Discover

Lançada em 2009, ambientada em Manhattan e dirigida por Gary Winick, a comédia romântica “Noivas em Guerra” acompanha Liv Lerner, vivida por Kate Hudson, e Emma Allen, interpretada por Anne Hathaway, duas amigas de infância que veem a relação azedar quando seus casamentos são marcados para o mesmo dia. O motivo da confusão é simples, quase banal, e por isso mesmo eficiente. Um erro na agenda da disputada consultora Marion St. Claire, personagem de Candice Bergen, coloca as duas cerimônias na mesma data, no mesmo mês e no mesmo lugar dos sonhos das duas, o luxuoso Plaza Hotel.

A partir desse erro administrativo, a amizade construída durante anos passa a enfrentar uma pressão nada pequena. Liv e Emma sempre imaginaram que se casariam no Plaza, um símbolo de elegância nova-iorquina que, para elas, tem valor afetivo desde a infância. Quando os pedidos de casamento acontecem quase juntos, a coincidência parece engraçada, bonita e até conveniente. As duas poderiam dividir a ansiedade, os preparativos e o entusiasmo. Mas o filme troca a harmonia por uma briga cada vez mais absurda, em que buquês, vestidos, convidados e horários de salão passam a valer quase tanto quanto o próprio casamento.

Duas amigas e um erro

Liv Lerner é advogada, segura de si e acostumada a ocupar os espaços sem pedir licença. Kate Hudson interpreta a personagem com energia afiada, fazendo dela uma mulher que sabe o que quer e raramente aceita perder. Emma Allen, professora doce e conciliadora, vive uma situação diferente. Anne Hathaway dá à personagem uma delicadeza inquieta, de alguém que passou muito tempo dizendo sim para não criar incômodo. Quando a data do casamento fica ameaçada, Emma descobre que sua gentileza também tem uma fronteira.

Essa diferença entre as duas sustenta boa parte do filme. Liv age por impulso competitivo, enquanto Emma tenta manter a calma até ser empurrada para uma reação menos previsível. O problema é que nenhuma das duas quer abrir mão da data no Plaza. Para Liv, ceder seria perder o controle sobre o evento mais planejado de sua vida. Para Emma, aceitar outra data significaria repetir um padrão antigo, no qual seus desejos sempre ficam depois dos desejos alheios. O salão de casamento, então, deixa de ser apenas um cenário bonito e vira o ponto onde a amizade começa a rachar diante dos noivos, das famílias e dos convidados.

Marion St. Claire entra nessa história como uma espécie de rainha do calendário matrimonial. Candice Bergen interpreta a consultora com ironia elegante, sempre olhando para o caos com a calma de quem já viu muita noiva sorrir com os dentes cerrados. É ela quem organiza o acesso ao Plaza, administra datas e impõe uma lógica fria aos sonhos das protagonistas. Quando o erro vem à tona, Marion não oferece uma solução mágica. O impasse fica nas mãos das noivas, e é aí que “Noivas em Guerra” assume sua vocação mais divertida.

O Plaza vira disputa

O filme trabalha com um tipo de humor que nasce da escalada. Primeiro há o desconforto, depois a teimosia, em seguida as pequenas sabotagens. Liv e Emma começam a atingir pontos muito pessoais uma da outra, porque se conhecem bem demais. Uma sabe onde a outra é vaidosa, insegura ou sensível. Essa intimidade, que antes sustentava a amizade, passa a alimentar a briga. É cruel, mas também reconhecível. Poucas pessoas são tão capazes de ferir quanto aquelas que guardam nosso histórico completo.

A graça de “Noivas em Guerra” está nessa transformação de detalhes banais em armas sociais. O bronzeado, o cabelo, o vestido, a lista de convidados e a festa pré-casamento ganham peso porque todas essas escolhas serão vistas por muita gente. Cada interferência no planejamento produz um constrangimento público. Gary Winick filma esse embate com ritmo leve, sem tratar a briga como tragédia. O filme sabe que suas personagens estão exagerando, e parte do prazer está em assistir duas adultas inteligentes se comportarem com uma falta de maturidade quase olímpica.

Ao mesmo tempo, a comédia não depende apenas da caricatura. Liv e Emma têm razões compreensíveis, ainda que suas atitudes saiam do controle. A advogada interpretada por Kate Hudson teme perder domínio sobre a própria vida no instante em que deveria celebrar uma escolha íntima. A professora vivida por Anne Hathaway, por sua vez, enxerga no casamento uma chance de afirmar sua vontade sem pedir desculpas por existir. O exagero vem da comédia, mas a origem da briga passa por sentimentos bastante humanos.

Noivos quase figurantes

Os noivos aparecem como peças importantes, embora o centro emocional esteja nas amigas. Daniel Williams, interpretado por Steve Howey, é o noivo de Liv e precisa lidar com uma mulher que transforma cada detalhe da cerimônia em assunto de alta prioridade. Fletcher Flemson, vivido por Chris Pratt, é o noivo de Emma e representa uma vida mais acomodada, na qual a doçura dela muitas vezes é tratada como obrigação. Os dois homens não movem a história com a mesma força das protagonistas, mas ajudam a revelar o que cada uma aceita ou rejeita dentro do próprio relacionamento.

Essa escolha faz “Noivas em Guerra” ser melhor como comédia sobre amizade do que como romance. O amor dos casais está ali, mas o verdadeiro elo em risco é o de Liv e Emma. As duas cresceram juntas, sonharam juntas e criaram uma versão idealizada do futuro. Quando esse futuro chega com erro de agenda, preço alto e salão disputado, a fantasia começa a cobrar disciplina. A pergunta que move a história não é apenas quem ficará com a data perfeita, mas até onde cada uma aceita ir para preservar uma imagem de felicidade diante dos outros.

Uma briga com vestido branco

O filme tem seus excessos, e alguns conflitos acontecem de maneira conveniente demais para empurrar a próxima cena de sabotagem. Ainda assim, a dupla principal compensa boa parte das facilidades do roteiro. Kate Hudson tem presença solar, mas também sabe deixar Liv levemente insuportável quando a personagem se convence de que está sempre certa. Anne Hathaway equilibra fragilidade e firmeza, fazendo Emma parecer menos ingênua do que poderia ser. Juntas, elas criam uma rivalidade que diverte porque ainda guarda afeto debaixo das farpas.

“Noivas em Guerra” transforma uma fantasia feminina muito vendida pelo cinema e pela publicidade em uma sucessão de pequenos desastres sociais. O Plaza Hotel, os vestidos, a consultoria de Marion e a data marcada aparecem como símbolos de um sonho organizado demais para sobreviver ao erro humano. No meio dessa confusão, Liv e Emma precisam lidar com algo mais difícil do que escolher flores ou provar vestidos. Elas precisam olhar para a amizade sem o filtro bonito das lembranças de infância, enquanto a cerimônia se aproxima e todos esperam que as noivas sorriam para a fotografia.


Filme: Noivas em Guerra
Diretor: Gary Winick
Ano: 2009
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
Leia Também