Poucas coisas denunciam melhor a solidão contemporânea que a mania de falar para quem já não pode responder. O telefone, essa engenhoca que um dia prometeu encurtar distâncias, tornou-se também uma espécie de jazigo portátil, onde ficam guardadas vozes, mensagens antigas, fotos que ninguém tem coragem de apagar e números que continuam existindo mesmo depois que a pessoa desaparece. “Mensagens para Isabelle”, comédia romântica de Leah McKendrick estrelada por Zoey Deutch, Nick Robinson e Nick Offerman, parte justamente desse curto-circuito entre tecnologia e luto: uma mulher continua telefonando para a irmã morta, não à espera de resposta, mas para manter acesa a superstição mais humana de todas, a de que os mortos ainda nos escutam. A Netflix classifica o longa de 2026 como comédia romântica, e há mesmo romance, graça, leveza e uma dose calculada de encanto, mas o que sustenta os 115 minutos é outra coisa, mais funda e menos domesticável: a dificuldade de seguir vivendo quando a pessoa que melhor nos traduzia deixa de estar do outro lado da linha.
Jill, a personagem de Deutch, tenta abrir caminho em São Francisco, cidade que o filme trata como paisagem emocional antes de tratá-la como cartão-postal. Ela deixou o Texas para tornar-se chef e agora amarga a rotina miúda de uma cozinha comandada por Bastien, o chefe vivido por Nick Offerman, uma figura seca, exigente, engraçada justamente porque parece ter saído de um manual de crueldades gastronômicas. Jill não é a mocinha translúcida das comédias românticas de laboratório; é atrapalhada, verborrágica, às vezes irritante, frequentemente adorável, e Deutch tem inteligência para deixá-la no limite entre a graça e o colapso. Suas mensagens para Isabelle, interpretada por Ciara Bravo, registram fracassos amorosos, humilhações profissionais, carências, observações tolas, pequenas vitórias e essa necessidade infantilíssima — portanto verdadeira — de contar a alguém tudo que acaba de acontecer, mesmo que nada de tão extraordinário tenha acontecido.
O golpe melodramático, que poderia afundar o filme numa chantagem barata, vem quando o número antigo de Isabelle é reatribuído. Quem passa a receber os recados é Wes, um corretor imobiliário de Austin, reservado a ponto de parecer alérgico à vida, e Nick Robinson compreende o risco do personagem: Wes poderia ser apenas um bisbilhoteiro romântico, uma versão higienizada do sujeito que invade a intimidade alheia e depois pede absolvição porque se apaixonou. McKendrick sabe disso e não elimina inteiramente o desconforto. Ao contrário, tira parte do interesse dramático dessa zona moralmente esquisita, em que um homem se apaixona por uma mulher sem vê-la, sem conhecê-la e, pior, ouvindo o que ela jamais endereçou a ele. O filme precisa de muita delicadeza para transformar esse expediente meio sinistro em fantasia amorosa, e consegue quase sempre porque Wes não se impõe como salvador. Ele escuta, hesita, erra, atravessa a distância até São Francisco e, quando entra de fato na vida de Jill, já chega com a culpa de quem sabe ter aberto uma carta que não lhe pertencia.
Há, claro, uma linhagem nítida de “Mensagem para Você” e “Sintonia de Amor” pairando sobre “Mensagens para Isabelle”, não apenas pela ideia do afeto construído à distância, mas pela crença algo antiquada de que a palavra ainda pode anteceder o corpo. A diferença é que McKendrick desloca o eixo do encantamento romântico para a fraternidade. A grande história de amor aqui não é exatamente a de Jill e Wes, mas a de Jill e Isabelle, e isso livra o filme de virar só mais uma fábula sobre dois adultos bonitos condenados a se encontrarem depois de alguns mal-entendidos. O romance funciona porque nasce de uma falta anterior, de uma lacuna que Wes não preenche — e nem deveria. Ele apenas encontra um lugar possível numa vida que já estava tomada por uma ausência. Esse detalhe, aparentemente simples, dá ao longa uma dignidade que muitas produções do gênero perderam quando passaram a tratar o amor como uma operação algorítmica, feita de perfis compatíveis, diálogos espirituosos e desfechos esterilizados.
O roteiro de McKendrick, escrito a partir de uma ideia ligada a mensagens de voz, perda e vínculo entre irmãs, tem seus excessos de conveniência. A reatribuição do número, a forma como Wes recompõe o mapa da vida de Jill pelas pistas que ela deixa, a facilidade com que São Francisco se oferece como cenário de reencontro, tudo isso exige do espectador uma boa dose de rendição. Mas comédias românticas sempre dependeram dessa pequena fraude consentida. O problema nunca foi a inverossimilhança; o problema é quando a inverossimilhança não nos dá nada em troca. Aqui, dá. Dá uma protagonista que fala demais porque teme o silêncio, um homem que escuta demais porque desaprendeu a se expor, uma irmã morta que continua sendo a personagem mais viva do filme e uma cidade filmada como se cada esquina ainda pudesse abrigar uma descoberta sentimental.
Nick Offerman, num papel secundário, injeta acidez no caldo açucarado e impede que o universo profissional de Jill vire mera decoração culinária. Ciara Bravo, mesmo condenada pela estrutura a existir como memória e ferida, não é reduzida a santinha terminal, o que já é alguma coisa num gênero que adora transformar mortos em instrumentos de aperfeiçoamento moral dos vivos. Robinson cresce conforme Wes deixa de ser apenas o destinatário indevido das confissões e passa a encarar as consequências de sua passividade. Mas o filme pertence mesmo a Zoey Deutch. Ela faz de Jill uma criatura cheia de arestas, capaz de rir quando deveria desabar e desabar quando parecia pronta para uma tirada cômica. É essa instabilidade que dá corpo ao luto, porque o sofrimento, ao contrário do que ensinam os dramas ruins, raramente se comporta com solenidade.
“Mensagens para Isabelle” não reinventa a comédia romântica, e talvez nem tenha essa ambição. Sua virtude está em devolver ao gênero uma emoção menos plástica, admitindo que o amor pode começar numa transgressão, amadurecer numa culpa e ainda assim encontrar alguma forma de beleza. Leah McKendrick erra quando adoça demais certas passagens e confia além da conta na simpatia natural de seus intérpretes, mas acerta no essencial: entende que ninguém se apaixona por uma pessoa sem antes se apaixonar pela maneira como essa pessoa organiza sua própria desordem. Jill deixa recados para uma morta e acaba sendo ouvida por um vivo. Parece pouco. Para quem atravessa o luto, é quase um milagre.

