainda insistem em entrar.

Charlie tem obesidade crônica, sofre com problemas de saúde graves e se recusa a procurar atendimento médico. A amiga Liz (Hong Chau), enfermeira, tenta convencê-lo a ir ao hospital, mas ele resiste por medo de gastar o dinheiro que guarda para Ellie (Sadie Sink), sua filha adolescente. A escolha diz muito sobre ele. Charlie quer reparar uma ausência antiga, mas tenta fazer isso tarde demais, com pouca força física e com uma ideia bastante torta de cuidado.

A filha volta com raiva

Ellie aparece na vida do pai depois de anos de afastamento. Ela chega furiosa, desconfiada e sem qualquer vontade de aliviar a culpa de Charlie. Sadie Sink faz da personagem uma adolescente áspera, inteligente e cruel quando deseja ferir. Ainda assim, a raiva dela tem endereço. Charlie abandonou a família quando Ellie era criança, e a distância deixou marcas que nenhum pedido de desculpas consegue apagar em uma visita.

Para mantê-la por perto, Charlie oferece dinheiro e ajuda em uma redação escolar. O gesto é carinhoso e constrangedor ao mesmo tempo, porque revela um pai tentando comprar algumas horas de presença. Ellie aceita entrar naquele apartamento, mas não entrega perdão. Ela provoca, acusa, exige e observa o pai com uma frieza que corta mais que qualquer sermão. O filme cresce quando deixa essa relação respirar sem transformar a filha em vilã nem o pai em santo de sala pequena.

A culpa recebe visitas

Além de Ellie, duas figuras atravessam a semana de Charlie. A primeira é Liz, interpretada por Hong Chau, que conhece a rotina dele, leva cuidados básicos e tenta manter alguma ordem naquele espaço abafado. Ela não age por dever profissional. Há afeto, cansaço e uma tristeza antiga no modo como entra e sai do apartamento. Liz sabe que Charlie está piorando e, por isso, cada visita parece carregar um aviso que ele finge não ouvir.

A segunda figura é Thomas (Ty Simpkins), um jovem missionário que bate à porta e passa a visitar Charlie com a esperança de oferecer uma saída religiosa. Sua presença cria desconforto porque ele chega com fé, pressa e certa inocência, enquanto Charlie carrega uma dor que não cabe em resposta simples. Thomas quer salvar alguém. Charlie, por sua vez, parece querer apenas ser escutado antes que o tempo acabe. A diferença entre uma coisa e outra sustenta boa parte da tensão.

A ex-mulher entra na conta

Mary (Samantha Morton), ex-mulher de Charlie e mãe de Ellie, também ocupa uma parte essencial da história. Quando ela surge, o passado deixa de ser apenas lembrança e ganha voz dentro do apartamento. Mary não aparece para organizar a culpa de ninguém. Ela cobra, acusa e mostra que a ausência de Charlie não feriu apenas a filha. A separação da família, o amor vivido por ele com outro homem e as perdas que vieram depois formam uma ferida que todos carregam de modo diferente.

É nesse ponto que “A Baleia” fica mais incômodo e mais interessante. O filme não olha para Charlie apenas pelo peso, embora o corpo dele esteja sempre em cena e determine seus movimentos. A dor maior vem da soma entre luto, abandono, vergonha e uma vontade desesperada de deixar algo bom para Ellie. Brendan Fraser trabalha essa mistura com delicadeza. Ele faz Charlie sorrir quando a situação pede defesa, pede desculpas quando já não há tempo folgado e se agarra à ideia de que a filha ainda pode ser melhor do que a raiva permite ver.

A palavra como tentativa

Como professor de redação, Charlie pede aos alunos que escrevam com honestidade. A ironia é evidente, mas Aronofsky não precisa sublinhar demais esse ponto. Charlie cobra verdade enquanto esconde o rosto, mente sobre sua condição e empurra para depois decisões que Liz considera urgentes. A escrita vira sua última ferramenta de aproximação. Ele acredita que um texto pode revelar aquilo que uma conversa, muitas vezes, não suporta.

Essa confiança na palavra também explica a ligação com Ellie. A redação escolar da filha passa a ser mais do que uma tarefa. Ela vira uma ponte frágil entre os dois, feita de frases, lembranças e ressentimentos. Charlie lê sinais de inteligência onde outros talvez enxerguem apenas brutalidade. Ellie percebe essa insistência e reage com dureza, porque aceitar o olhar do pai seria admitir que ainda existe alguma brecha entre eles.

“A Baleia” é um filme de espaço fechado, mas de emoções grandes. Aronofsky aposta no desconforto e, por vezes, pesa a mão na dor de Charlie. Há cenas em que o sofrimento parece ocupar todo o ar do apartamento, sem deixar muita folga para o espectador. Ainda assim, o elenco sustenta a história com entrega rara. Fraser dá humanidade a um homem cheio de falhas. Hong Chau impede que Liz vire apenas cuidadora. Sadie Sink dá a Ellie uma raiva viva, quase indomável, mas nunca vazia.

O filme se passa nessa semana em que todos parecem chegar tarde. Charlie quer perdão, Ellie quer cobrança, Liz quer ação, Thomas quer fé e Mary quer que a conta do passado seja reconhecida. Cada um entra naquele apartamento levando uma versão diferente da mesma perda. “A Baleia” acompanha essas visitas sem oferecer conforto fácil. Quando a porta se fecha de novo, Charlie continua ali, tentando transformar uma redação, uma conversa e algumas horas restantes em chance de reparação.


Filme: A Baleia
Diretor: Darren Aronofsky
Ano: 2022
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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