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Homens que viveram tempo demais obedecendo a ordens costumam carregar uma estranha forma de inocência. Sabem desmontar um fuzil de olhos fechados, atravessar fronteiras sem deixar rastro, eliminar um alvo antes que alguém termine uma xícara de café, mas permanecem quase infantis diante da constatação de que a máquina para a qual trabalharam nunca lhes prometeu lealdade. “O Agente”, de Josef Rusnak, nasce desse velho desencanto dos thrillers de espionagem: o sujeito treinado para matar em nome de uma ideia abstrata de segurança descobre, tarde demais, que sua utilidade termina no exato instante em que se torna inconveniente.

James Dial, o ex-atirador de elite da CIA vivido por Wesley Snipes, é apresentado como um homem já retirado do mundo. Não se trata apenas de aposentadoria, palavra limpa demais para gente como ele, mas de uma espécie de desterro moral. Dial trabalhou em operações clandestinas, habitou zonas cinzentas onde governos negam o que mandam fazer, e parece ter aceitado a solidão como se ela fosse uma consequência administrativa de sua profissão. Quando recebe de um antigo empregador a proposta de executar um terrorista, a missão vem embrulhada na falsa simplicidade que sustenta quase todo filme de conspiração: entrar, mirar, disparar e desaparecer. Claro que nada disso poderia ser tão limpo.

Rusnak conduz “O Agente” como um produto de ação à moda antiga, sem o brilho acrobático das superfranquias nem a sofisticação paranoica dos melhores filmes sobre serviços secretos. O interesse está menos na surpresa da trama — bastante familiar, por sinal — do que na figura de Dial, um homem que tenta cumprir um último serviço como quem paga uma dívida com o passado e acaba percebendo que o débito era impagável. O roteiro de André Farwagi e Joshua Michael Stern põe o protagonista no centro de uma armação que envolve terrorismo, traição institucional e a velha desfaçatez de burocratas capazes de transformar cadáveres em relatórios. A partir daí, o matador passa a ser caça, fórmula repisada, mas ainda eficiente quando sustentada por um ator que entende o peso físico do silêncio.

Snipes sempre foi melhor quando seus personagens pareciam guardar dentro do corpo uma violência administrada com disciplina. Em “O Agente”, ele não tem a exuberância pop de seus anos mais conhecidos, nem o carisma expansivo de herói invulnerável; há, em vez disso, uma dureza cansada, uma economia de gestos que combina com Dial. O ator caminha, observa e reage como alguém que já viu demais para se espantar, mas ainda não perdeu completamente a capacidade de se indignar. Essa contenção ajuda o filme sempre que a encenação ameaça cair no automatismo das perseguições, dos esconderijos improvisados e dos telefonemas em que ninguém diz exatamente o que sabe.

A entrada da personagem de Eliza Bennett oferece ao longa uma válvula de humanidade. Sua presença desloca Dial do terreno puramente operacional para uma relação inesperada, quase paternal, em que o assassino profissional se vê obrigado a proteger alguém que não pertence a seu universo de códigos, senhas e execuções. É nesse vínculo que “O Agente” encontra alguma temperatura dramática. O filme não chega a explorar com grande finura a convivência entre os dois, mas basta que a menina exista em cena para que Dial deixe de ser apenas um corpo armado atravessando corredores e telhados. Ela o obriga a lembrar que há vidas fora da lógica militar, e essa lembrança, para um homem como ele, talvez seja mais perigosa que qualquer inimigo.

Lena Headey, por sua vez, acrescenta ao enredo uma presença mais afiada do que o material permite. Mesmo quando o roteiro a empurra para funções previsíveis dentro da engrenagem policial e conspiratória, a atriz sustenta uma atenção dura, uma inteligência de quem parece desconfiar da cena antes que a própria cena se explique. Seu papel poderia render mais, sobretudo porque o filme se beneficiaria de uma contraposição feminina menos decorativa e mais ativa diante do labirinto montado em torno de Dial. Ainda assim, Headey injeta sobriedade onde poderia haver apenas expediente.

O problema de “O Agente” está na falta de personalidade de sua conspiração. A história se move por peças conhecidas: o ex-agente traído, o alvo conveniente, o empregador ambíguo, a perseguição urbana, a polícia no encalço do homem errado, a menina que funciona como resíduo de inocência num ambiente contaminado. Rusnak filma tudo com competência modesta, sem transformar a ação em balé nem o suspense em grande delírio político. Há tiros, fugas e tensão suficiente para manter o interesse, mas falta ao conjunto uma marca mais indelével, algo que faça a trama escapar da prateleira dos thrillers funcionais.

Ainda assim, seria injusto desprezar o filme como mera reciclagem. “O Agente” tem a seu favor uma melancolia involuntária, talvez nascida justamente de suas limitações. James Dial é um desses homens que o cinema de ação insiste em ressuscitar porque eles resolvem, à bala, fantasias que a vida real só complica. Mas aqui, por baixo da casca de espetáculo, sobra a imagem de um profissional descartado pelo mesmo sistema que o formou. Ele não procura redenção com grandes discursos; procura apenas sair vivo de uma armadilha que conhece bem demais. Quando um assassino precisa provar que ainda conserva alguma decência, já não estamos diante de heroísmo. Estamos diante de um mundo que terceirizou a culpa e depois fingiu surpresa ao encontrá-la coberta de sangue.


Filme: O Agente
Diretor: Josef Rusnak
Ano: 2007
Gênero: Ação/Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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