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Há homens que atravessam o deserto como se atravessassem uma sentença. Não procuram revelação, não esperam redenção, não carregam nenhuma ideia nobre de futuro. Apenas seguem, com sede, poeira nos sapatos, uma arma por perto e a ilusão de que alguma escolha ainda lhes pertence. “Onde os Fracos Não Têm Vez”, dos irmãos Joel e Ethan Coen, nasce desse engano. À primeira vista, parece mais uma história de dinheiro sujo, tráfico fracassado e perseguição implacável; pouco depois, revela-se uma meditação seca, quase cruel, sobre um mundo em que a violência já não precisa de motivo, rosto humano ou explicação convincente. Ela simplesmente chega.

No Texas do começo dos anos 1980, Llewelyn Moss, caçador vivido por Josh Brolin com uma mistura de esperteza rústica e vaidade suicida, encontra no deserto o resultado de uma negociação de drogas que terminou em matança. Corpos espalhados, caminhonetes crivadas de bala, um sobrevivente à beira da morte, heroína e uma valise com dois milhões de dólares. Moss sabe que não deveria tocar em nada. Também sabe que, se virar as costas, continuará sendo o mesmo sujeito de sempre, morando num trailer, discutindo com a mulher, Carla Jean, e matando antílopes para passar o tempo. O gesto de pegar o dinheiro é menos uma decisão criminosa que um desafio infantil lançado ao destino. O problema é que o destino, aqui, atende pelo nome de Anton Chigurh.

Javier Bardem faz de Chigurh uma das presenças mais perturbadoras do cinema americano recente. Não há nele fúria, prazer visível ou aquela teatralidade comum aos psicopatas de vitrine. Ele fala pouco, anda como quem não sente o peso do próprio corpo, usa um corte de cabelo absurdo que deveria torná-lo ridículo e acaba tornando-o ainda mais ameaçador. Sua arma de ar comprimido, usada para abater gado, transforma portas, fechaduras e testas humanas em coisas igualmente vulneráveis. Chigurh não persegue Moss apenas porque foi contratado; persegue porque alguém rompeu uma ordem secreta que só ele parece conhecer. A moeda que lança antes de decidir se alguém vive ou morre não representa acaso algum. É só o ritual de um assassino que terceiriza sua vontade para continuar se vendo como instrumento.

Entre Moss e Chigurh está Ed Tom Bell, o xerife de Tommy Lee Jones, homem que carrega no rosto a fadiga de quem ainda acredita em decência, mas já não sabe onde ela foi parar. Bell não é um herói tardio nem um covarde; é um servidor público velho demais para fingir entusiasmo diante de uma brutalidade que não reconhece mais fronteiras. Suas falas têm a gravidade de uma elegia, mas os Coen evitam transformá-lo em sábio de porta de saloon. Ele investiga, chega atrasado, observa rastros, conversa com testemunhas, recolhe sinais de uma guerra que talvez nunca tenha começado porque sempre esteve ali, debaixo da superfície civilizada da América.

A adaptação do romance de Cormac McCarthy preserva esse sentido de mundo sem consolo. A direção dos Coen é precisa justamente porque não se exibe. A quase ausência de trilha sonora deixa os passos, tiros, motores e respirações tomarem conta da cena. A fotografia de Roger Deakins dá ao deserto uma beleza áspera, indiferente, enquanto os quartos de motel, postos de gasolina e estradas vazias parecem armadilhas abertas em plena luz do dia. Nada é mais inquietante que essa claridade. O mal não precisa da noite para agir.

Josh Brolin sustenta Moss sem pedir simpatia. Seu personagem é limitado, teimoso, muitas vezes imprudente, mas há nele uma coragem física que impede o espectador de desprezá-lo. Kelly Macdonald, como Carla Jean, entra aos poucos no centro moral do filme; sua aparente fragilidade esconde uma firmeza que se revela decisiva no encontro com Chigurh, quando a lógica monstruosa do assassino encontra alguém disposto a não aceitar suas regras. Tommy Lee Jones, por sua vez, faz um trabalho de recolhimento. Quanto menos Bell age, mais o filme se inclina sobre ele, até que se entenda que a verdadeira perseguição não era entre o caçador e o matador, mas entre um homem antigo e a certeza de que seu tempo acabou.

“Onde os Fracos Não Têm Vez” frustra quem espera um duelo reparador, um desfecho limpo, uma punição proporcional ao horror acumulado. Essa recusa é sua grandeza. Os Coen compreendem que certas histórias não terminam quando o sangue seca, porque o que as move não é o crime, mas a constatação de que a ordem moral pode desaparecer sem estrondo. No fim, resta Bell contando um sonho com o pai, uma chama levada adiante na escuridão. Talvez seja pouco. Talvez seja tudo o que ainda se pode carregar.


Filme: Onde os Fracos Não Têm Vez
Diretor: Joel Coen e Ethan Coen
Ano: 2007
Gênero: Drama/Faroeste/Policial/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
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