Em “Peaky Blinders: O Homem Imortal”, filme de 2026 dirigido por Tom Harper e lançado pela Netflix, Tommy Shelby (Cillian Murphy) sai do isolamento e retorna a Birmingham durante a Segunda Guerra Mundial para salvar a família e o país de uma conspiração nazista. A história acompanha o velho chefe dos Peaky Blinders depois dos acontecimentos da série, quando seu afastamento abre espaço para o filho Duke Shelby (Barry Keoghan) assumir poder demais, cedo demais, em uma cidade tomada por medo, ambição e fumaça.
Tommy Shelby já não aparece como o homem que atravessava Birmingham com a certeza de quem podia dobrar qualquer rua à própria vontade. Agora, ele vive afastado, preso a uma espécie de descanso incômodo, quase luxuoso, mas sem paz verdadeira. O antigo líder parece ter escapado da cidade, da família e dos mortos, embora ninguém conheça a família Shelby o bastante para acreditar em aposentadoria. Em “Peaky Blinders: O Homem Imortal”, essa distância dura até o passado bater à porta com a delicadeza de um tijolo.
A volta ocorre em 1940, quando a Inglaterra está mergulhada na Segunda Guerra Mundial e Birmingham sente o peso do conflito. A cidade industrial, tão ligada à identidade da série, ganha outro tipo de ameaça. Não é apenas a disputa entre gangues, apostas e lealdades locais. Há uma conspiração nazista em curso, e Duke Shelby, filho afastado de Tommy, se aproxima de homens perigosos enquanto tenta ocupar o lugar deixado pelo pai. A guerra, nesse caso, não fica ao fundo. Ela entra na casa, atravessa a família e cobra providências.
Um filho no lugar errado
Duke Shelby, vivido por Barry Keoghan, carrega a inquietação de quem recebeu um sobrenome grande demais antes de receber uma explicação decente. Ele não é apenas um herdeiro rebelde, daqueles que querem irritar o pai por esporte. Duke quer reconhecimento, comando e algum tipo de paternidade que não venha apenas em forma de lenda. Essa carência abre caminho para alianças arriscadas, especialmente quando figuras ligadas ao nazismo percebem que o jovem Shelby pode ser uma porta útil para interesses maiores.
É aí que o filme encontra sua melhor tensão familiar. Tommy não retorna apenas para impedir um crime ou limpar uma bagunça alheia. Ele volta para lidar com o dano que sua própria ausência ajudou a criar. O filho que ele tenta salvar já aprendeu a sobreviver sem pedir licença. Essa é uma ferida mais difícil de fechar do que qualquer acordo quebrado nas ruas de Small Heath, porque envolve sangue, orgulho e uma quantidade considerável de teimosia britânica.
Cillian Murphy retoma Tommy com uma presença menos exibida e mais cansada, o que favorece o personagem. O olhar continua calculista, a fala continua baixa e a elegância permanece quase ofensiva, mas agora há um peso diferente. Tommy parece saber que venceu batalhas demais para continuar fingindo que saiu ileso. O filme aproveita isso ao colocar o personagem diante de Duke, não como salvador impecável, mas como um pai que chega tarde e ainda quer escolher as regras da conversa.
A conspiração chega à família
Rebecca Ferguson aparece como Kaulo, uma presença nova nesse universo marcado por homens que falam pouco e ameaçam muito. A personagem entra na história ligada ao retorno de Tommy e ajuda a dar ao filme um ar de missão atravessada por segredos. Já Tim Roth interpreta Beckett, figura associada ao perigo político que ronda a trama. Sua participação reforça a ideia de que os inimigos de agora não querem apenas território. Eles querem influência, acesso e vantagem em um país ferido pela guerra.
A presença de Ada Thorne (Sophie Rundle) também ajuda a lembrar que a família Shelby sempre teve mulheres capazes de enxergar o desastre antes dos homens admitirem o problema. Ada conhece o custo de cada escolha tomada por Tommy e sabe que o sobrenome da família nunca circula sem deixar contas pendentes. Quando ela surge, a história ganha uma dose necessária de lucidez. Alguém precisa olhar para aquele amontoado de ternos, armas, culpa e fumaça e perguntar quem vai pagar o prejuízo.
“Peaky Blinders: O Homem Imortal” é mais interessante quando trata a conspiração nazista e o drama familiar como peças do mesmo problema. Duke não cai em risco apenas por ingenuidade. Ele entra nesse circuito porque procura lugar, respeito e uma figura de autoridade. Tommy, por sua vez, tenta conter a ameaça externa enquanto enfrenta uma falha íntima. Salvar o país parece grandioso. Salvar o filho, neste caso, exige algo menos confortável para ele, que é admitir participação no estrago.
Birmingham continua sendo personagem
Tom Harper, que já havia passado pela série, mantém a atmosfera conhecida de “Peaky Blinders”, mas ajusta o ritmo para o formato de longa-metragem. A fuligem, os corredores, os galpões e as ruas de Birmingham seguem com aquele ar de mundo sempre prestes a pegar fogo, ainda que o filme não dependa apenas da pose. A cidade pesa porque representa origem, poder e cobrança. Tommy pode ter saído de Birmingham, mas Birmingham nunca saiu dele, o que é uma péssima notícia para qualquer tentativa de sossego.
O longa também se apoia no prazer de rever aquele universo com orçamento, elenco forte e senso de encerramento. Para quem acompanhou a série, há uma camada emocional evidente no retorno de Tommy Shelby. Para quem chega agora, a história talvez pareça carregada de nomes, feridas e alianças anteriores. Ainda assim, o conflito central é compreensível. Um homem que construiu um império volta para impedir que o próprio sangue seja usado por forças mais perigosas do que os velhos rivais de rua.
Um retorno com cicatrizes
A crítica que se pode fazer ao filme está na quantidade de contas que ele tenta acertar dentro de uma única história. Família, guerra, fascismo, herança, culpa e despedida passam pela mesma porta, e às vezes falta espaço para que personagens novos respirem mais. Rebecca Ferguson e Tim Roth têm força suficiente para render mais do que a trama lhes permite em alguns momentos. Mesmo assim, a presença deles dá densidade ao retorno de Tommy e ajuda a tirar o filme da simples celebração nostálgica.
“Peaky Blinders: O Homem Imortal” aceita que Tommy Shelby já não pode ser tratado apenas como mito de casaco escuro e navalha escondida. O personagem continua magnético, mas agora o charme vem acompanhado de perda. O filme preserva o suspense sobre os caminhos finais dessa volta e não precisa entregar todas as cartas para manter interesse. Ao devolver Tommy à fuligem de Birmingham, Tom Harper filma um homem tentando salvar o que restou da família antes que a guerra escolha por ele.

