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Em “Touch”, drama romântico de 2024 dirigido por Baltasar Kormákur, um viúvo islandês viaja entre a Islândia, Londres e o Japão durante a pandemia para procurar a mulher que amou na juventude e que desapareceu de sua vida sem explicação. A história acompanha Kristófer, vivido por Pálmi Kormákur na juventude e por Egill Ólafsson na velhice, em uma jornada atravessada por memória, luto, desejo e pelas marcas deixadas por decisões que ninguém teve coragem de contar direito na hora certa.

No fim dos anos 1960, Kristófer (Pálmi Kormákur) é um estudante islandês da London School of Economics, mas sua vida acadêmica começa a perder lugar diante de suas convicções políticas e de certo desconforto com aquele ambiente. Depois de ser provocado por colegas, ele toma uma decisão meio impulsiva, meio orgulhosa, dessas que a juventude adora chamar de destino depois que dá certo. Entra no restaurante japonês Nippon, em Londres, para trabalhar como lavador de pratos.

O restaurante não aparece apenas como cenário charmoso, com fumaça, panelas e comida bonita. Ele é o lugar onde Kristófer precisa aprender regras, horários, hierarquia e uma cultura que não domina. O chef Takahashi, dono do Nippon, o recebe com disciplina severa e, aos poucos, permite que o rapaz deixe de ser apenas o estrangeiro grandalhão atrás da pia. Entre pratos, cortes, palavras em japonês e olhares discretos, Kristófer se aproxima de Miko (Kôki), filha de Takahashi.

O romance entre Kristófer e Miko nasce sem alarde. Baltasar Kormákur prefere acompanhar pequenas mudanças de intimidade, em vez de empurrar grandes declarações. Um olhar demora um pouco mais. Uma conversa ganha espaço. Uma visita fora do expediente muda o clima de uma cozinha antes controlada pelo pai. O filme acerta quando percebe que o amor, em certos casos, começa menos por frases perfeitas e mais pela insistência meio atrapalhada de alguém tentando aprender o idioma da pessoa amada.

O pai, a filha e o silêncio

Miko (Kôki) vive sob a autoridade de Takahashi, um homem marcado por perdas e por um passado familiar ligado a Hiroshima. O filme insere essa informação com cuidado, porque ela ajuda a entender o medo que cerca aquela família, sem transformar seus personagens em símbolos engessados. Miko conta a Kristófer que sua origem carrega o estigma dos hibakusha, sobreviventes da bomba atômica e seus descendentes, vistos muitas vezes com preconceito por causa da exposição à radiação. Essa camada histórica dá peso ao romance, mas não rouba sua dimensão íntima.

Takahashi não é retratado apenas como pai autoritário de manual. Ele vigia a filha, interfere em sua vida afetiva e tenta controlar o que ela pode desejar, mas o roteiro deixa aparecer uma dor antiga por trás dessa rigidez. Isso não suaviza seus atos, apenas impede uma leitura preguiçosa. O que ele faz tem efeito sobre Miko e sobre Kristófer, e esse efeito atravessa décadas. O restaurante, que antes oferecia entrada ao rapaz islandês, também vira uma fronteira emocional difícil de atravessar.

Quando Kristófer volta de um período fora e encontra o Nippon fechado, a história muda de temperatura. Miko e Takahashi partiram sem despedida, sem conversa e sem explicação suficiente. Para ele, resta apenas um pagamento deixado para trás, quase uma formalidade cruel diante do tamanho da perda. A partir desse vazio, “Touch” abandona o frescor do primeiro amor e passa a acompanhar aquilo que fica quando uma pessoa some sem permitir ao outro sequer formular a pergunta certa.

A pandemia fecha o mundo

Cinquenta anos depois, Kristófer (Egill Ólafsson) vive na Islândia, viúvo, solitário e com sinais de falha na memória. Seu médico sugere que ele resolva assuntos pendentes enquanto ainda tem lucidez e autonomia. A frase poderia soar pesada demais, mas o filme a usa com sobriedade. Kristófer não sai em busca de uma fantasia juvenil. Ele parte porque percebe que certas ausências, quando não são encaradas, continuam administrando a vida de quem ficou.

