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Em “O Livro de Colorir”, drama de 2024 dirigido por David Fortune, Lucky (William Catlett) tenta levar o filho Mason (Jeremiah Alexander Daniels), um menino de 11 anos com síndrome de Down, ao primeiro jogo de beisebol dos dois em Atlanta. O passeio parece simples, quase um daqueles planos de pai que começam com entusiasmo e terminam com cachorro-quente caro, fila longa e foto para guardar. Mas, para Lucky, nada é tão simples desde a morte da esposa, Tammy (Brandee Evans), cuja ausência ainda ocupa a casa, os horários e até o silêncio entre uma tarefa e outra.

Lucky é viúvo e sabe exatamente o tamanho da perda. Mason percebe que a mãe não está mais ali, mas ainda não junta todos os pedaços da morte dela. Essa diferença entre o que o pai carrega e o que o filho consegue compreender dá ao filme uma delicadeza rara. David Fortune não precisa transformar a dor em discurso. Ele prefere acompanhar o esforço diário de um homem que prepara refeições, ajuda o filho a se vestir, insiste na leitura e tenta manter a casa funcionando mesmo quando a vontade é sentar no sofá e desaparecer por algumas horas.

A rotina, em “O Livro de Colorir”, não aparece como detalhe doméstico. Ela é a forma possível de cuidado. Lucky ensina Mason a rezar antes de comer, acompanha as palavras que o menino tenta ler e celebra pequenas vitórias, mesmo quando o cansaço já tomou conta do corpo. Mason consegue reconhecer palavras simples, mas tropeça nas mais compridas. Quando repete “purple” aos poucos, som por som, o pai comemora com uma alegria que parece pequena para quem vê de fora, mas enorme dentro daquela casa.

Um jogo que vira missão

A ida ao jogo dos Braves surge como tentativa de respiro. Lucky quer tirar Mason de casa, criar uma memória fora do luto e oferecer ao filho uma experiência comum, dessas que tantas famílias vivem sem pensar muito. O problema é que a vida deles perdeu a antiga margem de segurança. Falta carro confiável, falta dinheiro sobrando e falta outra pessoa para dividir a carga quando o dia começa a sair do controle.

O filme acompanha essa missão com paciência. Lucky precisa resolver transporte, lidar com atrasos e manter Mason seguro em espaços públicos que nem sempre parecem preparados para acolher uma criança com necessidades específicas. O roteiro cria tensão a partir de obstáculos reconhecíveis, sem apelar para truques fáceis. Um trem perdido, uma espera mais longa ou uma mudança de rota bastam para transformar o passeio em prova de resistência. Quem já saiu de casa com criança pequena sabe que o caos raramente pede licença. Aqui, ele ainda vem acompanhado de luto, contas e responsabilidade.

Mason no centro do cuidado

Jeremiah Alexander Daniels dá a Mason uma presença muito própria. O personagem não é tratado como símbolo, lição ou enfeite emocional da história do pai. Mason tem vontades, ritmos, medos e pequenas insistências. Ele precisa de ajuda, mas também reage ao mundo com curiosidade e personalidade. Essa escolha impede que “O Livro de Colorir” caia em sentimentalismo barato. O olhar do filme permanece atento ao menino, não apenas ao que ele representa para Lucky.

William Catlett, por sua vez, interpreta Lucky com uma mistura precisa de ternura e desgaste. O personagem ama o filho, mas esse amor não apaga o cansaço. Ele se irrita, respira fundo, insiste, recomeça a frase e tenta manter a calma mesmo quando tudo aponta para o fracasso do passeio. Essa humanidade faz diferença. Lucky não é um santo de camiseta suada. É um pai tentando fazer o necessário, ainda que o necessário mude a cada esquina.

Atlanta em preto e branco

David Fortune filma Atlanta em preto e branco, escolha que aproxima o espectador dos rostos, das mãos e dos pequenos gestos. A cidade aparece menos como cartão-postal e mais como território de deslocamento. Lucky e Mason precisam atravessar ruas, estações, horários e imprevistos para chegar a um lugar que, em outra circunstância, seria apenas diversão. O estádio vira promessa, mas o caminho até ele revela a verdadeira medida do vínculo entre os dois.

A câmera observa sem pressa, mas também sem se perder em contemplação vazia. O tempo do filme acompanha o tempo de Mason, e isso muda a percepção de cada cena. Uma palavra pode demorar. Uma explicação pode precisar ser repetida. Uma reação pode vir com atraso. Fortune respeita esse ritmo e faz dele parte da experiência, sem transformar a diferença do menino em ornamento. O resultado é um drama contido, sensível e mais firme do que aparenta.

Há também uma leveza discreta nas interações entre pai e filho. Ela nasce da convivência, não de piadas armadas. Mason pode responder de um jeito inesperado, Lucky pode improvisar uma saída e o filme permite que esses pequenos desvios tragam algum ar para a história. A graça, quando aparece, vem da vida doméstica em movimento. É aquele tipo de situação em que o adulto tenta manter autoridade, mas a criança já sequestrou o roteiro do dia com uma frase ou uma teimosia.

A beleza das tarefas simples

Ajudar Mason a se vestir, ensinar uma palavra, sair de casa, esperar o transporte, proteger o filho em público e tentar chegar ao jogo formam uma sequência de ações pequenas, mas cheias de peso. Cada uma exige atenção. Cada uma pode falhar. Cada uma lembra Lucky de que a morte de Tammy não suspendeu as necessidades do filho.

A crítica que o filme faz à vida contemporânea aparece de maneira discreta. Não há grandes discursos sobre inclusão, família ou luto. Há um pai viúvo tentando conseguir um carro, um emprego mais flexível e um dia menos pesado para o filho. Há um menino que precisa de constância, mas vive em um mundo apressado demais para esperar sua leitura de uma palavra. Essa diferença entre o ritmo de Mason e a pressa ao redor dá ao drama sua força mais honesta.

A viagem ao jogo não vale apenas pelo destino. O que impacta é Lucky tentando manter Mason por perto, atento e protegido, mesmo quando a cidade, o dinheiro e a saudade parecem empurrar os dois para lados diferentes. “O Livro de Colorir” olha para esse pai sem pedestal e para esse filho sem condescendência. Quando Mason volta às cores, às palavras e aos gestos que reconhece, Lucky ganha mais um pouco de chão para atravessar o dia seguinte.


Filme: O Livro de Colorir
Diretor: David Fortune
Ano: 2024
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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