No suspense de ação “O Agente”, lançado em 2007 e dirigido por Josef Rusnak, Wesley Snipes vive James Dial, um assassino aposentado da CIA que deixa o isolamento em Montana quando recebe a chance de consertar uma missão fracassada. O convite parte de Jeremy Collins, interpretado por Ralph Brown, antigo superior que o chama para Londres com uma oferta perigosa. O objetivo é eliminar Ali Mahmud Jahar, vivido por Nikolai Sotirov, um líder terrorista sob custódia policial. A promessa de redenção, porém, logo ganha cheiro de armadilha.
James Dial vive afastado do mundo, em um rancho em Montana, tentando manter distância do tipo de serviço que marcou sua vida. Ele não é apresentado como um herói de fala bonita nem como um justiceiro de vitrine. É um profissional treinado para desaparecer, agir com precisão e voltar para a sombra antes que alguém ligue os pontos. Wesley Snipes empresta a Dial essa mistura de cansaço físico e prontidão permanente, algo entre o homem que já viu demais e o soldado que ainda não aprendeu a ficar parado.
A volta ao jogo acontece quando Jeremy Collins reaparece com uma proposta tentadora. Anos antes, Dial esteve perto de matar Ali Mahmud Jahar, mas a missão falhou por um descuido. Agora, Jahar foi capturado e levado para Londres, sob proteção policial. Collins oferece a Dial uma oportunidade de terminar o serviço. O plano inclui passaporte, esconderijo e apoio local, mas também carrega uma cobrança silenciosa. Para Dial, aceitar a missão significa tentar recuperar uma reputação quebrada. Para Collins, significa apagar uma pendência antes que ela volte para sua mesa.
A missão em Londres
A operação leva Dial ao coração de Londres, onde o suspense abandona o rancho americano e passa a circular entre prédios oficiais, ruas vigiadas e rotas de fuga mal protegidas. Ele chega com ajuda de Terry Winchell, interpretado por Richard Harrington, um assistente designado para dar suporte à retirada depois do ataque. A missão parece planejada com frieza, mas “O Agente” trabalha melhor quando expõe a fragilidade desses planos. Basta uma movimentação inesperada para o cálculo militar virar improviso.
Disfarçado de padre, Dial se posiciona na torre de uma igreja em frente ao local para onde Jahar será levado. A imagem tem aquele tempero quase irônico de thriller de ação. Um assassino profissional escondido sob roupa religiosa, esperando o alvo certo no alto de uma igreja, não é exatamente material para catequese. A cena, porém, funciona porque resume o tom do filme. Dial depende de paciência, mira e silêncio, mas a cidade ao redor dele é barulhenta, cheia de policiais, câmeras e gente atravessando seu caminho.
Quando Jahar aparece escoltado, o plano começa a perder estabilidade. O alvo está protegido, há gente demais ao redor e a chance de erro cresce a cada segundo. Dial insiste porque aquela não é apenas mais uma tarefa. É a missão que o trouxe de volta ao passado. O tiro acontece, mas a fuga sai pior do que o previsto. Winchell atrasa, a polícia percebe a movimentação e a retirada vira perseguição. Em poucos minutos, o que deveria terminar com discrição deixa mortos, feridos e rastros suficientes para comprometer todos os envolvidos.
Uma criança no esconderijo
Ferido, Dial chega ao esconderijo preparado para desaparecer, mas encontra Emily Day, interpretada por Eliza Bennett, uma menina de 12 anos que mora com a avó. A presença dela muda o ritmo da história. Emily não surge como alívio infantil fabricado, e sim como uma intrusão curiosa em um mundo de adultos perigosos. Ela vê um homem sangrando, faz perguntas, ajuda como pode e força Dial a lidar com algo que seu treinamento não resolve tão bem quanto uma arma.