O problema é que ele decide viajar quando a pandemia de Covid-19 fecha aeroportos, restringe deslocamentos e transforma qualquer trajeto em pequena operação diplomática. Há algo discretamente irônico nisso. Depois de meio século esperando, Kristófer resolve agir justo quando o mundo inteiro parece dizer que é melhor ficar em casa. O roteiro aproveita esse contraste sem fazer graça fácil. Máscaras, formulários, ruas vazias e restrições sanitárias criam uma urgência concreta para um homem que já não pode confiar plenamente na própria memória.

Em Londres, ele procura vestígios do Nippon e descobre que o antigo restaurante já não existe da forma que lembrava. O espaço mudou, as pessoas seguiram suas vidas e a cidade tratou de cobrir o passado com novas fachadas. Kristófer precisa então procurar quem ainda possa lembrar de Takahashi e Miko. É uma investigação afetiva, feita sem detetives, sem pistas mirabolantes e sem grandes golpes de sorte. O que move a história é a persistência de um homem cansado, mas ainda disposto a bater em portas.

O passado cobra presença

Egill Ólafsson é contido ao interpretar Kristófer mais velho. Ele não precisa transformar cada cena em demonstração de sofrimento. Seu personagem carrega a idade no corpo, nos silêncios, na hesitação diante de uma informação nova. Pálmi Kormákur, na fase jovem, oferece outro registro, mais curioso, mais aberto ao risco, ainda capaz de achar que o mundo talvez seja menos complicado do que parece. Entre os dois, o filme cria a sensação de uma mesma vida vista antes e depois da cobrança do tempo.

Kôki dá a Miko uma presença delicada e firme, sem transformá-la em lembrança decorativa na história de Kristófer. Ela tem medo, desejo, afeto e limites impostos por uma família que tenta sobreviver ao próprio passado. Quando Yôko Narahashi aparece como Miko em idade avançada, o filme ganha uma serenidade dolorida. O reencontro entre passado e presente não é tratado como prêmio fácil para o espectador, mas como uma conversa que chega tarde e ainda assim precisa ser ouvida.

Baltasar Kormákur trabalha melhor quando deixa a história respirar. A alternância entre os anos 1960 e o presente ajuda o público a montar o quebra-cabeça emocional sem pressa, sempre ligado a escolhas concretas. A cozinha ensina Kristófer a entrar no mundo de Miko. A ausência dela transforma Londres em mapa incompleto. A viagem durante a pandemia dá prazo e risco a uma busca que poderia soar apenas nostálgica. O diretor às vezes se aproxima demais do sentimental, mas quase sempre para antes de tornar tudo açucarado.

Uma busca sem pressa vazia

“Touch” é um romance sobre aquilo que permanece quando a vida segue por obrigação, não por cura. O filme tem beleza, dor e uma leveza rara em detalhes pequenos, especialmente quando mostra o jovem Kristófer tentando se adaptar ao restaurante japonês com mais vontade do que jeito. Há uma graça discreta nessa inadequação, porque ele parece grande demais para a cozinha, para o uniforme e para a própria segurança de rapaz convicto. Aos poucos, porém, seu esforço deixa de parecer capricho e ganha ternura.

“Touch” cresce quando une amor e responsabilidade. O passado de Miko pesa sobre sua família, a memória de Kristófer começa a falhar e o mundo em pandemia torna cada deslocamento mais difícil. Ainda assim, ele continua. Não para recuperar a juventude, pois isso seria impossível, mas para olhar de frente uma ausência que nunca deixou de ocupar espaço. Quando Kristófer atravessa fronteiras atrás de Miko, o filme mostra que algumas perguntas envelhecem, mas não perdem o endereço.


Filme: Touch
Diretor: Baltasar Kormákur
Ano: 2024
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
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