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Famílias felizes costumam mentir melhor. Nas infelizes, a mentira apenas muda de cômodo, espera a visita certa, escolhe uma taça de vinho e volta à mesa no pior momento possível. “O Casamento de Rachel”, de Jonathan Demme, entende esse mecanismo com uma precisão quase cruel: basta que Kym deixe a clínica de reabilitação e chegue à casa onde a irmã, Rachel, prepara o casamento para que a celebração comece a se contaminar por tudo aquilo que aquela família fingia ter guardado.

Anne Hathaway faz de Kym uma presença elétrica, inconveniente, às vezes insuportável, mas nunca falsa. Ela entra em cena pedindo atenção e, ao mesmo tempo, castigando-se por recebê-la. Rachel, vivida por Rosemarie DeWitt com uma mistura certeira de afeto e exaustão, quer se casar, quer ser feliz, quer ter seu dia — e tem razão. O problema é que, numa casa marcada por culpa, vício, morte e ressentimento, ninguém tem direito a um dia inteiramente seu. Jenny Lumet escreve essas relações sem piedade decorativa: cada abraço pode virar acusação, cada brinde pode esconder uma cobrança, cada lembrança parece trazer junto uma conta antiga.

Demme filma tudo como quem foi convidado para a festa e, aos poucos, percebeu que estava diante de uma autópsia familiar. A câmera inquieta, próxima dos corpos, capta discursos, ensaios, músicas, danças, conversas atravessadas, silêncios e pequenas grosserias sem transformar a tragédia em espetáculo pesado. Há vida demais ali para que o filme se reduza ao trauma de Kym, e essa é sua força. Bill Irwin, como o pai amoroso e devastado, sugere um homem que aprendeu a sorrir por disciplina, não por leveza.

“O Casamento de Rachel” às vezes se alonga em seus rituais musicais e numa certa vontade de parecer espontâneo a qualquer custo, mas sua verdade emocional resiste. É um filme sobre a impossibilidade de separar festa e ferida quando todos conhecem o lugar exato onde dói. Rachel se casa; Kym sobrevive a mais um dia; a família segue inteira apenas na aparência. E talvez seja isso mesmo uma família: gente que se ama sem saber o que fazer com o estrago que causou.


Filme: O Casamento de Rachel
Diretor: Jonathan Demme
Ano: 2008
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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