A relação entre os dois dá ao filme seu ponto mais humano. Dial não se torna doce de repente, nem vira pai improvisado com facilidade. Ele continua desconfiado, ríspido e pouco disposto a explicar o que aconteceu. Emily, por sua vez, observa mais do que deveria e participa mais do que qualquer adulto sensato permitiria. Essa convivência cria uma tensão interessante, porque a menina se torna abrigo e risco ao mesmo tempo. Ao ajudá-lo, ela também se aproxima de uma história que pode colocá-la em perigo.
É nesse trecho que Wesley Snipes encontra um registro mais contido. O ator não depende apenas da força física ou das cenas de perseguição. Ele trabalha com pausas, olhares e movimentos econômicos, dando a Dial a aparência de alguém que calcula tudo porque já perdeu o direito de errar. Eliza Bennett, por outro lado, injeta curiosidade e energia no enredo. Emily faz o papel da pessoa comum diante de um universo clandestino, onde uma porta fechada, uma ferida mal cuidada e uma visita inesperada podem mudar o destino de todos.
A caçada muda de dono
O problema cresce quando Collins percebe que Dial foi visto fugindo por uma câmera de segurança. Nos Estados Unidos, o antigo superior enfrenta investigações ligadas a operações secretas da CIA. Se a ligação entre ele, Dial e a morte de Winchell vier à tona, sua carreira pode desabar. Ralph Brown interpreta Collins como um homem menos preocupado com lealdade do que com autopreservação. Ele não quer resolver o caso. Quer manter seu nome longe dele.
Para proteger a própria imagem, Collins passa a empurrar a culpa para Dial. A situação piora quando o detetive superintendente chefe Andrew Windsor, vivido por Charles Dance, entra no centro da história. A morte de Windsor transforma Dial em suspeito ainda mais valioso para a polícia britânica. O ex-agente, que chegou a Londres como executor contratado, passa a ser caçado por quem deveria ignorar sua presença e por quem tem interesse em vê-lo desaparecer de vez.
A investigação também ganha peso pessoal com Annette Ballard, interpretada por Lena Headey. Filha de Windsor, ela entra na caçada movida por dever e perda. Ballard não vê em Dial apenas um fugitivo perigoso. Vê alguém ligado ao homem que ela perdeu. Lena Headey traz uma firmeza que impede a personagem de virar simples perseguidora. Ela age com pressão emocional, mas também com senso de autoridade, o que torna cada aproximação entre ela e Dial mais carregada.
Um thriller enxuto e irregular
“O Agente” pertence a uma linhagem de thrillers de ação que gostam de homens solitários, governos pouco transparentes e cidades estrangeiras cheias de corredores, câmeras e viaturas. O filme não tem a sofisticação de obras maiores do gênero, nem sempre sustenta a tensão com a mesma força. Ainda assim, sua trama é compreensível e avança com bons elementos de perseguição. Há tiros, luta, fuga e traição institucional, mas o interesse maior está em ver Dial tentando sobreviver sem saber em quem confiar.
Josef Rusnak mantém a história focada em deslocamentos e riscos. O rancho de Montana marca o passado que Dial tenta deixar quieto. Londres vira o lugar onde tudo volta a cobrar seu preço. O esconderijo aproxima o agente de Emily. A investigação policial fecha espaço ao redor dele. Essa divisão ajuda o espectador a acompanhar a progressão do enredo sem se perder em camadas artificiais. O filme pode ser simples, mas sabe onde colocar seus personagens e por que eles estão ali.
“O Agente” assume sua natureza de suspense de ação sem tentar parecer mais grandioso do que é. Há certa previsibilidade na figura do agente traído pelo próprio sistema, tema bastante conhecido no cinema. Ainda assim, Wesley Snipes sustenta o centro da narrativa com presença suficiente para manter o interesse. Eliza Bennett oferece frescor, Lena Headey dá densidade à investigação e Ralph Brown cumpre bem o papel do homem que prefere sacrificar um subordinado a perder poder. O thriller é modesto, mas eficiente, em que a redenção de James Dial passa menos por vencer todos ao redor e mais por conseguir permanecer vivo tempo bastante para provar que foi usado.

